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19/09/2004 - 04h48

Coração mata mais que o câncer da mama

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da Folha de S.Paulo

O número de mortes por problemas cardiovasculares em mulheres é seis vezes maior do que os provocados pelo câncer da mama. Porém, é mais comum a mulher se preocupar com a possibilidade de desenvolver um tumor no seio do que com o risco de sofrer um infarto ou um acidente vascular cerebral (AVC).

"Ela chega preocupada com a dor mamária, mas não liga para o fato de ser fumante e fazer uso de anticoncepcional ou de estar com o colesterol alto", afirma a ginecologista Cláudia Gazzo, do Hospital do Servidor Público Estadual. A combinação do anticoncepcional com o consumo de mais de 15 cigarros por dia aumenta 20 vezes o risco de doença cardiovascular.

Uma das hipóteses que explicariam essa maior sensibilidade da mulher em relação ao câncer de mama seriam as campanhas de prevenção da doença que acontecem há mais de dez anos no país.

Agora é a vez de os cardiologistas usarem a mesma estratégia para alertar o público feminino sobre os fatores de risco que levam às doenças cardiovasculares, a principal causa de morte entre as mulheres acima de 35 anos. Ontem, foi lançada a campanha Coração de Mulher, feita pela Pfizer com apoio científico da Sociedade Brasileira de Cardiologista.

"Não queremos que a mulher deixe de se preocupar com a mama, mas sim que cuide também do coração", afirma o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, presidente da Socesp (Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo) e professor da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Nessa cruzada, o papel do ginecologista, o médico mais consultado pelas mulheres na vida adulta, é fundamental. Na avaliação de Coelho, a medição da pressão arterial, o pedido de exames que avaliem o colesterol e a diabetes e o alerta para os perigos do tabagismo devem fazer parte de todas as consultas ginecológicas de mulheres acima de 45 anos.

Para o cardiologista, é importante que, na falta de informações sobre as doenças cardiovasculares, o ginecologista encaminhe a paciente a um cardiologista. "Um especialista em reprodução assistida não é obrigado a saber qual o melhor remédio para a hipertensão, por exemplo", explica.

Segundo Cláudia Gazzo, já faz parte da cultura do ginecologista medir a pressão arterial da paciente e avaliar, por exemplo, se determinada pílula anticoncepcional ou terapia de reposição hormonal está mudando o perfil de colesterol da paciente ou alterando os níveis de pressão.

Na opinião do presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, Antonio Felipe Simão, além do ginecologista, todos os outros especialistas devem ficar alertas aos fatores de risco cardiovascular da mulher e orientá-la para a mudança de hábitos (parar de fumar e controlar o peso, por exemplo).

Desde 1984, a taxa anual de mortalidade por doenças cardíacas no Brasil é maior em mulheres do que em homens. Elas também são mais prejudicadas no diagnóstico desses problemas.

Há pesquisas que mostram que cerca de 63% das mulheres que morrem de doenças cardíacas apresentavam sintomas atípicos, o que dificultou o diagnóstico e piorou as chances de sobrevivência e recuperação.

Em um infarto, por exemplo, enquanto os homens apresentam fortes dores no peito e falta de ar, as mulheres sentem náusea, dor abdominal e mal-estar geral, segundo Antonio Simão.

Campanha

A campanha Coração de Mulher terá apresentações de grupos performáticos, que vão chamar a atenção das mulheres sobre os riscos cardiovasculares em parques, shoppings e clubes da cidade.

Nesses locais, serão montados quiosques e tendas, onde agentes de saúde vão alertar as mulheres sobre a importância de controlar o colesterol e a pressão arterial, coisa que muitas cobram de seus parceiros e parentes, mas não fazem por si mesmas.

Será exibido um vídeo com a participação da atriz Christiane Torloni, "musa" da campanha, sobre a alta incidência de doenças cardiovasculares em mulheres, lembrando que o problema mata mais que o câncer da mama.

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