Equilíbrio
06/01/2005 - 10h26

Atividades destinadas a humanizar hospitais ganham adeptos

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GUSTAVO PRUDENTE
Free-lance para a Folha de S.Paulo

Um sorriso tímido e discreto desponta no rosto de Felipe Garofalo Cavalcanti, 21, internado há mais de 15 dias devido a uma febre persistente e sem diagnóstico determinado. Sentado na sala de convivência, ele ouve um grupo de enfermeiras cantar. "Minha febre até passou. É o poder do som", acredita. Em outro hospital, Eliane (que não quis divulgar o sobrenome), 27, portadora do HIV, retira de sua fragilidade a matéria-prima para criar desenhos expressivos. "Pintar me ajudou a melhorar de uma paralisia que tive no braço direito", afirma. Numa terceira instituição, o recém-formado Lucas Santos Zambon, 24, despe sua máscara de médico e enverga um nariz de palhaço para brincar com pacientes internados. "Com isso, eles aceitam melhor o tratamento", explica.

Pacientes, acompanhantes, profissionais de saúde, voluntários e pessoas de diferentes contextos estão descobrindo na doença e no convívio com o sofrimento a capacidade de explorar e expressar seus potenciais. São os protagonistas do que se conhece como humanização hospitalar, um movimento que diz respeito principalmente à qualidade dos relacionamentos dentro do hospital.

Os especialistas nem gostam muito do termo, porque consideram que ele embute a hipótese de uma possível falta de responsabilidade e afeto em um lugar onde seres humanos cuidam de seus semelhantes. Preferem a idéia da recuperação de valores esquecidos ou relegados --a compaixão, por exemplo.

Seja qual for o conceito mais apropriado, o fato é que a proposta ganha cada vez mais força e quem quer contribuir para a melhoria dos hospitais encontra atualmente inúmeros espaços à disposição. Vale dançar, cantar, pintar, interpretar, cozinhar.

A humanização é fruto de uma nova percepção sobre as instituições de saúde. "O hospital é um lugar propício para que as pessoas reavaliem seus valores, porque é impossível lidar com a fragilidade humana sem questionar a própria vida", acredita Morgana Masetti, psicóloga e coordenadora do Centro de Estudos dos Doutores da Alegria, organização que atua dentro de hospitais desde 1991 (nos EUA, desde 1986). Mas o principal beneficiado com as mudanças, claro, é o paciente.

"Formei aqui uma família mais verdadeira que a de casa", conta Flávio, 29, internado desde setembro no Hospital Emílio Ribas para tratamento dos efeitos da Aids. Flávio diz ter ganho amigos entre médicos e enfermeiros, além de descobrir seus dons de artista plástico incentivado pelo Projeto Carmim, que oferece aulas de desenho e pintura para pacientes e funcionários do hospital. "Mudou tudo. Quando comecei a participar do projeto, meus quadros eram escuros. Agora, é tudo colorido", diz Vanda, 42, outra paciente.

O arsenal da humanização conta ainda com idéias que soam quase absurdas, de tão triviais. "São pequenos gestos, como segurar a mão do paciente e olhá-lo no olho enquanto tira a pressão" , diz Maria Júlia Paes da Silva, professora da Faculdade de Enfermagem da USP e autora de "O Amor é o Caminho - Maneiras de Cuidar".

Atitudes simples como essas aumentam a confiança dos pacientes nos profissionais de saúde e vêm sendo não só valorizadas como parte importante do trabalho da equipe, mas ensinados em cursos de capacitação para funcionários.

"Eu sempre colocava a responsabilidade pela minha indisposição nos problemas, na falta de tempo, no baixo salário, mas hoje não me sinto mais pressionada pela instituição. Percebi que, quando entro no hospital, estou lá para servir, para receber as pessoas com um sorriso ou uma atitude carinhosa", diz Vanessa Regina Teixeira Ramos, auxiliar de enfermagem do Hospital Universitário da USP, que concluiu há pouco mais de um mês um curso de sensibilização ministrado pelos Doutores da Alegria.

Mas uma mudança significativa nas relações entre a equipe hospitalar e seus usuários só ocorre quando há um compromisso permanente dos diversos setores envolvidos --da superintendência à área de limpeza, diz Morgana Masetti. "Em alguns hospitais, o cuidado é protocolar. As pessoas sorriem, mas você não se sente acolhido. Não basta definir as "dez regras" da humanização", afirma. Trata-se de redescobrir e trazer para o cotidiano sentimentos como compaixão e respeito pelo próximo, uma meta difícil, tanto para quem trabalha quanto para quem depende de seus serviços.

"A violência institucional não é de mão única. Muitos usuários, por já estarem decepcionados com o sistema de saúde, chegam ao hospital com três pedras na mão", diz Maria de Fátima de Oliveira da Cunha, coordenadora do Projeto Acolhimento da Autarquia de Ermelino Matarazzo, responsável pelo gerenciamento de três hospitais na zona leste de São Paulo.

Novos critérios

Uma das provas de que o conceito veio para ficar são as ações de grande proporção, como o HumanizaSUS, programa do governo federal criado para incentivar ações de humanização no sistema público brasileiro, e o Congresso Brasileiro de Humanização Hospitalar, iniciativa de diversos setores da sociedade civil para trocar experiências e discutir os rumos para a área.

Desses debates, estão surgindo conceitos mais claros e fundamentados do que é a humanização e de como deve ser conduzida. Ficou para trás a idéia de que esse tipo de trabalho é feito por pessoas "especiais", que se sacrificam para ajudar os mais necessitados.

"Não cabe mais a história do voluntário assistencialista", afirma Valdir Cimino, fundador da Associação Viva e Deixe Viver e um dos idealizadores do Congresso de Humanização. Hoje, a tônica dos projetos é privilegiar ações que valorizem o trabalho multiprofissional. "Não basta cada um fazer o que quiser. É preciso ouvir pacientes, funcionários e gestores, com o objetivo de entender a fundo o que o hospital está de fato precisando. Em alguns lugares, está acontecendo um vale-tudo de projetos", afirma Masetti. "É preciso respeitar determinados limites, pois nem sempre a criança quer ver o palhaço."

Há também obstáculos indiretos, mas que precisam ser superados. Dois deles são a precariedade dos salários na área e o ritmo puxado de trabalho em alguns hospitais, principalmente os públicos, que causam desestímulo e frustração. Outro é a valorização excessiva da tecnologia médica, em detrimento do contato humano, que torna a medicina cara e impessoal.

Para enfrentar as dificuldades, concordam especialistas de diferentes áreas, é necessário um engajamento social amplo, e os hospitais já perceberam isso. Não é por uma questão de boa vontade que seus dirigentes estão se abrindo à participação de diferentes grupos --a insatisfação dentro de algumas instituições chegou a tal ponto que melhorar a qualidade virou questão urgente.

No sistema público, a situação precária do atendimento nos hospitais levou o Ministério da Saúde a criar o QualiSUS, programa que está sendo implantado nas emergências das 27 capitais do país. "Estamos formando equipes de acolhimento para receber as pessoas e definir as prioridades de atendimento, a partir da gravidade do caso", diz Antônio Mendes, coordenador do programa.

Outra demonstração da força do conceito de humanização é o aumento do interesse por cursos específicos. Segundo Regina Benevides, coordenadora do HumanizaSUS, os cursos na área são os mais solicitados nos Fóruns de Educação Permanente, destinados à capacitação de funcionários do sistema público de saúde. Além desses cursos, existem também diversos tipos de oficina, como as de arte, e até um MBA em gestão de organizações de saúde.

Em alguns casos, o que era voluntário virou profissão. Eduardo Valarelli, fundador do Projeto Carmim, conseguiu abrir cursos pagos de arte e empreendedorismo social a partir do impulso que o Projeto Carmim deu à sua carreira.

Quem quiser participar apenas com idéias também conta com um número crescente de espaços de diálogo --existem desde comitês de humanização dentro dos hospitais até conselhos municipais de saúde, que decidem os rumos para o setor.

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