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27/01/2005 - 10h45

Monja defende atitude zen na vida cotidiana

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MARCOS DÁVILA
da Folha de S.Paulo

Ela não é o tipo de monja zen-budista que as pessoas costumam idealizar. Por exemplo: passou o final do ano passado ouvindo canções tocadas ao violão pelo primo Sérgio Dias, que nas décadas de 60 e 70 integrou o trio Mutantes, ao lado do irmão Arnaldo Baptista e de Rita Lee. Mutante também, Monja Coen, 58, acredita que o caminho para a verdadeira felicidade é pleno de transformações.

Lançando seu primeiro livro, "Viver Zen - Reflexões sobre o Instante e o Caminho" (Publifolha,128 págs., R$ 19,90) --uma seleção de textos da coluna que assina todos os domingos na "Revista da Hora", do jornal "Agora São Paulo"--, Coen diz que é possível ter uma atitude zen no dia-a-dia, sem precisar se retirar num mosteiro nem ser budista.

"O mosteiro é onde nós estamos. Não é o prédio, o edifício", diz ela, que passou 19 anos de vida monástica no Japão. Monja Coen é missionária oficial da tradição Soto Hu Zen-Budismo, com sede no Japão, e foi a primeira mulher e a primeira pessoa de origem não-japonesa a presidir a Federação das Seitas Budistas do Brasil, entre 1997 e 1998. Antes de partir em viagem ao Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, a monja recebeu o Equilíbrio na Comunidade Zen do Brasil, em São Paulo. Leia trechos da conversa a seguir.

Equilíbrio - Cientistas têm estudado os efeitos da felicidade e de estados de contentamento na mente humana em decorrência de práticas alternativas como a meditação. Como meditar pode ajudar na busca pela felicidade?

Monja Coen - Fizeram uma pesquisa com monges de um grupo de meditação do dalai-lama. Havia uma diferença entre os monges mais antigos e os mais novos em relação ao espaço do cérebro onde as reações de felicidade foram detectadas. A conclusão científica a que chegaram é que podemos nos treinar para ser mais felizes. As práticas meditativas levam a um estado de compaixão e isso é comprovado materialmente nos neurônios. Eles são plásticos e, assim como os músculos, podem ficar mais fortinhos se começarmos a procurar no outro alguma coisa boa.

Equilíbrio - O que é felicidade na sua opinião?

Coen - A felicidade está diretamente ligada ao que chamamos de sabedoria, ou de compreensão superior. Essa compreensão é nossa, da espécie humana. Não é para eleitos. É um estado de deslumbramento com a vida, mesmo na dor, no sofrimento.

Equilíbrio - A dor e o sofrimento fazem parte?

Coen - A felicidade não é uma coisa que aniquila a dor. Não dá para dizer "não vou ter mais sofrimentos, só vou ser feliz". A verdadeira felicidade é você perceber que a beleza é um processo contínuo. Se alguma coisa me magoa, eu fico triste. Eu não posso ficar alegre com a tristeza. Faz parte da experiência humana sentir saudade, amor, ternura, ficar triste, ter medo da morte. É trabalhar o que está acontecendo com você e não negar, não iludir. Não adianta querer cobrir com um veuzinho muito fino aquilo que é a nossa verdade.

Equilíbrio - É possível ser zen e sentir raiva?

Coen - Não existe esse negócio de "ah estou zen, nada me incomoda". Se estou zen, estou vivo. Estou com os pés no chão e sou um elemento de transformação do mundo. A indignação e a raiva são maravilhosas porque são elas que nos motivam a querer uma ação de transformação.

Equilíbrio - O contentamento não se confunde às vezes com o conformismo?

Coen - Há uma história budista que diz assim: a pessoa contente é feliz mesmo dormindo no chão duro. E aquele que desconhece o contentamento é infeliz mesmo dormindo num quarto luxuoso. Não significa que todo mundo tem de fazer voto de pobreza. Não é apenas se conformar com a situação. O caminho para essa busca da felicidade nem sempre é muito alegre. Há momentos em que você fala: "Não está acontecendo nada!". E, sem isso, você não chega lá. Não é só fazendo massagem e cuidando do corpo que encontramos felicidade. Nem só cuidando da mente e abandonando o corpo. Somos uma unidade, nosso corpo e nossa mente estão unidos.

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