04/08/2005
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10h17
LAVÍNIA FÁVERO
Colaboração para a Folha de S.Paulo
D de descanso, D de divertimento e D de desenvolvimento de novas formas de aprendizagem. Esses três Ds, como ficaram conhecidos, são as funções do lazer propostas pelo sociólogo francês Joffre Dumazedier (1915-2002), um dos mais conceituados estudiosos da área e que exerceu forte influência sobre pesquisadores do mundo todo. "Essas funções não são estanques, mesclam-se muitas vezes", diz Christianne Luce Gomes, coordenadora pedagógica do Celar (Centro de Estudos de Lazer e Recreação), da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Embora se conquiste qualidade de vida por meio do lazer, poucas são as pessoas, segundo Christianne, que conseguem aproveitá-lo de forma equilibrada, autêntica e significativa. Por pressões do grupo, da mídia e da moda, por ansiedade em querer ser feliz ou até por uma questão de status, há quem transforme os momentos de folga em desprazer. O D de divertimento, então, é quase esquecido.
Sair para dançar, por exemplo, não é o programa preferido do estudante de administração José Antônio da Silva, 21, mas os amigos insistem e o convencem a ir. E ele, que adora ficar em casa vendo filmes ou dar uma passada em lugares mais calmos, como bares, incorporou as boates a seu estilo de vida, mais pacato. "O povo quer balançar, não adianta. Sempre ouço os mesmos comentários: "Você é jovem, vai ficar em casa mofando?", e acabo entrando na onda. Acho bom sair de vez em quando, alivia o estresse, mas não precisa ser a toda hora."
José não bebe e prefere ficar quieto ainda que a balada inclua pista de dança. A solução para acompanhar os amigos sem abrir mão do sossego é pagar um ingresso mais caro e ter acesso à área VIP. "Até danço um pouco, mas gosto de estar no meu canto. Detesto muvuca", afirma. O principal motivo que o leva a sair, mesmo quando não tem vontade, é encontrar os amigos. "Se não for, fico semanas sem vê-los", diz. "Hoje não tenho mais medo, mas já senti muito receio de que as pessoas não me ligassem mais porque nem sempre aceito os convites", conta.
Resistir à cobrança de ir a determinado lugar do qual não se gosta não implica quebrar os códigos do grupo --ou não pertencer mais a ele. Pode, ao contrário, mostrar atitude, demonstrar que se tem personalidade, embora muitas vezes os jovens sejam bem suscetíveis à influência dos amigos. Cria-se, então, um paradoxo: o prazer acaba sendo quase que uma espécie de dever de casa. "É urgente que cada indivíduo se conheça e saiba mais sobre seus verdadeiros desejos", afirma a filósofa Marcia Tiburi, professora de pós-graduação da Unisinos, no Rio Grande do Sul, e uma das quatro integrantes do programa "Saia Justa", do GNT.
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ANA TEREZA CLEMENTELAVÍNIA FÁVERO
Colaboração para a Folha de S.Paulo
D de descanso, D de divertimento e D de desenvolvimento de novas formas de aprendizagem. Esses três Ds, como ficaram conhecidos, são as funções do lazer propostas pelo sociólogo francês Joffre Dumazedier (1915-2002), um dos mais conceituados estudiosos da área e que exerceu forte influência sobre pesquisadores do mundo todo. "Essas funções não são estanques, mesclam-se muitas vezes", diz Christianne Luce Gomes, coordenadora pedagógica do Celar (Centro de Estudos de Lazer e Recreação), da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Embora se conquiste qualidade de vida por meio do lazer, poucas são as pessoas, segundo Christianne, que conseguem aproveitá-lo de forma equilibrada, autêntica e significativa. Por pressões do grupo, da mídia e da moda, por ansiedade em querer ser feliz ou até por uma questão de status, há quem transforme os momentos de folga em desprazer. O D de divertimento, então, é quase esquecido.
Sair para dançar, por exemplo, não é o programa preferido do estudante de administração José Antônio da Silva, 21, mas os amigos insistem e o convencem a ir. E ele, que adora ficar em casa vendo filmes ou dar uma passada em lugares mais calmos, como bares, incorporou as boates a seu estilo de vida, mais pacato. "O povo quer balançar, não adianta. Sempre ouço os mesmos comentários: "Você é jovem, vai ficar em casa mofando?", e acabo entrando na onda. Acho bom sair de vez em quando, alivia o estresse, mas não precisa ser a toda hora."
José não bebe e prefere ficar quieto ainda que a balada inclua pista de dança. A solução para acompanhar os amigos sem abrir mão do sossego é pagar um ingresso mais caro e ter acesso à área VIP. "Até danço um pouco, mas gosto de estar no meu canto. Detesto muvuca", afirma. O principal motivo que o leva a sair, mesmo quando não tem vontade, é encontrar os amigos. "Se não for, fico semanas sem vê-los", diz. "Hoje não tenho mais medo, mas já senti muito receio de que as pessoas não me ligassem mais porque nem sempre aceito os convites", conta.
Resistir à cobrança de ir a determinado lugar do qual não se gosta não implica quebrar os códigos do grupo --ou não pertencer mais a ele. Pode, ao contrário, mostrar atitude, demonstrar que se tem personalidade, embora muitas vezes os jovens sejam bem suscetíveis à influência dos amigos. Cria-se, então, um paradoxo: o prazer acaba sendo quase que uma espécie de dever de casa. "É urgente que cada indivíduo se conheça e saiba mais sobre seus verdadeiros desejos", afirma a filósofa Marcia Tiburi, professora de pós-graduação da Unisinos, no Rio Grande do Sul, e uma das quatro integrantes do programa "Saia Justa", do GNT.
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