Equilíbrio
04/08/2005 - 10h19

Pessoa que "segue" amigos sente-se bem em atividades em grupo

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ANA TEREZA CLEMENTE
LAVÍNIA FÁVERO
Colaboração para a Folha de S.Paulo

Segundo o pesquisador do CNPq Nelson Carvalho Marcellino, autor de livros sobre lazer, a pessoa tipo maria-vai-com-as-outras sente-se bem não porque está participando de uma atividade com o grupo, mas por causa da boa impressão que provoca nos outros. "Ela quer agradar ao amigo ou ter assunto para conversar com ele", diz. São os líderes do grupo que estabelecem os parâmetros do que é bacana fazer. "A pessoa acaba se colocando em uma posição passiva, tendo experiências de lazer que não são fruto de seus próprios desejos, mas de imposições e determinismos sociais", diz Christianne Luce Gomes. "Romper com esse ciclo pressupõe compreender o papel do lazer na sua vida."

A pediatra Graziella Rodrigues Souza, 31, destoa das pessoas que ainda se encantam com as ofertas de entretenimento embutidas em um shopping center. Recorre a esse tipo de lugar por uma questão de praticidade: vai ao cinema e faz compras, já que em seus horários disponíveis as lojas de rua estão fechadas.

Mas, quando os amigos combinam de ir ao shopping para comer ou tomar algo no fim de semana, Graziella se antecipa --por não querer se estressar-- e tenta convencê-los do contrário. "O lugar é barulhento, a praça de alimentação está quase sempre lotada, você tem de ficar dando voltas para achar uma vaga para estacionar o carro", afirma. "Shopping é uma coisa impessoal, onde não se vê o lado de fora, não se sabe se é dia ou noite."

De simples centros de mercadorias, os shoppings se tornaram pontos de lazer. O número de freqüentadores não pára de crescer --no ano passado, só em São Paulo, foram registrados 185 milhões, em média, de visitantes por mês-- e as diversões, idem. Das cerca de 1.800 salas de cinema do país, mais de 1.100 ficam em shoppings.

Para o filósofo Renato Janine Ribeiro, professor titular de ética e filosofia política da USP (Universidade de São Paulo), esses espaços se tornaram um emblema da sociedade. "Roberto DaMatta [antropólogo], 20 anos atrás, contrastava "a casa" e "a rua". Hoje, a praça --onde as pessoas se encontravam, faziam "footing", paravam, ficavam-- e a rua --por onde as pessoas circulavam-- se esvaziaram. O shopping tem algo da praça porque é um lugar onde se fica. Mas é um lugar de consumo, não tem sol nem ar natural. Por isso, ele é um emblema de como nossa sociedade constrói seus ideais: pouca natureza, tudo artificial."

Artificial também pode ser a noção que as pessoas têm de aproveitar o tempo livre, expressão bastante desgastada pelo mau uso. "Ler, ficar em casa ou dormir algumas horas a mais parecem atividades de pessoas solitárias, pouco criativas, com dificuldade de relacionamentos "interessantes". É importante se mostrar ativa, extrovertida, sociável", diz a professora Fátima Cabral, da Faculdade de Filosofia e Ciências da Unesp (Universidade Estadual Paulista).

Ela diz que, para a empresa em que se trabalha e para os amigos, é importante investir na imagem de quem cuida do corpo e está sempre muito bem informado. "Ainda que à custa de uma relativa frustração e de um estresse físico e mental." Fátima Cabral questiona se as novas tecnologias têm mesmo o papel de facilitar e agilizar a vida --o que, em conseqüência, ajudaria a impulsionar o tempo vago. "Mas, cada vez mais, as pessoas estão aprisionadas, tendo seu tempo submetido ao toque do celular, à consulta do e-mail, à pesquisa da última notícia na internet", diz. "Ninguém se dedica mais a algo que não pode ser abreviado. Ficar sozinho exige certa competência. Caso contrário, logo se cai na depressão e no tédio. Daí a "obrigação" do lazer."

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