Equilíbrio
04/08/2005 - 10h19

Horror ao vazio obriga pessoas a sair de casa

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ANA TEREZA CLEMENTE
LAVÍNIA FÁVERO
Colaboração para a Folha de S.Paulo

A ânsia de sempre desempenhar uma atividade está intimamente ligada ao que os filósofos chamam de "horror vacui" (horror ao vazio). "Vivemos em uma sociedade ansiosa, em que não há espaço para não se fazer nada, pois o não-fazer, o vazio, nos obriga a criar, a pensar, a perguntar. E temos medo de perguntar e muito medo do que pode ser respondido", diz Marcia Tiburi.

"É uma antiga e falsa sensação de inferioridade o fato de não fazer nada", completa Sérgio Stucchi, coordenador do Departamento de Estudos do Lazer da Faculdade de Educação Física da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas). Tiburi sempre achou o ato de se divertir muito chato. "Desde adolescente, eu dormia nas poucas festas a que ia. Sempre preferi ficar em casa escrevendo, desenhando ou conversando com amigos."

Mas passar o fim de semana em casa, sem produzir algo de especial, é o que de pior poderia acontecer a alguém, segundo os modelos predeterminados do chamado "lazer de bom gosto". Afinal, a indústria do entretenimento oferece milhares de opções, de jogos eletrônicos e parques temáticos a espetáculos, feiras, clubes e restaurantes de todas as estrelas. É possível, porém, não dar ouvidos a esses apelos e esquivar-se da influência da indústria cultural.

"E exercer um lazer contemplativo e chegar ao descanso físico, divertir o espírito, desenvolver a mente", diz Sérgio Stucchi. "Difundiu-se a idéia de que interessante é fazer algo para se divertir e acabar com o tédio. E, como na sociedade prevalece a velha equação de que "tempo é dinheiro", o tempo, de tão precioso, não pode ser desperdiçado", afirma Christianne Luce Gomes.

Obrigar-se a estar sempre em ação pode ser ditado pelo próprio temperamento --para quem tem personalidade mais inquieta ou agitada, que vive como se o mundo fosse acabar amanhã, é mesmo difícil parar e contemplar o céu, por exemplo. Acaba-se entrando em um ciclo de autocobrança, que pode resultar em níveis elevados de estresse.

"Chega segunda-feira e ninguém quer responder à pergunta "O que você fez no fim de semana?" com algo do tipo "Fiquei em casa, descansei, arrumei o meu armário". Existe quase uma obrigação de incluir no currículo alguma coisa interessante para contar aos amigos", afirma o psiquiatra Tito Paes de Barros Neto, do Amban (Ambulatório de Ansiedade) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Segundo ele, as pessoas podem se desgastar para ter lazer --quando se postam na fila quilométrica para ir ao cinema ou quando viajam horas durante um feriado prolongado-- ou acabar ficando contrariadas. "Quando se decide ver um filme em casa também pode ser aborrecido, ou porque a locadora está cheia ou porque não tem o filme que se quer."

A professora Fátima Cabral diz que as pessoas têm ansiedade de mostrar aos outros o que foi feito no final de semana, nas férias. "O tempo livre também adquiriu a noção de "produtividade'", afirma. A produção da farmacêutica Fabiana Andreotti Vaz, 26, é espantosa. Louca por fotos, ela vem carregada delas sempre que volta de viagem. Na última que fez, ao Canadá, tirou mais de mil fotografias em 15 dias. "Procuro aparecer ou colocar alguém de quem gosto no quadro, senão fica chato de ver", diz. Tudo vira alvo das lentes de Fabiana, que se preocupa em registrar os detalhes de cada lugar --a casa onde ficou, o ponto em que pegava o ônibus, os guias. "Não sei quando vou poder voltar, por isso acho melhor fotografar tudo para me lembrar depois", justifica.

Para o pesquisador Nelson Marcellino, o indivíduo que fica preocupado em registrar cada detalhe congela o momento para vivê-lo depois por meio da foto ou do filme. "Mas ele não aproveitou, de fato, aquele instante." É como se estivesse acumulando provas, segundo Fátima Cabral, para mostrar aos amigos como aquela experiência rendeu o máximo de alegria. "Já não somos capazes de realizar algo apenas para o nosso deleite", avalia.

SUFOCO NAS FÉRIAS

O frenesi de mergulhar em atividades que trarão muito prazer fica ainda mais intenso quando se avistam as férias. "A mídia se incumbe de nos apresentar as formas mais atraentes de lazer, aquelas que estão na moda. O "ideal" seria, então, passar as férias, que tanto demoram a chegar, em um "resort" ou um spa, em vez de ficar em casa", diz Christianne Luce Gomes.

A paixão pelo futebol fez o publicitário Rafael Andres Baraja, 29, unir o útil ao agradável: viajou à França, de férias, para assistir à Copa do Mundo, em 1998. Rafael só não esperava que a operadora de turismo comunicasse, na última hora, que não tinha conseguido os ingressos do jogo final para os turistas que, um ano antes, pagaram pelo pacote. A saída foi ir para o estádio segurando um papelão escrito em francês "compro ingressos", já que os cambistas vendiam a entrada por 2.000 dólares.

Rafael conseguiu ver o jogo graças a uma jornalista americana, que vendeu o bilhete por um valor pouco superior ao da bilheteria. "Paguei o maior mico", diz. Não foi a primeira nem a última vez. Fã incondicional do Corinthians, Rafael faz qualquer coisa para ver o time jogar. "Você passa horas na fila para comprar o ingresso. Na hora de entrar no estádio, é a maior confusão, os banheiros são terríveis, as pessoas se machucam. Isso me incomoda, mas é o preço que pago para assistir aos jogos", diz ele, que já viajou a Buenos Aires, para ver Corinthians e River Plate, na Copa Libertadores da América, em 2003, sem tíquete. Adivinhe quem ganhou?

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