Equilíbrio
02/03/2006 - 11h52

Exames não detectam problemas em mulheres

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TATIANA DINIZ
da Folha de S.Paulo

Adriana Prado, 35, cuida de toda a parte de marketing de um portal de beleza e de um programa de televisão. Tem quatro filhos e toma conta dos três mais novos sozinha. Levanta às 5h30 diariamente para fazer o café da manhã e deixar as crianças na escola. Depois, encara o trabalho corrido de criar e executar projetos. "É muita pressão", desabafa.

Estressada e deprimida, ela conta que engordou 30 kg em um ano e meio. Um dia, há dois meses, entrou numa clínica de estética para fazer um peeling. "Estava me achando horrorosa e sentindo uma dor na boca do estômago. Uma médica tirou minha pressão, viu que estava muito alta e chamou o socorro. Foi o que me salvou, eu estava enfartando", conta.

Antes do susto, ela nunca tinha pensado que pudesse ter algum problema de coração. "Na hora do desespero, eu só pensava nos meus filhos. Depois que passou, comecei a me perguntar por que nunca adotei uma postura preventiva, por que deixei as coisas irem até aquele ponto. Mas, sinceramente, até isso acontecer, ir a um cardiologista foi algo que nunca passou pela minha cabeça", confessa.

Como Adriana, muitas mulheres tendem a se achar "imunes" às doenças cardiovasculares. "O risco tem sido subdimensionado porque a sintomatologia é mais freqüente entre os homens", avalia o cardiologista Jacob Szejnfeld, diretor dos laboratórios Cura, em São Paulo, e professor de diagnóstico por imagem da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Szejnfeld orientou uma tese de doutorado escrita pela também cardiologista Eliane Fiuza Pinto, em que foi traçada uma correlação entre a ocorrência de calcificações vasculares exibidas na mamografia e a incidência de doenças cardiovasculares. "Toda mulher faz mamografia, mas o ginecologista geralmente ignora essas calcificações porque não representam perigo de tumor. Se o ginecologista atentar para o fato de que aquele pode ser um indício de doença cardiovascular e encaminhá-la a um cardiologista, isso pode ser valioso", comenta.

A publicitária Renata Rode, 29, penou durante um ano e meio para descobrir que sofria de síncope neurocardiovascular --tinha desmaios repentinos que a impediam de dirigir. "Minha família vivia preocupada comigo, achando que a todo momento eu poderia estar caída em qualquer lugar", conta. Os exames de coração não apontavam nada, e os médicos tendiam a apostar em um problema neurológico. Foi a 12ª cardiologista que procurou quem conseguiu diagnosticar o problema corretamente. "Descobrir que era o coração e ter a chance de me cuidar foi um alívio", afirma Renata, que está sob medicação e vive sem desmaiar há um ano e três meses.

"É preciso desfazer essa idéia de que a mulher não tem problema cardiovascular. Hoje, o volume de pacientes que chegam aos cardiologistas ainda é predominantemente masculino. Muitas vêm achando que não têm nada e, quando investigam, descobrem alguma coisa. É preciso disseminar também entre as mulheres a cultura preventiva em relação aos problemas de coração que, de certa forma, já existe entre os homens", enfatiza Flávio Cure, cardiologista e doutor em cardiologia pela USP.

Foi justamente inspirada na preocupação dos homens com quem trabalhava que a executiva Betina Moreira, 37, resolveu fazer seu primeiro check-up, aos 33 anos. O procedimento é repetido anualmente.

"Por conta da minha carreira, adotei um ritmo de vida alucinante e mergulhei em um universo tipicamente masculino. A maioria dos meus almoços passaram a ser de negócios, estava sob constante pressão por resultados, acordava no meio da noite pensando no projeto que tinha que entregar", relata.

"Foi quando notei que os homens que trabalhavam comigo tinham uma infra-estrutura doméstica que eu não tinha. Percebi que estava em desvantagem, que não tinha tempo para fazer atividade física nem para comer direito. Decidi me cuidar", conta.

Os exames trouxeram tranqüilidade em relação à saúde, e Betina passou a ser mais cuidadosa com a alimentação e com a qualidade de vida. "Mudei de empresa e hoje trabalho menos horas. O mais legal é perceber que nunca é tarde para começar a se cuidar. Na ansiedade de se colocar no mercado, a mulher se lança numa luta pesada. Mas as armas [de homens e mulheres] não são iguais. Para a mulher, o check-up traz o conforto de ela se sentir cuidada. É muito válido", ensina.

Diabetes e menopausa

A cardiologista e médica nuclear Paola Smanio, 40, alerta para a necessidade de atenção redobrada no caso de mulheres diabéticas. Em sua tese de doutorado, defendida na Unifesp, Smanio acompanhou 104 diabéticas que não apresentavam nenhum sintoma de distúrbio cardíaco. "Elas foram submetidas a uma série de exames. Sem que nunca tivessem sentido uma única dor no peito, 32,5% já tinham as artérias obstruídas."

A chegada da menopausa também deve desencadear estado de alerta. Com a queda no nível do hormônio estrógeno no organismo, perde-se grande parte da proteção natural feminina às doenças cardiovasculares. A regra também vale para as que, mesmo jovens, sofrem de distúrbios metabólicos ou têm deficiência dessa substância.

As cardiopatias femininas serão abordadas no livro "Risco Cardiovascular da Mulher", a ser lançado em breve pelo cardiologista e professor da Faculdade de Ciências Médicas de Santos, Hermes Xavier. Destinada aos médicos, a publicação vai reforçar a necessidade de orientar as mulheres sobre a importância dos cuidados com o coração.

"Menos da metade das mulheres relata que foi orientada por médicos sobre o risco de doenças cardiovasculares. Em verdade e historicamente, subestima-se a real importância do risco cardiovascular na população feminina quando se compara ao valor atribuído à população masculina. Essa situação precisa mudar urgentemente", conclui.

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