Ioga e sex shops estimulam vida sexual na gravidez
NATHALIA LAVIGNE
da Revista da Folha
Camisolas tamanho GG, óleos de massagem e talcos comestíveis eram o máximo que as grávidas esperavam encontrar no sex shop Revelateurs, em Moema, até há pouco tempo. Havia ainda um decotado pijama de alcinha com finalidade nada provocante: preparar o enxoval da futura mamãe para amamentar o bebê.
Acostumadas a se tornarem seres assexuados durante nove meses, as gestantes não disfarçam o encantamento ao encontrar nas prateleiras uma discreta caixinha entre tantos acessórios ousados. "O marido de uma cliente veio comprar uma camisola e achou o máximo quando mostrei o kit Mama Sutra, levou na hora", diz a vendedora Cláudia Vianna, 40.
Além de um colar para usar em volta de cintura com duas pedras energizantes (uma para a mãe e a outra para o bebê), o Mama Sutra - Passionate Pregnancy Kit (R$ 68) traz um minimanual com dicas divertidas de como se manter saudável e atraente durante a gravidez. No final, a autora Karen Salmansohn indica três posições do Kama Sutra que podem ser feitas em uma gravidez saudável.
O presente foi um sucesso. "Depois a mulher do cliente me ligou falando que adorou, que tinha sido uma ótima surpresa saber que estavam se preocupando com as grávidas", conta Cláudia. Seu sex shop vende, em média, quatro kits "Mama Sutra" por mês.
Apesar de ser o primeiro produto específico para grávidas vendido no sex shop Revelateurs, o kit é apenas um dos estímulos. "Há muito tempo que os obstetras falam das posições mais prazerosas para as grávidas", diz a ginecologista Rosana Simoes, coordenadora do setor de sexualidade do curso de ginecologia da Unifesp.
Afrodisíaco natural
O que a existência de um produto como esse quer dizer é que a condição de ventre avolumado, além de não impedir quase nenhuma atividade, se torna até um afrodisíaco natural para muitas mulheres. "O aumento da vascularização na região pélvica deixa os órgãos genitais mais sensíveis, aumentando a resposta sexual. Há mulheres que têm seu primeiro orgasmo durante a gravidez", afirma Rosana.
A visão da grávida como a consumidora voraz de doce, sedentária e sem interesse sexual ainda existe, mas não é a que predomina. A psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo, coordenadora do projeto sexualidade da USP, diz que não há uma explicação hormonal que justifique o aumento do desejo para algumas e o desinteresse completo pelo sexo para outras. "Ela pode perder esse interesse até para a proteção de sua atividade principal. Mas a maioria das mulheres está tão realizada e pouco preocupada -como, por exemplo, em engravidar- que o sexo pode se tornar até mais interessante", avalia.
Apesar de essa mudança já poder ser percebida nos primeiros meses, os enjôos e outros contratempos desse período não são bons aliados de uma vida sexual muito movimentada. Além disso, é uma fase em que os cuidados precisam ser maiores, principalmente entre as mulheres que sofreram algum aborto anterior nos primeiros meses. Até o terceiro mês de gravidez, os casos de abortamento variam entre 10% e 15%.
Quando Adriana Wild, 37, estava grávida de Júlia, hoje com dois anos e meio, o excesso de cuidados e a dedicação ao primeiro filho não deixavam tempo para que ela notasse outra mudança entre as tantas que se passavam com seu corpo. "Desta vez é menino, dizem que por isso a libido aumenta", palpita.
Assim como ela, outras duas alunas da aula de ioga para gestantes da Gama (Grupo de Apoio à Maternidade Ativa), grávidas de menino, usam a crendice popular para justificar a mudança.
Ioga para relaxar
Claro que o sexo da criança não tem influência no aumento do desejo sexual durante a gravidez. "A única explicação poderia ser a preferência histórica pelo filho homem e, por isso, a mulher se sente mais realizada e segura e o marido, mais viril", diz Carmita Abdo.
No caso de Adriana, além de estar mais relaxada por ser sua segunda gravidez, é provável que as próprias aulas de ioga sejam responsáveis pela motivação. "Na primeira gravidez, eu fiz só hidroginástica e alongamento. A ioga faz um trabalho mental também", diz.
A mamãe de primeira viagem Karin Fromn, 30, garante que sua libido aumentou muito graças à ioga, "que me deu mais segurança em todos os aspectos". Além da autoconfiança, fundamental na hora do parto normal, ela descobriu outra finalidade dos exercícios. Com 34 semanas, soube que o bebê estava sentado. A chance de ainda ter um parto normal era reforçar a meia-ponte e a meia-invertida, posições que ajudam o bebê a se virar.
Já a aluna Ivana de Andrade, 35, que começou a fazer ioga durante a gravidez para cuidar do posicionamento correto do bebê e da postura, acabou se empolgando com os exercícios para fortalecer o períneo. "Quero trabalhar bem essa região para não fazer a episiotomia", diz ela, referindo-se ao corte vaginal que amplia o canal na hora do parto. Os exercícios perineais também ajudam a estimular a região genital, aumentando a libido.
Sem estripulias
Na lista de recomendações para não perder o desejo durante a gravidez, exercícios físicos estão no topo. E os dois juntos terão outro papel fundamental. "Pode-se dizer que o sexo faz parte do 'pool' de exercícios para se chegar ao parto normal", diz Carmita.
De acordo com uma pesquisa apresentada em abril no encontro da Sociedade Americana de Fisiologia, os exercícios durante a gravidez trazem benefícios cardiovasculares não só para mãe, como também para o bebê.
Na hora de indicarem uma atividade, além de priorizarem as mais leves como ioga, natação e pilates, os médicos recomendam que se procure algo direcionado para as grávidas -de preferência, uma turma só de gestantes. Mas não foi esse o caso da professora de educação física da Body Systems Paula Alcici, 31. Até o sexto mês, ela continuou dando aulas de Body Pump.
Depois, como aluna, continua assídua nas aulas, mesclada com exercícios aeróbicos e musculação. "O segredo é compensar com alongamento, principalmente para as costas, até mesmo entre um exercício e outro. No Body Pump, fazemos muitos exercícios deitados, isso ajuda", diz Paula, ressaltando que o objetivo não é manter a forma física, mas, sim, ganhar motivação e diminuir as dores nas costas. E os frutos dessa motivação, é claro, são colhidos com o marido: "Não dá para fazer estripulias, mas não tive nenhum incômodo e continuei com a mesma disposição para o sexo".
"Estripulias", aliás, não são recomendadas nem para grávidas atletas como Paula. Mesmo para quem pretende seguir o Mama Sutra, é bom moderar nos esforços e nada de contorcionismos. A não ser que a intenção seja treinar, desde a barriga, um futuro trapezista.
Reportagem publicada em 22 de junho de 2008 na Revista da Folha
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