Sono infantil melhora com incentivo dos pais à independência
JULLIANE SILVEIRA
da Folha de S.Paulo
Despertares noturnos e demora para dormir são problemas comuns em crianças de até cinco anos. Para a maioria dos casos, felizmente, não são necessários remédios nem intervenções médicas. Já que a criança se condiciona à rotina, a dica é fazer com que ela se adapte a um sono independente. Assim, os pais poderão usar sua "influência" para ter menos problemas com os filhos --e já podem começar a fazê-lo por volta do quinto ou sexto mês.
"É importante que a criança tenha horários o dia inteiro: para comer, para as atividades do dia e para dormir", aconselha Gustavo Moreira, da Unifesp. Isso faz com que o pequeno aprenda a se organizar e assimile mais facilmente as regras da hora de dormir.
| Karime Xavier/Folha Imagem |
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| André Poças Orenstein, 2, abraça o ursinho de pelúcia Pimpinho, seu companheiro inseparável desde os seis meses |
Cerca de três horas antes do momento programado de ir para o quarto, deve-se parar com as atividades estimulantes. Optar por um jogo mais calmo em vez de televisão, computador e videogame ajuda a relaxar --a luz dos monitores pode atrasar a produção de melatonina, o hormônio que estimula o sono e é produzido na ausência de luz. Se chegam tarde do trabalho, os pais devem se controlar e deixar brincadeiras agitadas (como jogar as crianças para cima ou correr em volta da casa) e discussões entre o casal para outra hora --a criança percebe a ansiedade dos pais e pode ter dificuldades para iniciar o sono.
Na hora de ir para o quarto, é preciso seguir um ritual, que deve ser repetido diariamente. Pode começar no banheiro, com o escovar de dentes, e continuar no quarto, com a troca de roupa, ao colocar a criança no berço e cantar uma música. À medida que o filho cresce, pode-se acrescentar ao roteiro a leitura de uma história e a apresentação de figuras do livro. "Esse processo deve demorar de 15 a 20 minutos por dia e durar até a idade em que a criança solicitar. Quando elas ficam maiores, o que resta é o beijo e o boa-noite", diz Márcia Pradella, do Hospital Sírio-Libanês.
Após a despedida, os pais devem sair do quarto tranqüilamente e deixar a criança pegar no sono sozinha. A casa também deve seguir um ritmo mais lento e calmo, para que ela não se incomode com o fato de ter de repousar enquanto todos estão a mil por hora. "Filhos de famílias ansiosas têm mais dificuldade para começar a dormir, assim como de pais muito agitados ou barulhentos", diz Rosana Alves, neurologista infantil do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Crianças menores podem precisar de um objeto de transição nesse momento, para ajudá-las a se acalmar na hora de os pais saírem do quarto. André Poças Orenstein, 2, tem um companheiro inseparável desde os seis meses: Pimpinho, seu urso de pelúcia. Se acorda no meio da noite e o urso está fora da cama, ele chama pelos pais e só volta a dormir depois de resgatá-lo. "Um ursinho ou um travesseiro especial condicionam o sono e podem servir de argumento para não ter de levar o filho para a cama dos pais", explica Maurício Bagnato, coordenador do serviço de medicina do sono do Hospital Sírio-Libanês.
Com tudo isso, o filho deve conseguir administrar os despertares noturnos sem a necessidade de chamar os pais. Mas, se acontecer, um adulto pode até ir ao quarto para observar se tudo está bem e acalmar a criança, sem acender a luz nem tirá-la do quarto, para não reforçar a situação. Um afago pode ser suficiente para que ela entenda que está tudo bem e volte a dormir. Manter uma luz fraca acesa também pode ajudar a criança a se localizar à noite.
Reportagem publicada no dia 1º de maio de 2008 pelo jornal Folha de S.Paulo
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