10/08/2006
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11h27
da Folha de S.Paulo
No centro do picadeiro, a contorcionista parece feita de borracha. Estica de um lado, puxa do outro e faz parte do respeitável público resgatar o velho sonho de fugir com o circo. Mas, sem querer ser estraga-prazeres, é bom avisar: deixe o contorcionismo fora de suas ambições circenses.
A flexibilidade, fundamental nesse tipo de atividade, pode ser aprimorada com exercícios. Mas grande parte da capacidade de esticar o corpo está ligada a componentes genéticos.
"Se você não "escolheu bem" seus pais, esqueça", brinca o médico Cláudio Gil Soares de Araújo, diretor da Clinimex --Clínica de Medicina do Exercício. "Pode ver que muitos desses artistas vêm de famílias com tradição em contorcionismo."
Essa "herança" inclui a titina, conhecida como a "proteína da flexibilidade". Embora todas as pessoas tenham essa proteína nas fibras musculares, uma parte dela é variável, e essas mudanças ajudam a definir se você será mais ou menos maleável, diz Tania Salvini, professora de fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos.
Uma das formas de saber em que grupo você se encaixa é um exame conhecido como Flexiteste, que foi desenvolvido por Soares. Composto por 20 movimentos, cada um com uma pontuação que varia de zero a quatro, o exame mede quão flexível alguém é.
Quem alcança uma pontuação acima de 70 tem hipermobilidade. Isso não é, necessariamente, uma característica boa: a síndrome de hipermobilidade benigna, que leva a um nível de flexibilidade muito alto nas articulações, costuma gerar dores nas extremidades do corpo.
Mesmo em casos menos extremos, a mobilidade excessiva pode ser um problema. "Se um atleta tem frouxidão ligamentar, o risco de ele ter uma entorse no tornozelo enquanto corre é grande. Em casos assim, o ideal é deixar a musculatura do tornozelo dele mais tensa", diz o fisioterapeuta José Luís Pimentel do Rosário, conselheiro do Crefito (Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional) de São Paulo.
Além disso, a flexibilidade excessiva também pode afetar o funcionamento de órgãos internos. Uma pesquisa realizada por Soares, da Clinimex, constatou que uma alteração cardíaca conhecida como prolapso (deslocamento) da válvula mitral é mais comum em mulheres com hipermobilidade.
Não por acaso o problema é mais associado a mulheres. De modo geral, elas são muito mais flexíveis que os homens. Essa diferença surge após os sete ou oito anos de idade --até então, meninos e meninas apresentam corpos igualmente maleáveis. Na puberdade, porém, características hormonais levam as mulheres a ter uma mobilidade maior.
Durante a gravidez, os hormônios voltam a atuar, deixando as mulheres ainda mais flexíveis --uma preparação para as exigências do parto.
Por volta dos 40 anos, tanto homens quanto mulheres tendem a perder flexibilidade. O ganho de peso e o sedentarismo contribuem para isso, mas o processo também está ligado à maior rigidez e à menor hidratação do tecido conjuntivo.
Corpo travado
Uma das principais conseqüências da perda de flexibilidade é que os músculos se tornam mais curtos. "A musculatura encurtada deixa os músculos numa posição complicada. Isso cria desgastes nas articulações, e a pessoa precisa usar mais força para fazer as mesmas atividades", diz Rosário.
Além disso, o "endurecimento" pode levar a "compensações" em outras áreas do corpo. O professor de ioga Kalidas Nuyken, proprietário do Surya Espaço de Yoga, em São Paulo, exemplifica isso com o ato de pegar um livro numa estante. "Quem tem o ombro flexível levanta a mão facilmente. Já quem não consegue levantar muito o braço inclina o corpo para trás, para aumentar o alcance da mão, e tende a jogar a lombar para a frente." Resultado: dores nas costas.
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AMARÍLIS LAGEda Folha de S.Paulo
No centro do picadeiro, a contorcionista parece feita de borracha. Estica de um lado, puxa do outro e faz parte do respeitável público resgatar o velho sonho de fugir com o circo. Mas, sem querer ser estraga-prazeres, é bom avisar: deixe o contorcionismo fora de suas ambições circenses.
A flexibilidade, fundamental nesse tipo de atividade, pode ser aprimorada com exercícios. Mas grande parte da capacidade de esticar o corpo está ligada a componentes genéticos.
"Se você não "escolheu bem" seus pais, esqueça", brinca o médico Cláudio Gil Soares de Araújo, diretor da Clinimex --Clínica de Medicina do Exercício. "Pode ver que muitos desses artistas vêm de famílias com tradição em contorcionismo."
Essa "herança" inclui a titina, conhecida como a "proteína da flexibilidade". Embora todas as pessoas tenham essa proteína nas fibras musculares, uma parte dela é variável, e essas mudanças ajudam a definir se você será mais ou menos maleável, diz Tania Salvini, professora de fisioterapia da Universidade Federal de São Carlos.
Uma das formas de saber em que grupo você se encaixa é um exame conhecido como Flexiteste, que foi desenvolvido por Soares. Composto por 20 movimentos, cada um com uma pontuação que varia de zero a quatro, o exame mede quão flexível alguém é.
Quem alcança uma pontuação acima de 70 tem hipermobilidade. Isso não é, necessariamente, uma característica boa: a síndrome de hipermobilidade benigna, que leva a um nível de flexibilidade muito alto nas articulações, costuma gerar dores nas extremidades do corpo.
Mesmo em casos menos extremos, a mobilidade excessiva pode ser um problema. "Se um atleta tem frouxidão ligamentar, o risco de ele ter uma entorse no tornozelo enquanto corre é grande. Em casos assim, o ideal é deixar a musculatura do tornozelo dele mais tensa", diz o fisioterapeuta José Luís Pimentel do Rosário, conselheiro do Crefito (Conselho Regional de Fisioterapia e Terapia Ocupacional) de São Paulo.
Além disso, a flexibilidade excessiva também pode afetar o funcionamento de órgãos internos. Uma pesquisa realizada por Soares, da Clinimex, constatou que uma alteração cardíaca conhecida como prolapso (deslocamento) da válvula mitral é mais comum em mulheres com hipermobilidade.
Não por acaso o problema é mais associado a mulheres. De modo geral, elas são muito mais flexíveis que os homens. Essa diferença surge após os sete ou oito anos de idade --até então, meninos e meninas apresentam corpos igualmente maleáveis. Na puberdade, porém, características hormonais levam as mulheres a ter uma mobilidade maior.
Durante a gravidez, os hormônios voltam a atuar, deixando as mulheres ainda mais flexíveis --uma preparação para as exigências do parto.
Por volta dos 40 anos, tanto homens quanto mulheres tendem a perder flexibilidade. O ganho de peso e o sedentarismo contribuem para isso, mas o processo também está ligado à maior rigidez e à menor hidratação do tecido conjuntivo.
Corpo travado
Uma das principais conseqüências da perda de flexibilidade é que os músculos se tornam mais curtos. "A musculatura encurtada deixa os músculos numa posição complicada. Isso cria desgastes nas articulações, e a pessoa precisa usar mais força para fazer as mesmas atividades", diz Rosário.
Além disso, o "endurecimento" pode levar a "compensações" em outras áreas do corpo. O professor de ioga Kalidas Nuyken, proprietário do Surya Espaço de Yoga, em São Paulo, exemplifica isso com o ato de pegar um livro numa estante. "Quem tem o ombro flexível levanta a mão facilmente. Já quem não consegue levantar muito o braço inclina o corpo para trás, para aumentar o alcance da mão, e tende a jogar a lombar para a frente." Resultado: dores nas costas.
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