Equilíbrio
31/08/2006 - 11h41

Exposição constante a sons altos pode levar à dependência

AMARÍLIS LAGE
da Folha de S.Paulo

Buzinas nas avenidas, helicópteros no céu, bate-estaca no prédio em construção, gente falando alto e, nesse período pré-eleitoral, carros com alto-falantes repetindo os jingles dos candidatos. Esse costuma ser o retrato sonoro de grandes centros urbanos, e São Paulo não foge à regra. Ao contrário, é considerada uma das cidades com piores índices de poluição sonora no mundo, e o excesso de barulho é uma das principais queixas de seus moradores.

Por que, então, é tão comum ver esses mesmos moradores fugindo do silêncio? Seja no som do carro, no bar ou no tocador de MP3 para andar no parque, muita gente busca estar sempre rodeada de barulho.

Rogério Cassimiro/Folha Imagem
André Mirabelli Sanches, que perdeu parte da audição por ouvir música muito alta
André Mirabelli Sanches, que perdeu parte da audição por ouvir música muito alta
A explicação para o paradoxo passa por estímulos químicos, segundo alguns especialistas. Da mesma forma que o exercício e o chocolate, o som libera no organismo substâncias que geram prazer. E isso pode levar algumas pessoas a ficarem dependentes de barulho.

Um ruído de 55 decibéis (nível de uma conversa normal) já dá início a um aumento na produção de noradrenalina, afirma Fernando Pimentel-Souza, doutor em psicofarmacologia pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo). Por volta de 80 decibéis (equivalente ao ruído de tráfego intenso), ainda segundo o pesquisador em neurofisiologia, tem início a liberação de endorfina. O problema é quando a exposição constante a esses estímulos leva a um quadro crônico.

"A endorfina é analgésica, suprime a dor, suprime a punição que a pessoa sofre, e isso é condicionante de comportamento. Quanto à noradrenalina, ela é prazerosa, o que leva a pessoa a repetir esse tipo de comportamento. Esses mediadores químicos provocam uma ativação cerebral e combatem a depressão nervosa. Quando a pessoa vive num ambiente barulhento, ela está sendo estimulada artificialmente de forma constante e, ao se privar desse barulho, tem a sensação de depressão. Ela fica dependente do barulho que, de certa forma, age farmacologicamente no organismo", explica.

Os neurotransmissores, incluindo a endorfina, são necessários para a passagem do som pelas células nervosas, afirma Luiz Carlos Alves de Sousa, presidente da Sociedade Brasileira de Otologia. "O prazer é químico. O som dispara um gatilho de sensações boas, e a pessoa fica dependente disso."

O estudante André Mirabeli Sanches, 23, conhece bem esse esquema. Ouvia música no último volume, e só assim o som lhe causava prazer. "O cérebro parecia ficar anestesiado." A diversão o levou a instalar no carro um sistema de som "subwoofer". "Sabe aqueles carros que passam fazendo um bum-bum-bum bem grave? É isso", descreve. O ouvido direito de André não agüentou. Aos 20 anos, ele descobriu que havia perdido parte da audição.

O problema veio acompanhado de outro sintoma: a hiperacusia - hipersensibilidade auditiva. "É como se os sons chegassem amplificados", diz.

Segundo a fonoaudióloga Eliane Schochat, presidente da Academia Brasileira de Audiologia e professora da USP (Universidade de São Paulo), a hiperacusia acomete a maioria das pessoas com perda auditiva de origem coclear (cóclea é a parte anterior do labirinto).

Devido à hipersensibilidade, André pegou o hábito de tapar os ouvidos com as mãos ao andar nas ruas, além de usar protetores de borracha. O problema afetou até o contato com amigos, já que diversão é, geralmente, associada a barulho. "Após o trauma, a vida social ficou difícil. Meus amigos chamavam para a balada, e eu inventava desculpas para não ir."

Se ele sabia que o som alto poderia levar à perda auditiva? Sim. "Todo mundo sabe, mas ninguém se importa. Até passar por uma situação traumática."

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