Equilíbrio
03/07/2008 - 02h20

"Jovem com câncer perde a inocência muito cedo", diz paciente que soube da doença aos 27

JULLIANE SILVEIRA
da Folha de S.Paulo

Ela tem duas cicatrizes grandes na barriga, uma quase em cima da outra, que faz questão de deixar à mostra, apesar das constantes sugestões de disfarce. É que elas são símbolo de duas batalhas vencidas contra o câncer.

Quando foi proibida de fazer uma lipoaspiração, a jornalista Danielle Duran Baron, 34, na época com 27 anos, achou que a anemia severa acusada nos exames pré-operatórios fosse a única preocupação --já que a alteração no perfil hepático, também alertada pelo diagnóstico, não se revelou um problema grave.

Arquivo Pessoal
Danielle Duran Baron soube que tinha câncer após ser proibida de fazer lipoaspiração
Danielle Duran Baron soube que tinha câncer após ser proibida de fazer lipoaspiração

Dois anos depois, um cansaço inesgotável, a possibilidade de ser lúpus e as consultas com 15 médicos diferentes a levaram a uma ultra-sonografia, que diagnosticou uma massa estranha no fígado. Ela descobria que tinha câncer, um tumor de 18 cm. "O chão se abriu, tudo ficou escuro, nada fazia sentido, pensava que ia morrer. Fiquei sabendo em uma sexta-feira que na terça ou na quinta seguinte deveria ser operada", conta.

Foram retirados 70% do órgão em uma cirurgia delicada. O resultado da biópsia pegaria a todos de surpresa, já que seria o primeiro caso na família. "Não havia ninguém com câncer na família. Minha saúde sempre foi perfeita."

Com o apoio até dos colegas do trabalho --o departamento de RH a colocou em contato com duas funcionárias que tiveram câncer e que se tornaram boas amigas--, a quimioterapia fez efeito. Durante cinco anos, o acompanhamento médico só trazia respostas positivas, ela conheceu um norte-americano pela internet, recebeu "alta" e decidiu se casar e se mudar para os EUA. "A diferença entre o jovem que teve a doença e quem não teve é que perdemos a inocência muito cedo, temos expectativas diferentes. Achava que não teria saúde para isso. Meu casamento foi a celebração da minha vida", diz.

No final de 2007, ainda recém-casada e de passagem pelo Brasil, Danielle fez um exame por insistência do marido e do pai, que apontou outro tumor de 6 cm. De novo no fígado, sem sintomas. Depois da cirurgia, em 4 de janeiro de 2008, teve de resgatar a rotina que parecia ter ficado para trás: deverá, novamente, passar mais cinco anos em acompanhamento médico. "É uma experiência muito intensa, não dá para passar por ela impunemente. Tenho que acreditar que existe um plano maior para mim. Penso que, pelo menos, estou tendo tempo de consertar algumas coisas na minha vida, que tomou rumos muito diferentes por causa da doença." Inclusive profissionalmente: ela acaba de receber uma proposta para trabalhar em um projeto de prevenção ao câncer com uma renomada oncologistas de Maryland, onde vive.

Para que outros que passam pelo mesmo problema possam encontrar apoio em sua experiência, Danielle criou o blog Contemporary Cinderella, no qual escreve em português. Ela reclama de que, no Brasil, não existem iniciativas para o jovem adulto que teve ou tem câncer. "Depois de nossa conversa, fiquei com vontade de criar um fórum semelhante aos que existem nos EUA, em português", empolga-se.

Além de ajudar outros jovens adultos, o "projeto de vida" de Danielle é conhecer alguém que passou pelo mesmo que ela. "A minha jornada é muito solitária, não conheço ninguém que tenha sobrevivido ao câncer de fígado e isso me dá medo. Nunca vou voltar a ser o que eu era, fui confrontada muito cedo com minha vulnerabilidade. Vivo com a incerteza de que a doença pode voltar, mas a vida é feita de riscos, e acho que vale a pena."

 

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