Minoria entre vítimas de câncer, adultos jovens se unem por apoio
AMARÍLIS LAGE
JULLIANE SILVEIRA
da Folha de S.Paulo
Itaciara Monteiro tem 22 anos. Assim como muitos jovens, divide seu tempo entre as demandas da faculdade, as exigências do trabalho e os passeios com o namorado.
Mas sua rotina tem um elemento a mais: diariamente, ela toma cinco comprimidos para controlar o câncer. E, nesse aspecto de sua vida, Itaciara não encontra muita companhia --pessoas que, como ela, saibam o que é enfrentar a doença nessa idade.
| Filipe Redondo/Folha Imagem |
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| Itaciara Monteiro, 22, e Priscila Araújo, 25, têm leucemia e se tornaram amigas, dividindo suas experiências sobre a doença |
Entre os pacientes com câncer, os jovens adultos são a minoria. Justamente por isso, para eles é mais difícil encontrar algo de extrema importância: o apoio de gente que está na mesma situação, seja para trocar dados sobre o tratamento, seja para falar do impacto da doença na carreira ou no namoro, por exemplo.
"Quando eu era criança, me tratava num hospital infantil e essa convivência era mais fácil", conta Itaciara, que foi diagnosticada com leucemia mielóide crônica aos 12 anos. "Mas, na adolescência, passei a ter contato só com pacientes muito mais velhos. E, psicologicamente, foi uma fase muito difícil. Comecei a namorar, meu cabelo caiu, e eu queria esconder a doença do meu namorado. Não ia às festas da turma por vergonha", lembra.
Foi só no ano passado que Itaciara conheceu alguém com quem pôde se identificar: a estudante Priscila Araújo, 25. "Eu me vi nela. E acho essa convivência fundamental. Embora eu troque experiências com gente mais velha, fazia falta falar com alguém que tem o mesmo papo."
Para Priscila, que descobriu a doença aos 16 anos, o encontro também foi incomum. "Quando vou à consulta, é tudo muito rápido e, geralmente, os outros pacientes na sala de espera são idosos. Acabo não tendo contato com ninguém."
Ao que tudo indica, esse isolamento também pode ser tratado. Pelo menos a exemplo do que acontece em outros países: nos últimos anos, uma série de entidades surgiu para mostrar que esses jovens não estão sozinhos --e não são poucos. Estima-se que, nos EUA, sejam registrados anualmente cerca de 70 mil casos de câncer entre pessoas de 19 a 39 anos.
No Brasil, não há dados por faixa etária que mostrem a realidade dos jovens com câncer em todo o país. A Fundação Oncocentro de São Paulo, que reúne registros da doença no Estado, contabilizou 23.138 novos casos em pessoas com 19 a 39 anos de 2000 a 2007, em 63 hospitais estaduais que têm atendimento oncológico. Como o registro é parcial e não considera o setor privado, o número pode ser muito maior.
Apesar disso, não há entidades de suporte voltadas especificamente para essa faixa etária por aqui. "As redes de apoio para adultos são muito poucas. Vêem-se muitas iniciativas para apoiar crianças, mas para adultos quase não existem, o que é uma pena. Acho que uma grande parcela se beneficiaria da troca de experiências", diz a oncologista Maria del Pilar Estevez Diz, coordenadora do ambulatório de oncologia do Instituto do Câncer Octavio Frias de Oliveira.
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