Equilíbrio
14/08/2008 - 12h02

Zumbido "no ouvido" atinge 15% da população mundial

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JULLIANE SILVEIRA
da Folha de S.Paulo

O canto do uirapuru é considerado o mais bonito de sua classe e um dos mais raros: o pássaro só canta por cerca de 15 dias no ano. Mas, para a instrumentadora cirúrgica aposentada Sandra Carvalho Martins, 51, é diferente. Ela escuta o som da ave quase todos os dias, há 20 anos --intercalado com o de grilo, o de apito e o de faca sendo passada no esmeril.

Mas isso não é um privilégio. Sandra sofre de zumbido, um problema que, de acordo com estimativas internacionais, atinge por volta de 15% da população e pode ter mais de 200 causas diferentes. "É um som aberrante, percebido na inexistência de uma fonte sonora externa", define Márcia Kii, otorrinolaringologista responsável pelo Ambulatório de Zumbido do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo. O ruído pode ser uma combinação de chiado, som de panela de pressão, apito, assobio... O repertório sonoro é infindável.

Eduardo Knapp/Folha Imagem
A instrumentadora cirúrgica Sandra Martins, 51, precisa dormir com fone de ouvido para que o zumbido não a atrapalhe
A instrumentadora cirúrgica Sandra Martins, 51, precisa dormir com fone de ouvido para que o zumbido não a atrapalhe

E perturbador: ao ir para a cama, Sandra usa fones de ouvido para escutar música e abafar os ruídos. "Só assim consigo pegar no sono. Do contrário, fico ligada no som e, por mais que eu queira me desligar, não consigo", conta. Depois de ouvir de seu otorrino que seu caso não tinha cura, ela decidiu aprender a lidar com o problema e deixou de buscar alternativas para tratá-lo.

No entanto, pesquisas brasileiras têm abordado tratamentos inovadores para o zumbido com bons resultados e ganhado destaque internacional, caso dos estudos sobre estimulação magnética transcraniana e sobre o tratamento de "pontos-gatilho" da síndrome dolorosa miofascial -ambos desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa de Zumbido da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo) e publicados em periódicos internacionais.

Os trabalhos mostram que não é preciso conviver com esse tormento por toda a vida. Deve-se ter em mente que o zumbido não é, em si, uma doença, mas sintoma de outros problemas. Isso porque o ruído fora de lugar pode sinalizar perda auditiva, problemas metabólicos, estresse, disfunções na articulação temporo-mandibular, cera em excesso e reação a medicamentos, entre outros distúrbios. Tratar esses problemas é o primeiro passo para evitar o ruído ou, ao menos, diminuir a sua intensidade. E ainda existem terapias para ajudar a conviver com o barulho persistente.

O quanto antes

Patricia Stavis/Folha Imagem
Para o artista plástico Mário Galhardo, 63, que sofre do problema, zumbido tem volume mais alto do que o barulho do metrô
Para o artista plástico Mário Galhardo, 63, que sofre do problema, zumbido tem volume mais alto do que o barulho do metrô

Os sons podem aparecer diariamente ou ser mais esporádicos, surgindo depois de exposição a barulho muito alto, uma vez por mês ou até a cada seis meses. "O zumbido precisa ser avaliado porque é sinal de que alguma coisa se desequilibrou no organismo", diz a fonoaudióloga Keila Knobel.

Pacientes relatam que o zumbido normalmente começa fraco e vai crescendo com o passar do tempo, como conta o artista plástico Mário Galhardo, 63. Há 12 anos, ele começou a ouvir um som equivalente a um leve assobio. Hoje, nem o barulho do metrô em movimento é capaz de superar o zumbido que ele escuta. "Moro perto do aeroporto de Congonhas desde 1962. Acho que é por isso que o zumbido não me incomoda tanto -os aviões fazem muito barulho."

Como o ruído pode sinalizar perda auditiva, quanto antes se buscar tratamento, maiores são as chances de prevenir a perda total da capacidade de ouvir. Em outros casos, como o zumbido que surge depois de uma exposição à poluição sonora, o tratamento rápido pode reverter totalmente o quadro.

Grupos de apoio também ajudam a lidar com o problema, pois possibilitam troca de experiências e de informações. "Um estudo mostrou que os índices de incômodo melhoraram entre as pessoas que freqüentaram o grupo aqui de São Paulo", conta Tanit Gunz Sanchez, coordenadora do Ambulatório de Zumbido do Hospital das Clínicas de São Paulo.

Grupos de apoio a pessoas com zumbido

BRASÍLIA
Quando: 1ª quarta-feira do mês
Horário: 17h
Onde: Auditório Central do Hospital Universitário (av. L2 Norte SGAN 605)
Tel.: 0/xx/61/3448-5394

CAMPINAS (SP)
Quando: 3ª segunda-feira do mês
Horário: 17h
Onde: Sociedade de Medicina e Cirurgia (r. Delfino Cintra, 63)
Tel.: 0/xx/19/3252-4241

CURITIBA
Quando: 1ª sexta-feira do mês
Horário: 14h
Onde: Anfiteatro Otorrino do Hospital das Clínicas (r. General Carneiro, 181)
Tel.: 0/xx/41/3225-1665

RIO DE JANEIRO
Quando: 1ª quinta-feira do mês
Horário: 15h30
Onde: Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (r. Prof. Rodolpho Paulo Rocco, 255, 12º andar)
Tel.: 0/xx/21/9578-4590

SALVADOR
Quando: 1ª terça-feira do mês
Horário: 15h30
Onde: Hospital das Clínicas (r. Augusto Viana, s/nº)
Tel.: 0/xx/71/3339-6317

SÃO JOSÉ DO RIO PRETO (SP)
Quando: 2ª terça-feira do mês
Horário: 17h
Onde: Hospital de Base (av. Brigadeiro Faria Lima, 5.544)
Tel.: 0/xx/17/3201-5747

SÃO PAULO
Quando: 1ª segunda-feira do mês
Horário: 16h
Onde: Anfiteatro da disciplina de otorrinolaringologia do HC da USP (av. Dr. Enéas de Carvalho Aguiar, 255)
Tel.: 0/xx/11/3068-9855

Colaborou AMARÍLIS LAGE

 

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