Nova técnica para tratar degeneração macular é testada no Brasil
JULLIANE SILVEIRA
da Folha de S.Paulo
A degeneração macular relacionada à idade é a principal causa de cegueira central em pessoas com mais de 60 anos. A doença atinge a mácula, área responsável pela visão dos detalhes e das cores que fica no centro da retina. Com o envelhecimento, a região recebe menos oxigênio e pode se degenerar (caso da forma seca da doença) ou ter um excesso de vasos sangüíneos para compensar a falta de oxigenação (forma úmida). Estima-se que 5 milhões de brasileiros sofram da doença.
Uma nova técnica para o tratamento da forma úmida -a única que pode ser tratada até o momento- tem se mostrado eficaz, com resultados promissores em estudos preliminares realizados principalmente no Brasil com base em uma descoberta norte-americana. As pesquisas são patrocinadas pela fabricante do aparelho que emite uma radiação no olho, a norte-americana NeoVista.
"O processo consiste em inserir, por meio de uma microcirurgia com anestesia local que dura cerca de meia hora, um aparelho que emite uma radiação de estrôncio-90 dentro do olho por cerca de cinco minutos", explica o oftalmologista Michel Farah, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e investigador principal da pesquisa nessa instituição. Essa energia impede o crescimento desordenado dos vasos sangüíneos e, em alguns casos, regride a membrana que atrapalha a visão. A recuperação ocorre em dois ou três dias.
"Tratamos em Goiânia 34 pacientes nas primeiras fases da pesquisa. Desses, 95% tiveram o problema estabilizado, sendo que 39% melhoraram", diz o oftalmologista Marcos Ávila, professor e chefe do serviço de oftalmologia da Universidade Federal de Goiás, um dos responsáveis pela pesquisa no Estado.
Entre as formas de tratar aprovadas, o "padrão-ouro" é a aplicação de ranibizumabe, uma substância que apresentou os melhores resultados até hoje. O grande problema do uso desse produto é a necessidade de aplicá-lo dentro do olho por meio de uma injeção durante 24 meses consecutivos, além do alto custo. De acordo com Ávila, cada ampola do produto custa cerca de R$ 5.000.
Nas primeiras fases da pesquisa, foi testada a combinação da radioterapia com a aplicação de bevacizumabe, substância precursora do ranibizumabe. "Para nossa surpresa, o tratamento combinado com duas doses de medicamento tem trazido resultados iguais ao ranibizumabe", comenta Ávila.
O desafio da terceira fase da pesquisa, que se inicia na próxima semana em São Paulo e Goiânia e em mais 38 centros no mundo, é combinar o ranibizumabe e a radioterapia. Caso apresentem resultados tão bons quanto o uso isolado do medicamento-referência, o tratamento poderá estar disponível daqui a dois anos.
A princípio, não deve ser aplicado em diabéticos, já que a radiação poderia agravar a retinopatia diabética.
E, por melhores que pareçam, as técnicas não substituem o diagnóstico precoce. Deve-se avaliar a visão dos olhos tampando um de cada vez. Se há diferença entre eles, é preciso procurar um oftalmologista.

