Tratamento de pacientes histéricas por hipnose revolucionou o pensamento de Freud
da Folha Online
O austríaco Sigmund Freud foi um dos autores que mais influenciaram a cultura do século 20. Os conceitos originais que elaborou, como "inconsciente", "narcisismo" e "complexo de Édipo", tornaram-se fundamentais não apenas para a psicanálise, mas para disciplinas como a pedagogia, a comunicação, as ciências sociais, a filosofia, a literatura, entre outras.
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| "Folha Explica Freud" traz conceitos fundamentais da psicanálise |
No volume "Folha Explica Freud", da Publifolha, o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima analisa a vida, a obra e os principais elementos da teoria do pai da psicanálise, desde o período em que fez residência com o renomado neurologista francês Jean Martin Charcot (1825-93).
Neste período, Freud observou o desaparecimento dos sintomas de histeria, através da hipnose, em pacientes de Charcot. A partir dessa constatação, elaborou a hipótese de que a origem da doença não era orgânica, mas psicológica.
O livro mostra como esta hipótese, originada dos métodos pouco ortodoxos do médico francês, revolucionou o pensamento de Freud e serviu como base para o desenvolvimento de todos os seus outros conceitos, como a teoria da mente e o inconsciente.
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Leia abaixo trecho do livro que relata a importância do encontro com Charcot para a obra de Freud:
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DA MEDICINA NEUROLÓGICA A UMA TEORIA ORIGINAL DA MENTE
Sigmund Freud nasceu em 6 de maio de 1856, na pequena cidade de Freiberg, na Morávia, que na época era província do Império Austro-Húngaro e hoje pertence à República Checa. Naqueles meados do século 19, o debate sobre a condição humana na Europa ocidental dividia-se em duas tendências. Uma, mais antiga, era espiritualista e atribuía a diferenciação entre os humanos e os demais mamíferos à existência da alma e, por conseqüência, da mente. Segundo os espiritualistas, a alma seria anterior ao corpo e destinada a sobreviver a ele. Quanto ao corpo, não passaria de um vaso a conter a alma, ou algo a que o espírito se associaria em cada etapa de seu movimento eterno. Era uma concepção religiosa do ser humano, a qual acreditava na reencarnação - crença que de resto continua existindo, como se sabe.
A outra tendência, oposta e materialista, era fruto do conhecimento da neuroanatomia e das pesquisas em fisiologia do cérebro humano, que vinham se desenvolvendo na Europa desde o século 18 e ganhavam impulso naquela época. Para seus adeptos, o chamado espírito ou alma humana, entendido como mente, não seria mais do que mero reflexo da mecânica de funcionamento do organismo físico. Conhecida como materialismo mecanicista, tal teoria fazia derivar todas as manifestações psíquicas - e o comportamento das pessoas - da atividade cerebral, do sistema nervoso. O próprio Freud, no início de suas pesquisas científicas, foi fiel a essa tendência, mas logo percebeu suas limitações.
No ano de 1886, em Paris, a observação do trabalho desenvolvido pelo eminente neurologista francês Jean Martin Charcot (1825-93) com pacientes histéricas contribuiu decisivamente para que Freud mudasse de opinião. Essa experiência foi fundamental para o desenvolvimento ulterior das teorias terapêuticas de Freud sobre a origem das neuroses, e por isso começamos este livro falando da importância de seu encontro com Charcot.
Freud era ainda estudante da Faculdade de Medicina de Viena (onde ingressara em 1873) quando se interessou pelo funcionamento do sistema nervoso e, a partir do terceiro ano, passou a se dedicar à pesquisa de laboratório. Trabalhou como pesquisador de neuroanatomia e fisiologia entre 1876 e 1882 e fez residência médica no Hospital Geral de Viena até 1885, quando conseguiu uma bolsa de estudos para estagiar em Paris com o então famoso Charcot. Chegou em outubro daquele mesmo ano à capital francesa, com o objetivo de fazer pesquisas sobre a anatomia do sistema nervoso. O contato com Charcot o levou a se interessar, porém, pelas manifestações da mente, de afeto, emoção e sentimentos. Essa passa a ser sua principal preocupação como pesquisador. Até ter encontrado Charcot, Freud procurava na pesquisa de laboratório, nas lâminas com tecido nervoso, alguma resposta para tais questões básicas. Os métodos de pesquisa do neurologista francês, muito menos ortodoxos, iriam revolucionar seu pensamento.
Charcot trabalhava na Salpêtrière, um hospital de Paris especializado no tratamento de pessoas com distúrbios mentais e neurológicos. Pesquisava o tratamento de pacientes histéricos, que não eram levados muito em conta pela medicina da época. Os histéricos eram, na maioria, mulheres. Estas apresentavam sintomas diversos, como paralisias (que as impediam de mover braços ou pernas ou até um lado inteiro do corpo), afasias (a impossibilidade da fala), cegueira de um olho ou dos dois. Algumas, ainda, tinham problemas com o tato. Às vezes, sofriam também de ataques convulsivos e desmaios. Enfim, um quadro de sintomas que os neurologistas buscavam explicar com base em alguma causa orgânica, sem sucesso. Faziam exames neurológicos e não encontravam nada, nenhum indício de deficiência cerebral.
Charcot passou a hipnotizar essas pacientes e conseguiu, em muitos casos, por meio da sugestão hipnótica, fazer com que tais sintomas desaparecessem. Se a intervenção baseada na sugestão do médico dava resultados e os sintomas deixavam de existir, então a origem deles não era realmente orgânica, mas psicológica, considerou Freud. Foi essa hipótese que provocou uma revolução em seu pensamento. Para explicá-la sem recorrer à existência de uma alma sobrenatural ou a causas orgânicas, Freud desenvolveu outras hipóteses, que iria amadurecer e comprovar no trabalho clínico com Josef Breuer (1842-1925), um médico vienense mais velho, com quem trabalharia nos dez anos seguintes.
Usando o método da hipnose com as pacientes histéricas da clínica de Breuer, Freud chegou à conclusão de que os sintomas por elas apresentados tinham origem em problemas relativos à sexualidade. Ou melhor: eram resultantes da censura ou repressão de desejos e fantasias experimentados durante a primeira infância. Não tinham noção de tal censura nem dos fatos que escondiam e, por isso, não tratavam do assunto quando estavam em estado normal, de vigília. O relato de tais vivências só aparecia durante a hipnose.
Uma paciente de Breuer, conhecida na literatura psicanalítica como Anna O., contribuiu particularmente para o amadurecimento das hipóteses de Freud e o desenvolvimento do que viria a ser seu método psicanalítico. Submetida ao tratamento hipnótico (ou método catártico, como também era chamado), Anna O. passou a mencionar fatos de sua infância, particularmente fantasias sexuais com o pai, sobre os quais não conseguia falar em estado de consciência, permitindo a Freud perceber aí a existência da censura, que ele viria a explicar como mecanismo de repressão.
A história de Anna O. é fundamental para a origem da psicanálise. Essa jovem judia, que vinha de uma família abastada de Viena e contava 21 anos na época de sua doença, teve seu caso exposto por Breuer em 1895, nos Estudos Sobre a Histeria, escritos em parceria com Freud. Nesse livro, os autores propuseram um novo conceito de histeria, segundo o qual a paciente histérica sofre de reminiscências. Daí surge um método novo de tratamento, baseado na catarse.
Durante as sessões de hipnose, acontecia de Anna O. usar o inglês em vez do alemão. Muito inteligente, ela utilizou as expressões talking cure ("cura pela fala") e chimney sweeping ("limpeza de chaminé") para definir seu tratamento com Breuer, que se estendeu de julho de 1880 a junho de 1882. "Limpeza de chaminé" designaria a rememoração que o método hipnótico permitiu e que limpou sua mente de lembranças perturbadoras, como se limpasse uma chaminé das camadas de fuligem acumuladas. Breuer chamou o processo de catarse e apresentou o caso Anna O. como protótipo de tratamento catártico. Catarse, portanto, é o nome que se dá ao processo em que a pessoa, em estado hipnótico, fala tudo que lhe vem à mente, o que lhe traz grande alívio emocional.
Os sintomas de Anna O. apareceram durante o processo de doença e morte de seu pai, conforme constatou Breuer no processo de catarse. Durante a fase inicial da doença paterna, Anna começou a ter alucinações e acessos de tosse e, quando ele piorou, a moça passou a apresentar paralisia e distúrbios da visão e da linguagem. Não conseguia mais se expressar em alemão e misturava diversas línguas, até se fixar no inglês. Sua personalidade dividiu-se, e Anna teve de ser internada num sanatório no final do processo de tratamento, quando os sintomas se agravaram. O desaparecimento progressivo dos sintomas e a cura foram obtidos por meio da rememoração de suas lembranças traumáticas, conforme escrevem Breuer e Freud nos Estudos Sobre a Histeria.
A história de Anna O. está na origem da noção (partilhada por muita gente até hoje) de que a psicanálise é um processo em que a pessoa tem a possibilidade de se lembrar e, ao se lembrar, se curar. Esse modelo não corresponde, porém, aos fatos. Mas tem sua importância no que concerne à origem pré-psicanalítica do processo de investigação da mente. O método catártico, com a função curativa que se supunha que possuísse naquela época, não pode ser confundido com o atual método psicanalítico. Sua utilização, contudo, foi decisiva na experiência de Freud para elaboração de sua teoria da mente. Graças ao trabalho clínico com pacientes histéricos, Freud consegue construir um modelo para explicar o funcionamento da mente humana, baseado na compreensão de que os fenômenos psíquicos, tanto os que são patológicos quanto os que movem uma pessoa normal, teriam a mesma origem: seriam processos típicos da instância que ele chamou de inconsciente.
A teoria da mente elaborada por Freud foi a primeira explicação científica a ter contrariado o padrão dominante na medicina neurológica da época, que estabelecia um nexo mecânico entre as lesões do sistema nervoso central e o comportamento psíquico. O próprio Freud chamava atenção para esse aspecto, ao dizer que uma das conseqüências de seus estudos com Charcot foi ter ouvido do neurologista francês que a investigação das relações entre as doenças orgânicas e a anatomia do sistema nervoso estava esgotada. Seria preciso investigar, então, as causas das neuroses: obsessões, fixações, fobias etc., que os estudos feitos até ali não conseguiam explicar.
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"Folha Explica Freud"
Autor: Luiz Tenório Oliveira Lima
Editora: Publifolha
Páginas: 80
Quanto: R$ 18,90
Onde comprar: pelo telefone 0800-140090 ou na Livraria da Folha
Livraria
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