Com 80 provas por ano, paulistanos formam grupos para treinar corrida
JULIANA CALDERARI
da Revista da Folha
Não faz muito tempo que a maioria dos paulistanos via corridas de rua como coisa de atletas e amadores corajosos. Da poltrona de casa, acompanhava pela TV a corrida de São Silvestre, na última tarde do ano, enquanto preparava a refeição (nada light) de Ano-Novo.
Bem diferentes da disputa acirrada da prova de fim de ano, as novas corridas pelas ruas de São Paulo atraem hoje famílias, turmas de amigos e grupos de funcionários de empresas em eventos que chegam a contar com até 25 mil participantes. Segundo estimativas da prefeitura, há cerca de 250 provas do tipo no Estado de São Paulo, número que cresce, em média, 30% ao ano.
| Beatriz Toledo/Folha Imagem |
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| Paulistanos estão formando grupos para treinar em parques e fortalecem vínculos enquanto correm atrás da forma física |
Mais do que uma atividade esportiva, as corridas converteram-se em oportunidade de socialização que vai muito além do tempo gasto no esporte em si. "Tem gente que nunca se imaginou fazendo uma prova e agora vai lá", afirma Adriana Salles, sócia do Projeto Mulher, uma das assessorias esportivas da cidade que oferece treinos para a modalidade. "É um modo de começar o domingo de um jeito gostoso. As pessoas participam para ter a adrenalina da prova."
O acesso às corridas também ficou muito mais fácil. O convite, no caso, vem em grande parte de marcas como a Nike, que nos últimos cinco anos passou a investir na criação de circuitos e a oferecer treinos gratuitos para os atletas amadores. A gigante esportiva disponibiliza profissionais em alguns parques da cidade, em datas próximas aos de seus eventos, para ajudar os corredores a melhorarem seus desempenhos. Segundo a assessoria da Nike, a idéia é atrair mais público e ensinar o consumidor a correr melhor. E a consumir seus produtos, claro.
Outro atrativo para os novos corredores são os grupos organizados por atletas e personal trainers. De olho nesse filão, profissionais da área especializaram-se em dar treinamento e orientação para o crescente número de interessados em suar a camisa por lazer. "Uma chamou a outra e, no boca-a-boca, já temos 15 pessoas em uns seis meses", relata Carlos Soeiro, o Cacá, diretor técnico da consultoria Physical Running. O grupo, considerado pequeno por ele, treina no Ceret, antigo parque dos Trabalhadores, no Tatuapé.
Além dessa turma, Cacá também tem alunos em Santo Amaro, no Ibirapuera e na USP. De acordo com dados da Federação Paulista de Atletismo, há atualmente cerca de 800 grupos de corrida treinando nos parques municipais. Para tentar se destacar, as consultorias e treinadores usam com criatividade o espaço público e acrescentam exercícios localizados para complementar o preparo para as corridas.
Maratona feminina
O Projeto Mulher, por exemplo, possui uma kombi com elásticos, bolas e discos para a aula de circuito, cujo cenário pode ser o estádio do Pacaembu ou o parque Burle Marx.
Já o grupo Turma do Horto, do Horto Florestal, usa os obstáculos naturais para incrementar os treinos. Uma vez por semana, a galera comandada por Valderes Pereira, a Val, sobe trotando os nove quilômetros de estrada até a Pedra Grande, dentro do parque. Chegando lá em cima, diante da vista privilegiada da cidade, fazem uma pausa para recarregar as baterias e enfrentar mais 9 km de descida.
"A gente não concorre com academia. A nossa aluna quer um contato maior com a natureza, elas gostam da coisa ao ar livre", explica Adriana, sobre as clientes do Projeto Mulher. Mari Azevedo, aluna do Ceret, concorda: "A gente faz alongamento sob o céu estrelado. Nem parece que estamos em São Paulo".
Mari, que está no grupo desde o início, trabalha com Maria Alzira e é vizinha de Analaura Rodrigues, todas colegas das aulas no parque. Enquanto Mari, 44, e Analaura, 39, almejam correr uma prova de 5 km, Maria Alzira, com 65, integra o grupo dos caminhantes, outra modalidade oferecida em alguns dos eventos recreativos, também chamados de "corridas de domingo".
A preparação serve para fortalecer vínculos de amizade, e as turmas de corrida se tornam um grupo social. "A gente percebe hoje que elas ficam amigas e marcam jantares, vão às festas do filho da outra", diz Adriana.
Uma das turmas do Projeto, no Jardim Paulistano, é formada por 30 mulheres, juntas há cinco anos. Muitas vezes a intimidade é tanta que a falação atrapalha. "Tem hora que vou explicar o treino e vejo dois ou três virados, outro dando risada", afirma Cacá, que pega um megafone, aciona a sirene e dá ordens. "Tenho que explicar o treino rápido. Se começar a detalhar muito, dispersa de novo e começa a 'bateção' de papo."
O mesmo acontece nos outros grupos. Nelson Miranda de Jesus, integrante da Turma do Horto, acostumado a ser alvo das broncas de Val, reclama: "Ela é muito brava, anota aí!".
Meia-idade
Embora a idade das turmas varie de acordo com o local e o horário do treino, segundo as assessorias esportivas, a maior parte dos adeptos tem entre 30 e 45 anos. Para os mais jovens, a academia ainda é a mais atraente. "O pessoal que tem entre 15 e 18 anos tem mais opções com música, como aulas de spinning, body attack, body combat", diz Cacá.
Membro da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo, ele fechou as portas da academia que teve por seis anos para apostar na assessoria em espaços públicos. "O investimento de uma academia é 99% mais caro", explica Cacá. "Para o treino de corrida, você só precisa de colchonetes, cones, lona e a tenda para as provas."
Outra função dos grupos é cuidar da burocracia e dos preparativos de uma prova. Para maior comodidade do aluno, os treinadores fazem as inscrições, buscam os kits e, no dia do evento, montam uma tenda que oferece água, isotônico e biscoitos.
O maior benefício de treinar em grupo, no entanto, é incentivar um ao outro. "O bacana da prova é que a aluna fica com um objetivo naquela data", aponta Adriana. Na opinião de todos os treinadores e praticantes, as corridas são um motivo para comparecer às aulas. "A principal função do grupo é incentivar a performance", confirma Binho, membro da Turma do Horto.
Inspirado na veterana Antonia de Oliveira, 62, que bateu o segundo recorde sul-americano em 1997, o grupo criou até uma prova informal chamado de "IbiHorto". A última largada, realizada em agosto deste ano, reuniu cem pessoas para correr os 21 km do percurso.
Embora alguns sonhem em se tornar maratonistas, a maior parte dos corredores que freqüenta grupos o faz pelo bem-estar. "Conto dez alunos que vão para maratona e meia-maratonas. O restante vai às corridas de 5 km ou 10 km pela parte lúdica e param por aí", esclarece Cacá. Os dados da Federação Paulista de Atletismo confirmam: 70% das provas são de 10 km. Os 30% restantes são divididos entre as demais distâncias.
Mesmo sendo mais numerosos, os corredores de fim-de-semana não são os mais assíduos. "Quem treina apenas para se manter, quando garoa, não vêm. Quando está frio, então, têm uns que não aparecem de jeito nenhum", alfineta Binho. Nesses casos, não há grupo ou céu estrelado que ajude.
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