Estudos revêem consumo de café e álcool na gravidez
AMARÍLIS LAGE
JULLIANE SILVEIRA
da Folha de S.Paulo
Pesquisas recentes sugerem alterações na dieta das gestantes, que devem reduzir o consumo de cafeína para até duas xícaras de café por dia e estariam liberadas para pequenas doses de álcool. O tema é polêmico.
"A medicina não é como matemática. Não há esse paralelismo na quantidade", diz o ginecologista Sérgio Peixoto, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e diretor da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia.
| Eduardo Anizelli/Folha Imagem |
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| A dançarina e tradutora Mariana Lettis, 34, passou de oito copinhos de café para dois por dia após conversa com ginecologista |
Um estudo publicado no "British Medical Journal" mostrou que gestantes que consomem cafeína têm mais risco de ter um bebê com baixo peso. "O excesso de cafeína compromete o desenvolvimento do bebê, que usa a energia da cafeína em vez da obtida pela alimentação", diz Luiz Fernando Leite, obstetra do Hospital e Maternidade Santa Joana.
Aquelas que bebem até duas xícaras de café por dia (cada uma equivale a 100 mg de cafeína) têm 20% mais chances de ter um filho com baixo peso do que as que ingerem menos de 100 mg. Os riscos sobem para 50% naquelas que consomem de 200 mg a 299 mg de cafeína.
A cafeína também pode gerar contração da artéria uterina, por onde a placenta recebe sangue, diz Peixoto. O bloqueio de nutrientes e oxigênio faz o bebê passar fome. "O ponto de corte tem sido 300 mg de cafeína ao dia. Por que não 100 mg ou 400 mg? Não há um trabalho prospectivo que mostre isso."
Já o consumo leve de álcool pode ter efeitos benéficos, segundo um estudo da University College London publicado no "International Journal of Epidemiology". De acordo com a pesquisa, crianças cujas mães bebiam levemente na gestação --de uma a duas doses semanais-- teriam menos dificuldades comportamentais ou cognitivas do que os filhos das abstêmias. O dado provém do UK Millennium Cohort Study, que acompanha 12.495 crianças.
Os autores sugerem que as mães que bebem um pouco tendem a ser mais privilegiadas socialmente e menos rígidas consigo mesmas, o que ajuda o desenvolvimento dos filhos.
"Não assumimos os resultados de uma pesquisa como definitivos. A gestante não deve ingerir álcool", diz a nutricionista Márcia Vitolo, professora da Universidade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre. Mas quem bebeu álcool antes de saber da gravidez ou quer celebrar algo especial com meio copo de vinho não deve se culpar, afirma Leite.
É o caso da dançarina e tradutora Mariana Lettis, 34, que consumiu álcool no início da gravidez sem saber. "A minha ginecologista tentou me tranqüilizar, mas disse para isso não se repetir", diz. O difícil mesmo, para ela, tem sido controlar o consumo de café. Os oito copinhos diários foram restritos a dois. "A garrafa térmica cheia de café é tentadora."
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