Equilíbrio
06/08/2009 - 08h34

Cirurgia de Faustão para redução de estômago não é regulamentada

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FERNANDA BASSETTE
da Folha de S.Paulo

A técnica cirúrgica de redução do estômago a que o apresentador Fausto Silva se submeteu há cerca de duas semanas não está regulamentada nem é reconhecida pelo CFM (Conselho Federal de Medicina) e pela SBCBM (Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica).

Conselho entra com representação contra médico de Faustão
Advogada processa médico de Faustão após cirurgia

Faustão anunciou em seu programa do último domingo (2) o método, mas não tem dado entrevistas sobre o assunto sob o argumento de não querer fazer apologia de um procedimento que não sabe se funciona.

Desenvolvida pelo cirurgião goiano Áureo Ludovico de Paula, a gastrectomia vertical com interposição de íleo foi desenhada para curar o diabetes tipo 2 -e não para tratar apenas a obesidade. A técnica é usada no país há cerca de seis anos e pelo menos 450 pacientes já passaram pelo procedimento.

TV Globo/Zé Paulo Cardeal
Apresentador Fausto Silva já perdeu 10 quilos desde que foi submetido à cirurgia de redução de estômago, há duas semanas
Apresentador Fausto Silva já perdeu 10 quilos desde que foi submetido à cirurgia de redução de estômago, há duas semanas

A diferença para a cirurgia convencional está na recolocação do íleo (fim do intestino delgado) entre o duodeno e o jejuno. Ao entrar em contato com o alimento, o íleo começa a produzir GLP1 (hormônio que estimula a produção de insulina). Nos diabéticos tipo 2, a insulina está reduzida no organismo e o íleo produz pouco GLP1 porque a maior parte do alimento já foi absorvida.

Com o reposicionamento de parte do intestino, o alimento entra em contato mais rápido com o íleo, o que pode aumentar a produção do GLP1.

Especialistas ouvidos pela Folha criticam a técnica e dizem que não há evidências científicas de sua eficácia.

"O que temos são resultados de um único médico, que está realizando essa cirurgia experimentalmente, sem que nenhum outro cirurgião do mundo a faça. Além disso, é uma técnica que não segue as normas do CFM", diz Thomaz Szegö, presidente da SBCBM.

Segundo o cirurgião Marcos Leão Vilas-Boas, essa técnica acrescenta etapas que, ao final, promovem o mesmo resultado da cirurgia convencional. "No bypass, conseguimos aumentar em 20% a produção do GLP1. O paciente perde peso e melhora o diabetes. Não vale a pena se submeter a uma técnica que não é completamente aceita."

Editoria de Arte/Folha Imagem

A nova cirurgia não consta da lista de procedimentos aceitos pelo CFM. Segundo o corregedor Pedro Pablo Magalhães Chacel, toda técnica precisa ser autorizada. "Se ela está sendo realizada de maneira experimental, precisa de autorização da Conep [Comissão Nacional de Ética em Pesquisa]. Caso contrário, não pode ser feita."

Gyselle Saddi Tannaus, coordenadora da Conep, diz que até ontem não havia nenhum registro de protocolo de pesquisa envolvendo essa cirurgia no órgão. Por isso, expediu ofícios para os comitês de ética de Goiânia e para o próprio cirurgião pedindo esclarecimentos. O prazo de resposta é de sete dias a partir do recebimento.

"Todo novo procedimento na área de saúde precisa passar pelo crivo do comitê de ética local e pela comissão nacional, em Brasília. Se o procedimento não é experimental, ele [Áureo de Paula] terá que comprovar que é um método consagrado.

Se for experimental, ele terá que apresentar todo o protocolo da pesquisa", afirma.

Editoria de Arte/Folha Imagem

Achados da medicina

Desde terça-feira a Folha tenta ouvir o cirurgião Áureo de Paula, mas ele preferiu não dar entrevista e pediu que o endocrinologista Alfredo Halpern, que acompanha pacientes dele, comentasse o caso.

Halpern, que é responsável pelo Departamento de Síndrome Metabólica da Sociedade Brasileira de Diabetes, diz que a cirurgia não é experimental, pois é feita há seis anos e com bons resultados. "Áureo de Paula conseguiu resolver o diabetes em não obesos."

Para Halpern, a cirurgia não é regulamentada e não está dentro dos procedimentos recomendados pelo CFM porque se trata de uma técnica complicada, que exige habilidade cirúrgica (todo o procedimento é feito por videolaparoscopia).

"Boa parte das cirurgias no mundo não é feita com protocolo experimental. Elas são "achados" da medicina e depois são consagradas pelo uso. Com essa técnica é assim. Ela está consagrada, mas não é qualquer cirurgião que tem habilidade para fazê-la", afirma. Halpern, que também chefia o Departamento de Obesidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, diz que o HC deve iniciar em breve um protocolo de pesquisa sobre a técnica.

Fausto Silva, 59, já perdeu 10 kg desde que fez a cirurgia (antes dela, pesava 130 kg). Seu objetivo é emagrecer mais 20 kg. Ele sofre de diabetes tipo 2 e de hipertensão e, desde a operação, não toma mais remédios para controlar as doenças.

Em nota, o hospital Albert Einstein, onde o apresentador foi operado, diz que procedimento cirúrgico de Áureo de Paula é reconhecido como experimental e é realizado dentro de critérios de segurança e qualidade da instituição.

Advogada processa médico de Faustão após cirurgia

Colaborou DANIEL CASTRO, colunista da Folha

Comentários dos leitores
Chico Castro (3) 10/11/2009 11h29
Chico Castro (3) 10/11/2009 11h29
AO ver uma discussão tão grande sobre este assunto, fico num mixto de perplexidade e revoltado com certas coisas que acontecem em nosso país. Dr Áureo vem desenvolvendo uma técnica diferenciada e menos agressiva ao processo natural de digestão, e ao longo de seis anos de sua aplicação, houveram pouquíssimos problemas com seus pacientes (pelo menos é o que nos traz as reportagens da Folha). Este tipo de procedimento é de grande risco em qualquer uma das técnicas, haja visto problemas também apresentados em pacientes que recorreram a técnica tradiconal, estes em número bem mais significativos, inclusive conheço vários casos. Outro ponto a se considerar é que esta cirurgia virou instrumento estético, pois pessoas que não estão em estado de obesidade mórbida, estão realizando por ser o meio mais fácil de emegrecer, e não medem as consequências disto, estas são as que mais sofrem, e não vejo o CFM investigando os médicos que realizam estes procedimentos. Por que no Conselho não se preocupa em discutir critérios para a realização deste procedimento? E não só deste, mas os casos de cirurgias pláticas que são realizadas em adolecentes e jovens, com implante de silicone, botox e coisas semelhantes? Ainda vou mais longe, será que o Conselho também é rigoroso na avaliação de milhares de erros médicos cometidos todos os dias nos atendimentos de saúde pública? Os casos de omissão de atendimento? Como dizia o "Macaco", não precisa explicar, eu só queria entender!!! Eita Brasil. sem opinião
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Lucas Mora (1) 09/11/2009 18h19
Lucas Mora (1) 09/11/2009 18h19
Já imaginou se todos os procedimentos cirurgicos descobertos tivessem a necessidade de passarem por uma comissão...???
Até hoje não teriamos sequer pesquisado o corpo humano..
Esse é o problema dos pesquisadores no Brasil, quando alguém descobre algo por trabalhar com medicina, engenharia, direito... se não for "pesquisador" não vale...ora porque não pesquisam o método....??
Será que é porque quem vive e trabalha com medicina que descobriu e, não um "pesquisador" não tem valor...???
Se existe uma chance.. porquê não pesquisar.. nós diabéticos teremos que aguardar os "ciúmes" dos "doutores" para que a cirurgia possa ser aplicada... ora tenham a santa paciencia e procurem serem mais produtivos...
Fraternalmente...
sem opinião
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eduardo mariano (1) 09/11/2009 16h14
eduardo mariano (1) 09/11/2009 16h14
Essa matéria foi totalmente sensacionalista, visto que o "erro médico" trás audiencia para os orgãos de imprensa. O Dr. Aureo Ludovico de Paula, médico do hospital de especialidade de Goiânia e do Hospital Albert Einstein, já realizou mais de 500 cirurgias, com 95% de sucesso!!! isso é simplismente fantantico. Antes de se realizar qualquer procedimento cirurgico, o médico cirurgião, apresenta ao paciente quais são os risco e complicações que o procedimento pode levar, visto que há uma alteração fisiologica e anatomica na pessoa. Contudo afirmo que, atualmente, pois não sabemos o que pode a vir futuramente, a cirurgia do Dr. Aureo é um sucesso e um marco para a endocrinologia e para o colégio brasileiro de cirurgia. Usar da mídia contra o médico já virou uma especialidade para tais advogados aproveitadores e desconhecedores da atividade médica, que preocupa somente com o lucro e beneficio prórprio sem opinião
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