Equilíbrio
04/11/2009 - 10h27

Quem quer se matar dá sinais, diz autora do livro "Suicídio"; leia entrevista

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FLÁVIA MANTOVANI
Editora-assistente do Equilíbrio da Folha de S.Paulo

Depois que seu pai se matou com um tiro, em 2005, a jornalista Paula Fontenelle, 42, escreveu o livro "Suicídio: o Futuro Interrompido" (Geração Editorial), finalista do prêmio Jabuti 2009. Leia trechos de sua entrevista.

Campanha quer informar sobre prevenção a suicídio

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Folha - O que leva uma pessoa a cometer um ato tão drástico?

Paula Fontenelle - Mais de 90% dos casos de suicídio são associados a um transtorno mental não tratado adequadamente, como depressão ou bipolaridade. O uso de drogas também é comum.

Folha - Muitas vezes a pessoa tem uma melhora no humor antes de se matar. Por quê?

Fontenelle - O deprimido não tem energia nem para se matar. Depois que ele começa a tomar remédios, recobra a energia para isso. O outro motivo é que, quando alguém decide se suicidar, fica aliviado. Muitas vezes ele reencontra antigos amigos, quer se despedir. Outros sinais são desfazer-se de coisas materiais ou pagar contas para não deixar dívidas.

Folha - A pessoa "avisa" que vai se matar?

Fontenelle - Ela pode até não dizer "vou me matar", mas diz coisas como "a vida não tem mais sentido", "não consigo entender por que estar vivo". São sinais.

Folha - O que fazer ao perceber que uma pessoa quer se suicidar?

Fontenelle - Perguntar diretamente se ela está pensando em se matar e levá-la imediatamente a um psiquiatra, que é a única pessoa que poderá ajudar.

Folha - Quem se mata mais, o homem ou a mulher?

Fontenelle - O homem comete três vezes mais suicídio, mas mulheres tentam de três a quatro vezes mais. A diferença é que elas tomam mais remédios, menos letais, e eles dão um tiro na cabeça e raramente escapam.

Folha - O luto vivido pela família de quem se mata é diferente?

Fontenelle - Sim. É um luto silencioso, o que dói. Quando alguém morre de infarto, todo mundo fala sobre como ele morreu. No caso do suicídio, as pessoas mudam de assunto, é um tabu.

Folha - É comum os familiares sentirem culpa?

Fontenelle - É quase impossível não sentir. E as pessoas também os culpam, pensam: "Como ele não viu?"

Folha - A mídia é cautelosa em relação ao tema porque é dito que o cobrir pode incentivar outras pessoas a se matarem. Ele deve ser abordado?

Fontenelle - Sim, desde que com responsabilidade. O que dissemina o suicídio é a cobertura personalista, romantizada, em que só se entrevistam os parentes. Devem ser ouvidos analistas que falem de prevenção e nunca se deve entrar em detalhes sobre os métodos, por exemplo. Mas, acima de tudo, a mídia não deve se calar.

 

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