Folha de S.Paulo Moda
*número onze *ano três *sexta-feira, quinze de outubro de dois mil e quatro
Folha Online
 
Texto anterior | Índice | Próximo texto
moda / a tendência

viajando na maionese barroco-dialética

crítico analisa momento neotropicalista
Ah, ufanismo e vanguarda são ótimos quando se repetem como farsa ou paródia. Caso da moda. "Olha pro céu, meu amor,/ vê como ele está lindo/ olha praquele balão multicor/ Como no céu vai sumindo". Nas araras, passarelas e camelôs, o colorido encobre lindamente as nossas dores. O tropicalismo se repete como circo. Sem medo de ser brega, ou ufanista-farsante-chique, sem síndrome de brasileiro vira-lata, faz favor, eu não sou cachorro, não.

Lévi-Strauss x Gilberto Freyre Menos "Tristes Trópicos" de Lévi-Strauss e mais "Tropicologia", a ciência proposta por Gilberto Freyre que deu conta de todos os nossos "modos & modinhas".

Castro Alves fashion "Auriverde pendão da minha terra,/ que a brisa do Brasil beija e balança". Baixou um Castro Alves no mundo fashion, é a nova moda do Brasil. E deixa a tanga voar, ô, ô, como cantava Gonzaga, sertanejo alumbrado com as vestes de praia das garotas do Leblon.

Maionese barroco-dialética Vivemos a era neotropicalista ou neotropicológica? Taí um mote para outro Gilberto, o ministro Gil, "viajar" horas com a sua maionese barroco-dialética. Nós também seguimos adiante com o andor.

Cinema 70 Os inocentes filmes de sacanagem dos anos 70 parecem mais com a moda atual do que a falsa brasilidade dos que bebem hoje nos cofres da Lei Rouanet. Mais pornochanchada, que já começa a se tornar gênero cult, e menos "cinema da retomada". Cada um na sua.

Por que me ufano O neotropicalismo da moda cai bem no modelito da propaganda do governo federal: "O melhor do Brasil é o brasileiro". O tropicalismo de Caetano e companhia era excomungado pelo regime militar e atacado também pela esquerda, que o rotulava de alienado e alienante.

Psicodelia ontem e hoje E não é que Arnaldo Baptista nos reaparece nas bancas de revista, vestido de obsessão florido-mutante, com o seu "Letitbed", disco sanguinho novo e o mesmo velho sorriso do gato de Alice?! O tropicalismo que seguiu por outras veredas, aí vemos também as mãos de tesoura do jardineiro elétrico Tom Zé, parece novinho em folha. "LSD", título irônico da melhor música do CD recente, reverbera no juízo e emenda o seu efeito com a psicodelia dessa tal de droga nova, o "Ê", o "Ê" de ecstasy, que embala as pistas de música eletrônica. Ah, o meu coco ferve por você.

República Federativa do Brasil A banana como espetáculo do crescimento na era do Chacrinha, que fazia noitadas especiais no seu circo para exaltar a fruta. Com o mesmo cacho, Carlos Imperial deu a resposta à "Laranja Mecânica" de Kubrick e rodou "A Banana Mecânica", de 1974, com a musa-mor Rose di Primo. Como era gostoso o meu cinema.

Street-dance para novos Oiticicas E os parangolés viraram farrapos humanos, na tendência das ruas. Zumbis sob os cobertores Paraíba. Seja marginal, seja o que o dinheiro do pano der.

Santa Ceia Ouviram do Ipiranga o novo grito dos Mutantes, a nova comédia para exportação. Mas avisa aos gringos, ó nossa senhora da balança comercial, que o paraíso está perdido. Diz também aos jesuítas da nova ordem, que os caetés continuam comendo gente!

Agora é moda Em tempos da "metaforabrás" do presidente Lula, nenhuma imagem diz tanto sobre o Brasil -principalmente no Exterior- como a que foi criada pela funkeira carioca Tati Quebra-Barraco sobre si mesma: "Sou feia mas tô na moda." A feiúra pátria está além da natureza, claro, nos indicadores sociais que nos põem entre os piores do mundo.
xico sá
veja a galeria
Texto anterior | Índice | Próximo texto
 

Copyright Folha Online. Todos os direitos reservados. É proibida a reprodução do conteúdo desta página
em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização escrita da Folha Online.