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Um pedaço de pano
Do fio ao pivô da modelo na passarela, sob os flashes dos fotógrafos, acompanhe o trajeto do protagonista nem sempre percebido pela platéia: o tecido
Em Paris, o estilista japonês Issey Miyake tem uma loja chamada Um Pedaço de Pano ("A Piece of Cloth"). Com esse nome inusitado, ele chama a atenção para a importância do tecido, que é tão determinante para a moda e que muitas vezes passa despercebido pelo consumidor final.
Ao examinar um produto no cabide de uma loja ou numa vitrine, poucos pensam em sua trajetória até ali. O processo completo dura cerca de um ano, seis meses antes do lançamento da coleção e mais seis meses até a estação seguinte.
Para esta reportagem, acompanhamos um pedacinho de pano desde sua criação até seu apogeu, na passarela da São Paulo Fashion Week. Os personagens desta pauta são cortes de georgette e de cetim, ambos de seda, parte da coleção de verão 2006 da Iódice.
A coleção apresentada nesta temporada começou a ser desenvolvida pela marca em fevereiro. Nesse mês, foi decidido o tema principal e foram produzidos os desenhos das peças e as pesquisas de materiais e estampas. O pedaço de pano está previsto para durar, oficialmente, até fevereiro de 2006, quando acontecem os lançamentos da próxima estação (no caso, o inverno 2006). Ele passou a existir a partir de fiações vindas do Paraná. A tecelagem entrelaça os fios em teares e depois eles são "purgados" (banho em água morna e detergente por oito a dez horas para tirar a "goma" que vem no fio). São feitos quadros com a estampa que o cliente quer, e em seguida os tecidos são tingidos com corantes reativos.
O material é vaporizado e lavado, para depois ser colocado em grandes rolos de 35 m a 50 m de comprimento.
São essas peças que chegam então à fábrica da Iódice. Lá, funcionários especializados revisam a metragem e o peso de cada rolo em uma máquina apropriada. Tecidos de malha precisam "fraldar" (descansar) para que a metragem e a elasticidade do material não sejam comprometidas. Já a seda pode ser imediatamente separada em "folhas".
No prédio localizado no bairro de Pinheiros (zona oeste de São Paulo) funcionam também o escritório e show-room da marca do empresário Valdemar Iódice. Dez estilistas, duas ilustradoras e seis modelistas (responsáveis pelo caimento das roupas) começaram a coleção oficialmente no início do ano.
Em março ficaram prontas as primeiras peças-piloto (protótipos), que norteiam todo o trabalho. Aprovada na pilotagem, a peça ganha uma ficha de controle, que reúne todas as informações técnicas necessárias, como tiragem, cores, estampas, acabamentos (bordados e aviamentos) e, finalmente, os tecidos a serem encomendados. Neste caso, foram encomendados 600 m de georgette de seda e 600 m de cetim de seda com a estampa de bolinhas.
Com o protótipo na mão, os estilistas fazem provas nas modelos para conferir o caimento e o design, sempre recebendo ajustes. A ficha é reescrita inúmeras vezes até chegar à versão definitiva, o que aconteceu aqui entre o final de fevereiro e o início de março. No começo de abril começou a produção do mostruário. O desenho escolhido foi enviado num molde para o plotter, um computador configurado especialmente para imprimir o risco em folhas de papel. São desenhadas todas as partes necessárias para se confeccionar a peça de roupa, contando com o aproveitamento de espaço para minimizar perda de retalhos.
O risco fica sobre uma pilha de folhas de tecido, que serão cortadas com uma tesoura elétrica, separando os pedaços que formam cada peça. As costureiras recebem os recortes e costuram uns nos outros seguindo as direções e as quantidades determinadas na ficha técnica. Dentro da fábrica da Iódice são produzidos apenas as peças-piloto, as peças de mostruário e os itens de malharia. São 140 funcionários, entre corte, malharia, acabamento, recebimento e expedição.
Na seqüência, as peças de mostruário já montadas ganham acabamento: botões, laços, apliques. Essas peças do verão 2006 ficaram expostas no show-room da marca, durante o mês de abril. Nesse momento é que são definidas as quantidades de acordo com o número de encomendas. A produção da coleção completa começou no final desse terceiro mês.
Já transformado em roupa, então --no caso, uma simpática batinha--, o pedaço de pano é vestido N vezes em diferentes modelos, nos meses que se seguem, sempre internamente. Às vésperas da São Paulo Fashion Week, já em junho, a batinha é vista pela equipe de styling do desfile, comandado por Chiara Gadaleta. É ela quem, juntamente com Valdemar Iódice, escolhe com o que a peça vai ser combinada (ou editada) para criar o look da passarela.
Isso feito, decide-se quem é a garota que vai usá-lo na hora da apoteose, diante do grande público. Horas antes, a última prova, já com tudo decidido. Camareiras arrumam as "araras" e penduram a peça diante de uma plaquinha com o nome da modelo (Elica Volpe) e o complemento da produção (sapatos, acessórios). Faltam trinta minutos para a hora do desfile e as modelos são vestidas e colocadas em fila. Começa a apresentação e elas entram, uma a uma, diante de fotógrafos, imprensa, público e compradores. O pedaço de pano volta para os camarins, missão cumprida. Ele vai chegar às suas mãos na primeira quinzena de agosto, com o lançamento das peças do verão 2006.
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texto André do Val
fotos Silvia Boriello