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No meio do furacão
Empresários e entidades de moda se preparam para a invasão chinesa no Brasil
Tendências lançadas nas passarelas são interpretadas de acordo com a rapidez da consumidora de cada ciO mercado brasileiro de moda e vestuário está na rota de um grande furacão: a China. A preocupação com o gigante oriental tornou-se evidente no final de 2004, após o fim do Acordo de Têxteis e Vestuário (ATV), da Organização Mundial do Comércio (OMC). Com isso, permitiu-se o livre comércio de produtos têxteis desde 1º de janeiro de 2005. O setor era regulado por cotas há 40 anos.
Por conta de sua agressiva competitividade, os chineses começaram a
exportar grandes quantidades de produtos de confecção, além de tecidos de algodão e sintéticos, que invadiram os mercados norte-americano e europeu, acendendo o sinal de alerta no mundo ocidental.
A China não apenas tem tirado mercado de outros países fornecedores do Brasil, como está ocupando o espaço dos produtores nacionais competitivos, interna e externamente em diversos segmentos, de acordo com avaliação da Comissão Permanente de Defesa Comercial da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
A área que poderá ser mais afetada será a de confecção, principalmente na fabricação terceirizada, na opinião de empresários e entidades brasileiras do setor de moda e vestuário. Segundo Paul Liu, presidente da Câmara Brasil-China de Desenvolvimento Econômico (CBCDE), em 2004, no setor de vestuários, a China exportou 24 milhões de toneladas de manufaturados, o que representa US$ 61,6 bilhões, cerca de 65% das exportações do país na área têxtil. Esse setor representa um quarto do mercado mundial, 16% das exportações chinesas, empregando mais 18 milhões de mão-de-obra direta e 100 milhões de mão-de-obra indireta.
Atualmente, as exportações de produtos têxteis e de vestuário brasileiro representam apenas 0,3 % do volume total negociado no mundo, segmento responsável por mais de 1,5 milhão de empregos formais no país. "Com a invasão de produtos chineses, que apresentam preços competitivos e qualidade, além de esta taxa cair, o mercado interno pode ser abalado. Inclusive por- que o governo deixou para pensar nas conseqüências da queda do ATV no último minuto, sendo que isso já era previsto desde 1990", ressalta Roberto Chadad, presidente da Associação Brasileira do Vestuário (Abravest).
"O fabricante nacional enfrenta dois grandes problemas na hora de confeccionar um artigo: uma série de taxas impostas pelo governo, como CPMF, PIS, Pasep, Cofins e Imposto de Importação, e o custo de fabricação, que é muito alto", argumenta Chadad. "Além disso, as taxas de empréstimos bancários beiram 20%, enquanto na China o governo cobra taxas de 4,5% ao ano, além de não impor uma série de impostos e as matérias-primas terem preços infinitamente mais baratos que os nossos".
NEGÓCIO DA CHINA Os ventos também sopram nos grandes magazines, que estão importando cada vez mais contêineres de produtos chineses a custos mínimos. "Compramos calcinhas e sutiãs chineses por R$ 1,48, além de suéteres, calças e casacos, o que representa 5% do valor anual das nossas compras", destaca Márcio Goldfarb, presidente das lojas Marisa, grupo que atua há 57 anos no setor de varejo e conta com 159 lojas espalhadas pelo Brasil. As lojas Marisa compram produtos chineses com regularidade há três anos. "Optamos por importar esses artigos porque não encontramos no mercado nacional peças como essas, com tecidos diferenciados, qualidade e preços competitivos."
A coqueluche fashion chinesa contamina e seduz o setor industrial brasileiro. Um exemplo é a Rovitex, indústria verticalizada do setor de malharia localizada em Jaraguá do Sul, Paraná, que está realizando parcerias com fábricas chinesas. "Desde novembro de 2004 produzimos um milhão de artigos em tecido plano em parceria com duas empresas chinesas. Eles são importados para o Brasil com um custo 30% menor do que se fossem fabricados no país", conta Emerson Parisato, gerente comercial e coordenador de importação da Rovitex. A indústria emprega 1.200 funcionários e produz 1,2 milhões de peças/mês e 600 toneladas de fios/mês.
"Tentamos confeccionar essas peças aqui, entretanto, detectamos que para abrir uma nova unidade fabril deveríamos investir uma grande soma. Pela expertise da China na fabricação desse tipo de produto a baixo custo e com qua- lidade de tecido e acabamentos, além de agilidade de entrega, resolvermos estabelecer essa relação que deve crescer em torno de 15% no próximo ano", conta Parisato. "Como empresário, sinto que fizemos um excelente negócio, por outro lado, sinto que o país deixou de ganhar uma nova fábrica e de gerar novos empregos", pondera o executivo.
MURALHA Entre as políticas cogitadas por entidades do setor para conter a competição com produtores de peso, como Paquistão, Índia, Vietnã e Turquia, está a realização de acordos estratégicos com mercados do Primeiro Mundo, como a Comunidade Européia, e a criação da ALCA (Área de Livre Comércio das Américas), além de tentar um acordo bilateral com a China, ou ainda, de estipular barreiras comerciais (salvaguardas) contra produtos asiáticos.
Detectando a necessidade de analisar meticulosamente essa situação, a Câmara de Comércio Exterior (Camex) está revisando os documentos que regulamentarão as salvaguardas. Os textos serão enviados à presidência da República para aprovação e sanção, o que poderá ocorrer ainda neste mês de julho.
"A aplicação de salvaguardas para produtos chineses reacendeu a necessidade de resolver a fundo a situação dos setores ameaçados pela concorrência da China", informou Ivan Ramalho, secretário de Comércio Exterior do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, durante o 2º Fórum Brasil-China de Negócios, realizado no início do mês em São Paulo pela CBCDE. "A partir do próximo mês, depois da regulamentação do mecanismo de salvaguardas, as empresas dos setores que se sentirem prejudicadas deverão encaminhar petições ao Decom (Departamento de Defesa Comercial) para serem analisadas e aplicadas salvaguardas contra importações chinesas após um processo de investigação e consultas junto ao governo da China", orientou Ramalho no fórum.
Já a Abravest defende que o melhor meio de frear o poder de fogo da China é o de realizar um acordo bilateral espontâneo intermediado pelo Itamaraty, sem a necessidade de aplicação dos mecanismos de salvaguardas. "Acreditamos na possibilidade de um acordo voluntário entre os países para a importação de itens de vestuário sobre limites de 1% da produção brasileira por produto ao ano, acumulativo e de prazo mínimo de 15 anos. Quer dizer, 1% ao ano para os 15 principais artigos, como t-shirt, calça jeans, lingerie e vestidos femininos, que no final desse período acumularão a taxa de 15%", explica Roberto Chadad, presidente da Abravest. "No final desses 15 anos, esperamos também que o mercado interno se organize melhor e que o governo ajude nessa reestruturação, baixando juros e tomando medidas eficientes para que possamos competir de frente com os países asiáticos", acrescenta Chadad.
A Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) defende a regulamentação das salvaguardas e também está aberta a negocia- ções com representantes chineses. "Nós não estamos contra a China, mas estamos do lado do Brasil e de um mercado justo. Hoje o mercado está desequilibrado com taxas cambiais, fiscais e tributárias deficientes e isto cria discussões não favoráveis. Precisamos dis- cutir todo esse processo para termos um mercado sadio", enfatiza Fernando Pimentel, diretor-superintendente da entidade. "A Abit busca a regulamentação das salvaguardas, isto é, regras com bases consistentes dentro da lei para toda cadeia têxtil e de confecção. Isso não quer dizer que nós nos negamos a negociar com representantes da China", explica Pimentel.
Com todas estas ações em andamento, empresas e entidades atestam que a batalha está apenas começando.
texto Henriete Mirrione
foto Reuters e ilustração Flip