moda
Como ser moderno no rio de janeiro
Geração crescida nos anos 80 começa a retomar a força criativa da cidade a partir da moda, das artes, da música e do design, transitando entre túneis e sexos
No Rio é comum ouvir alguém falar bem assim, com essa pronúncia: "muderrrnos". Debochados que são, os cariocas logo arranjaram um jeito de chochar aqueles seres vestidos de preto, com jeitão intelectual e olhar blasé -não por acaso um tipo de "modernidade" instalada em São Paulo desde o final dos anos 80. Pois esqueça os "muderrrnos". Entram em cena, no Rio, os Novos Modernos. Quem visita a cidade sente os ventos desse frescor entre o mar e a montanha. Com atuação distinta, eles têm em comum seu caráter multidisciplinar, em manifestações que conjugam a língua franca da globalização. Ou seja: estão no Rio, mas poderiam estar em qualquer lugar. Quer dizer; não. Com essa nonchalance e esse charme, só podiam mesmo viver no Rio.
Eles preferem o dia à noite, transitam bem entre sexos e túneis. Estão nas artes, na moda, no batuque do samba e em beats criativos, mais perto da experimentação do que da bombação das pistas. Trata-se de uma geração criada e/ou crescida nos anos 80 e que agora chega à idade de produzir. "O Rio está retomando uma força que tinha naquela década. Os anos 90 foram mais difíceis, houve um esvaziamento cultural e econômico, concentrando tudo em São Paulo", diz Felipe Fonseca, 42, morador de Laranjeiras, um dos sócios da Chiaro, marca de apenas dois anos que está fazendo diferença no mercado masculino da cidade. Para ele, as pessoas ficaram incomodadas com esse intervalo: "Ficamos tão acuados que começamos a nos mexer".
"Não só na moda o Rio conquista espaço. Estou sentindo mais atenção para as artes em geral. As pessoas estão mais engajadas; arte está na moda; os surfistas estão virando grafiteiros. Tem muita gente nova surgindo", confirma Antônio Bokel, 27, carioca da Gávea. Designer gráfico, assina junto com sua mulher, Amanda Mujica, 24, a marca Soul Seventy, que representa a essência desse momento carioca. "Decidimos nos unir, mas não tínhamos grana para montar uma loja. Dei a idéia de vender as roupas na praia da Joatinga e no Posto Nove, com uma barraca de bambu". A galera gostou. Tinha som ambiente (um portátil lá dentro) e de quando em quando, DJs. "Era supercharmosa", lembra Amanda. A primeira coleção se chamou Entre o Asfalto e a Areia.
Agora, a simpática marca acaba de estrear no Fashion Rio com coleção inspirada nos moradores de rua, conseguindo muita empatia com o público e alguns dos melhores (e mais verdadeiros) biquínis da estação, bem anos 70. "Ter a praia por perto faz com que seu estilo seja completamente diferente", conclui Amanda Mujica. Verdade.
"O Rio para mim é o calçadão do mundo", declara Tomaz Viana, o Toz, 29 anos, do Jardim Botânico, um dos fundadores da Flesh Beck Crew, dos mais interessantes coletivos da cidade no momento, formado por artistas, designers, estilistas e grafiteiros. "Mas chega de Carmen Miranda e de Copacabana, nossa proposta é fazer algo mais globalizado", diz, proclamando Ipanema como núcleo desse pensamento. E se pulsa assim o bairro, seu coração está mesmo no Nove, o point oficial dos Novos Modernos. "Era mais hippie, hoje está mais hype", completa Toz -baiano de Salvador.
"O mais legal do Rio são os movimentos alternativos, pessoas se virando para fazer coisas bacanas", afirma Nina Becker, 31, do Jardim Botânico, ela mesma multitalentosa. Já trabalhou com escola de samba, cinema, publicidade, direção de arte e até como backing-vocal de Zeca Pagodinho. Nina também integra a megabanda hype (ou banda mega-hype) Orquestra Imperial, que por si já reúne alguns dos mais sedutores nomes do Rio: Thalma de Freitas, Rodrigo Amarante, Moreno Veloso, Pedro Sá, Berna Ceppas e Kassin.
Nina tem uma marca de roupas que leva seu nome e, mais recentemente, passou a investir também na carreira solo como cantora (está gravando seu primeiro disco). Na coleção de estréia, Volte Sempre, cada modelo foi inspirado em uma fotografia do álbum de família, com estampas feitas a partir de uma coleção de papéis de embrulho antigos. E ela sequer desfila. No Rio, nem precisa.
Como se sabe, a proximidade dos morros faz parte da personalidade da cidade. Do lado positivo, contribui com cultura e miscigenação. "Quando eu era novinha trabalhei nas alegorias das escolas de samba. Além da convivência com a comunidade, foi uma experiência muito marcante no coração: ver que a Zona Sul é uma coisa pequena e que o mundo é muito maior", observa Nina.
"O que mais gosto do Rio é o morro da Mangueira. Meus familiares moram lá. É bem alegre, tem samba e baile funk", festeja Marcus Vinícius, 24, top da beleza negra que participou de todas as edições do Fashion Rio. Na gringa (como se diz em plagas cariocas), acaba de fazer um editorial para a inglesa "i-D". Ele se queixa: "Os castings aqui ou são todos de negros ou de brancos. Não rola a mistura", diz o rapaz, que mora no Riachuelo e foi integrante da bateria da Mangueira, tocando surdo.
"Sou Portela, por causa do Paulinho da Viola. Tenho muita vontade de sair na bateria, mas sempre estou em Salvador ou em Pernambuco, trabalhando", conta Davi Moraes, 32, músico, jeitão cool e relaxado de carioca filho de baiano (Moraes Moreira). Um dos meninos mais disputados das orlas e planaltos brasileiros, Davi gosta mesmo é de circular pelo Centro, onde vai a shows e rodas de samba, além de garimpar por lojas especializadas em discos e instrumentos musicais, como o Bandolim de Ouro e a Guitarra de Prata.
O uso de apostos, no Rio, é freqüente, quase necessário para o funcionamento da engrenagem social. Mas quem serve de sujeito para a frase pouco se importa com isso. "Vou falar da minha família, pode? Meu primo, Pedro Vladimir Bernardes, toca uma música eletrônica misturada com pianos. Minha prima Amanda faz umas bijuterias maravilhosas; uma irmã, Antônia, trabalhou muito tempo na Maria Bonita e agora faz roupas de festa", diz Thiago Bernardes, 30, que carrega no DNA o mesmo talento de seu avô e de seu pai, os também arquitetos Sergio e Claudio Bernardes. "Há referências ao trabalho deles, mas tento me afastar ao máximo... Gosto de transformar isso tudo, prefiro olhar para o futuro", afirma.
Tanto que fez questão de incluir uma galeria de arte na sede do seu escritório, o Bernardes Jacobsen (sociedade com Paulo Jacobsen, ex-parceiro de Claudio). O espaço fica numa simpática rua do Jardim Botânico e realiza mostras de gente como Luiz Zerbini, Arthur Lescher e Marco Veloso. Entre os projetos corporativos estão a mais nova loja da Track & Field no MorumbiShopping e a bela pousada Maravilha, em Fernando de Noronha, de Luciano Huck e cia.
Lucas Bori, 26, é um carioca de sangue paulista. Na cidade desde os quatro, cria estampas para Redley e British Colony. Filho de artista plástico, formado em desenho industrial, Lucas acaba de fazer, como fotógrafo, um ensaio sobre o funk carioca para a revista internacional de música "XLR8R". Os novos e modernos meninos do Rio não têm mesmo medo da moda. "Gosto e consumo muito", diz Xandy Ostrovsky, 31, que morou na Suíça e em NY, onde estudou cinema. "Meus favoritos são Helmut Lang e Dior Homme", conta ele, um falante e comunicativo morador do Leblon.
Daniela Conolly, 33, também do Leblon, é outra carioca do mundo. Viveu em Paris e em NY, onde trabalhava como diretora de arte. Depois do 11 de setembro decidiu voltar. Por aqui, passou a assinar capas de CDs para a SonyBMG até abrir a Koolture, tendo como sócio Alexandre Schiavo. "Amo música", diz. Seu desfile de estréia no ultimo Fashion Rio abriu com uma moto em plena passarela e mostrou roupas em estilo glam-girlie. Os fashionistas -e amigos- adoraram.
Novo Moderno vai da Zona Norte à Zona Sul. Marcelo Eco, 24, premiado grafiteiro e artista plástico citado até no "New York Times", mora em São Gonçalo. Dirige uma ONG, dá aulas de desenho e, nos fins de semana, curte grafitar em comunidades carentes.
"Para mim, tanto faz o dia ou a noite. Prefiro ficar em casa", conta o garoto, que tem-se sentido sozinho por namorar uma garota de Vitória. "Não tem muita opção no Rio, tem que fazer o que aparece", suspira Tomaz Viana, o Toz, da Flesh Beck Crew. Os Novos Modernos gostam mesmo é de freqüentar a casa dos outros, em festinhas fechadas ou para uma simples prosa. "O dia é a balada do carioca, não tem jeito", confirma Gustavo Machado, 28, da Gávea, criador da Chiaro e agora parte do time do masculino da Cavalera. Ele reclama: "O Rio é uma província, se conhece todo mundo".
Lucas Bori comenta o momento atual: "Parece que são sempre as mesmas coisas, mas às vezes dá um gás novo". Entre os points para a próxima estação o povo indica o Jardim Botânico e o Horto. "É um lugar gostoso, mais fresquinho, com um monte de gente abrindo coisas aqui", diz Layana Thomaz, 28, que tem como clientes Fernanda Torres, Mariana Ximenes e Fernanda Abreu. Divide seu ateliê na rua Corcovado com a marca de decoração Clementina, com a Ana A, de biquínis, e a Zazou, de moda infantil. E é Gustavo Machado quem, sem querer, sintetiza essa onda dos Novos Modernos: "Fico feliz de ser uma parte da engrenagem; é um batalhão de gente talentosa".
Veja a galeria
texto Erika Palomino
reportagem Sergio Amaral, André do Val, Eduarda de Souza e Hermano Silva
edição de moda Manu Carvalho
fotos Daniel Pinheiro