moda / fashion view
Tamanho não é documento
A vida real anuncia um novo padrão de beleza: o da mulher normal
Esqueça o modelo passarela e aposte em formas reais. Este é o novo lema no qual a mídia especializada está investindo. No lugar do corpo perfeito de Gisele Bündchen, das pernas longas da Ana Hickmann e da barriguinha tanque da Daniela Cicarelli, entram em cena bumbum grande, coxas grossas e excessos de culote como... a grande maioria das mulheres, como você.
Em contrapartida ao verão que se anuncia, ao frenesi por dietas radicais, academias lotadas e à busca por tratamentos estéticos, uma nova postura se instala. Hoje, o ideal de beleza caminha no sentido de uma democracia sem precedentes e provavelmente sem volta. Saber ser bonita do seu jeito, valorizar seus traços, sua personalidade e inteligência. Um ideal positivo, multicultural, multifacetado, onde cada um pode ocupar o seu espaço natural e ser o seu melhor.
Nesse cenário, a indústria da moda tem assinado embaixo pela diversidade, apostando numa profusão de tipos físicos nos editoriais e passarelas, com castings cada vez mais variados e etnicamente ricos, além do uso corrente de “gente normal” no papel de modelos.
A propaganda também se sente na obrigação de representar diferentes belezas para falar com mais mulheres, mais consumidoras e ampliar as possibilidades e o potencial de venda. A Dove, da Unilever, após uma pesquisa em dez países com mais de 3.000 mulheres, lançou a Campanha Pela Real Beleza. São anúncios que falam de idades, formas e tipos diferentes e convidam a um debate mundial sobre padrões de beleza. A campanha, ao fazer uma abordagem democrática e real, é um sucesso de público e crítica. Luiz Musa, diretor de atendimento da Ogilvy & Mather, conta que a discussão sobre essa quebra de regras vem sendo muito produtiva, tanto no site quanto na mídia e na rotina das pessoas.
A Nike também acaba de aderir a nova visão, há pouco mais de um mês, lançou na América uma série de anúncios com closes no corpo de atletas femininas, enaltecendo partes como pernas, bumbum e ombros, com frases na primeira pessoa, assumindo a realidade e a beleza de cada uma delas.
A prática já tem precedentes. Quem não se lembra da invasão da Susi depois que a Barbie foi considerada “problemática”? Meninas adoeciam buscando a imagem esguia da boneca. Em 1994, a Natura lançou a campanha “Mulher Bonita de Verdade”, com mulheres reais de idades e belezas diferentes. Luis Seabra, fundador da Natura, acreditava que o mundo cosmético afastava a mulher dela mesma, fazendo-a perseguir um padrão inatingível de beleza. “Lutar contra estereótipos é a ética da Natura e a partir dessa convicção nós buscamos a estética”, conta Ricardo Guimarães, presidente da Thymus Branding e consultor da marca.
O mercado apresenta uma série de campanhas para mostrar que algo está mudando. Algumas marcas mais inteligentes já captaram a mensagem e começam a produzir tamanhos “especiais”. É o caso da inglesa Notify e da americana Gap. Esta, que sempre organizou suas calças por cintura e perna, passa a adotar o padrão Maçã, Pêra e Kiwi para atender mulheres de diferentes silhuetas e etnias. Na Argentina, segundo país em casos de bulimia e anorexia, o culto à beleza estava tornando-se algo tão sério que o governo baixou um decreto de lei obrigando as lojas a atenderem até a numeração 48.
As mudanças estão atreladas a dois fatores: uma mulher mais bem informada e segura de si que busca melhorar sua imagem e não conquistar uma aparência moldada; e o sucesso dos reality shows, que transformam pessoas normais em celebridades. Elas mostram sua rotina, reformam as casas, trocam de esposas, procuram parceiros e até se submetem a transformações plásticas, ao vivo e a cores. São pessoas que realizam sonhos comuns e despertam uma identificação com o telespectador que o assiste. Ou seja, passam a querer ser a Maria tal e não mais a Julia Roberts, no filme Uma Linda Mulher. Definitivamente, entramos na era da “campanha pela real beleza”. A tentativa é de mostrar às mulheres que os padrões de beleza estão mudando e hoje, classifica-se como belo aquilo que é real e não moldado por cirurgias plásticas, macas de estética ou potes de produtos.
por Carol Delboni e Manu Carvalho
fotos Reprodução
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