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26/11/2006 - 11h38

Novo Maracanã custa estádio de Copa do Mundo

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MÁRIO MAGALHÃES
SÉRGIO RANGEL
da Folha de S.Paulo

No estádio dos gols de placa, os torcedores e visitantes que chegam pelo saguão dos elevadores vêem tantas placas nas paredes como pés de velhos craques impressos na argamassa do Hall da Fama.

Em uma delas se lê: "Inauguração da 1ª fase das obras de reforma do Maracanã; 1º Mundial Interclubes; 06 de janeiro de 2000". Abaixo, outra: "Inauguração da grande reforma do Estádio Jornalista Mário Filho -Maracanã; período de outubro de 1999 a abril de 2002; Rio de Janeiro, 04 de abril de 2002".

As placas têm pedido limpeza assídua. O que não falta no antigo 'maior estádio do mundo' são nuvens de pó: o canteiro de obras quase permanente nos últimos oito anos se alvoroçou com a proximidade do Pan-Americano de 2007.

De janeiro de 1999 ao mês passado foram consumidos R$ 157 milhões de verbas do Estado do Rio em reformas do complexo do Maracanã -estádio de futebol, ginásio Maracanãzinho, parque aquático Júlio Delamare e estádio de atletismo Célio de Barros.

Até a abertura do Pan, a ser realizada no Maracanã no dia 13 de julho, serão gastos mais R$ 95 milhões. No total, R$ 252.092.950,10, sem atualização monetária, concentrados na arena de futebol.

São números fornecidos pela Suderj (Superintendência de Desportos do Estado do Rio de Janeiro), com base nas planilhas da Emop, a empresa estadual de obras públicas.

É dinheiro suficiente para erguer modernos estádios de Copa do Mundo: o de Leipzig, da Alemanha-2006 (custou o equivalente a R$ 244 milhões), ou o de Seogwipo, da Coréia-2002 (R$ 203 milhões).

O volume de recursos é nominalmente o quádruplo dos R$ 60 milhões anunciados para a "grande reforma" pelo então governador Anthony Garotinho em junho de 1999.

Em abril de 2005, a sucessora e mulher de Garotinho, Rosinha Matheus, afirmou que sairiam por R$ 71 milhões as obras que deixariam o complexo tinindo para o Pan. De janeiro do ano passado até os Jogos a conta fechará em R$ 192 milhões, beirando o triplo do estimado pela governadora.

Não são apenas orçamentos e estimativas que não se confirmam. Em outubro de 2005, o governo do Estado divulgou que em abril de 2006 o Maracanãzinho seria reinaugurado.

Se mantido o novo prazo (abril de 2007), o atraso será de um ano. A conclusão da reforma do Maracanã, cujo prazo era o mês que vem, ficou para as vésperas do Pan.

Placa de museu
Sob as duas placas que celebram as reformas em 2000 e 2002 há uma terceira: "Inauguração do Novo Espaço Cultural e Esportivo do Maracanã; Rio, 4 de abril de 2002'.

O tal espaço, em virtude das obras longevas, não está em funcionamento. Ocuparam-no federações desalojadas de setores em reforma.

Mais adiante, as portas fechadas são as do Museu Internacional Mané Garrincha, inaugurado em abril de 2002 com pompa, circunstância e placa. O Estado desembolsou R$ 4 milhões no projeto. Sem acervo, o museu dedicado ao futebol operou poucas semanas. Mais de quatro anos depois, segue o abandono.

Com 1.200 trabalhadores em ação (do consórcio de empreiteiras Odebrecht, OAS e Andrade Gutierrez), tudo que o Maracanã não parece -e não está- é abandonado. O problema é outro: o bate-estaca atravessa os anos e se insinua como infinito. Cariocas falam em "obra de igreja".

O novo Maracanã, cuja beleza das cadeiras coloridas já se desenha, continuará como uma instalação velha se confrontada com os padrões requeridos para a Copa.

Se o Brasil sediar o Mundial de 2014, para receber alguns jogos o Maracanã exigirá um novo ciclo de mudanças.

Em julho, o estádio vai oferecer 3.000 vagas de estacionamento. A Fifa impõe 15 mil. A sugestão da Suderj é erguer um edifício-garagem para 12 mil veículos em um terreno federal vizinho, com dinheiro público.

Dos 45 mil assentos da arquibancada, 20 mil não têm -nem terão em 2007- encosto com no mínimo 30 cm de altura. Precisariam ser trocados.

Placa nova
Dos R$ 252 milhões, a Suderj estima que 70% sejam investidos no estádio de futebol e 30% no resto do complexo. Os R$ 176 milhões só para o estádio o deixarão distante do conforto e da modernidade das arenas dos Mundiais recentes.

A cobertura de Leipzig é móvel, para impedir que a chuva molhe os torcedores. Em Hamburgo, também na Alemanha (R$ 261 milhões investidos), todos os assentos são cobertos.

No Maracanã, 50% do público seguirá à mercê do aguaceiro. A administração diz que o alongamento da cobertura engoliria R$ 200 milhões.

Outra diferença é que, na Alemanha, houve estádios construídos por empresas privadas, sem verbas públicas. O de Gelsenkirchen (R$ 514 milhões) não tem um só centavo do Estado. No Rio, todos os centavos são estatais.

A capacidade dos novos estádios europeus e asiáticos é menor que a do novo Maracanã -cerca da metade dos 95 mil a 100 mil lugares previstos.
Graças ao conforto e à tecnologia, contudo, as arenas estrangeiras permitem intensa exploração comercial, com shows e outros eventos lucrativos.

O déficit anual do Maracanã é de R$ 2 milhões. Se dependesse de promessa, o estádio erguido para a Copa de 1950 teria as qualidades do futebol nacional.

"Em dezembro, o Maracanã será um dos mais modernos estádios do mundo", alardeou em junho de 2000 o então presidente da Suderj, Francisco de Carvalho. O hoje deputado inaugurou muitas placas. Em julho, o Maracanã, reformado por R$ 252 milhões, ganhará mais uma delas.

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