Sonho olímpico faz Rio contrastar 1º mundo com "jeitinho brasileiro"
CLARICE SPITZ
JOSÉ RICARDO LEITE
da Folha Online, no Rio
O grande sonho do Rio de Janeiro de ser sede dos Jogos Olímpicos fez do Pan-2007 uma mistura de alta qualidade com alguns erros de organização e o velho "jeitinho brasileiro" para consertá-los.
A competição das Américas, que custou cerca de R$ 3,7 bilhões, teve na capital carioca obras faraônicas, como o estádio João Havelenge (o Engenhão), o Parque Aquático Maria Lenk e o Velódromo da Barra, entre outros, considerados de primeira linha pelos competidores.
Esses locais contrastaram com "pedras no sapato", como a Cidade do Rock, no "quintal" dos Jogos, ao lado do Riocentro.
O desprezado palco do beisebol e do softbol foi um dos principais "micos" dos Jogos. As chuvas fizeram do campo um lamaçal, e o vento derrubou e destruiu instalações, adiando jogos.
Os torcedores ali também sofriam, já que não havia telas que lhes assegurassem escapar das boladas vindas do campo.
As competições de vela também foram alvo de críticas de torcedores, que não tinham arquibancadas e se queixavam da dificuldade de ver os atletas.
As modalidades não-tradicionais sofreram mais com a organização. A grande maioria foi arrastada para centros longínquos, como o complexo Miécimo da Silva, situado a 40 km de distância da Vila Pan-Americana e de difícil acesso para os torcedores.
O "jeitinho brasileiro" marcou também a cerimônia de abertura, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi vaiado por seis vezes. A organização forçadamente colocou a imagem de Lula no telão no momento de euforia do público na entrada da delegação brasileira, única vez que a imagem do presidente não foi vaiada.
Outro "mico" de organização foi o problema enfrentado por torcedores com ingressos. A presença do público em eventos mais disputados causou algumas polêmicas.
Eventos esgotados, como finais do vôlei, tinham boa parte das arquibancadas vazias. Torcedores com ingressos das finais protestavam contra horários alterados e de venda de ingressos duplos.
Às vezes, o vazio da arquibancada era preenchido por voluntários, como na cerimônia de encerramento, em que o azul das cores dos uniformes dominava boa parte das arquibancadas.
Voluntários esforçados às vezes apenas confundiam os torcedores com informações incorretas. Muitos alegaram maus-tratos dos chefes, reclamaram da comida e deixaram a competição pela metade.
A comida também maltratou a torcida. O torcedor pagou caro e sofreu com a falta de opção para se alimentar nos locais de competição. As arenas e ginásios do Rio onde aconteceram as provas tinham poucas opções --na verdade, apenas uma, a rede de fast-food Bob's-- e preços salgados, como uma lata de cerveja a R$ 4,00.
Por outro lado, os torcedores tiveram a boa surpresa de um trânsito que fluiu sem o esperado "nó". Os transportes para atletas e delegações funcionou bem. O morador do Rio também conviveu bem com a segurança na cidade, que ganhou o reforço de policiais federais e membros da Força Nacional de Segurança.
A violência passou longe dos Jogos, tanto nas instalações esportivas quando em outros pontos da cidade. Exceto as vaias contra rivais, os torcedores tiveram um comportamento exemplar.
A pontualidade dos eventos foi uma marca importante do Pan-07. Poucos atrasos foram registrados em eventos.
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