Grandes de São Paulo terceirizam 28% de seus jogadores
LUÍS FERRARI
RODRIGO MATTOS
da Folha de S.Paulo
Após dez anos sem passe, extingo pela Lei Pelé, os clubes vêem fugir das suas mãos até parte das receitas sobre a cláusula penal, a indenização pelo rompimento do contrato. É o fenômeno do fatiamento dos direitos sobre vendas dos jogadores, agora divididos entre times, empresários, investidores e até pelos próprios atletas.
Levantamento da reportagem mostra que pelo menos 28% dos direitos sobre os atletas de Corinthians, Palmeiras, Santos e São Paulo não pertencem a esses clubes. O número deve ser ainda maior, já que os times não abriram completamente suas relações contratuais, com exceção do Corinthians.
O clube do Parque São Jorge transferiu parte dos direitos sobre seus atletas nas contratações e renovações. Cedeu 35% dos direitos sobre seus 31 jogadores do elenco principal a empresários, empresas e atletas.
No primeiro cenário, para trazer um jogador pelo qual não pode pagar na íntegra, o clube divide os direitos com o ex-time ou com agentes (30% de Acosta, por exemplo, são do uruguaio Sportivo Cerrito).
"Vários não tínhamos como comprar a totalidade. Outros não tínhamos como pagar o que o jogador pedia e dávamos compensação", explica o vice-presidente de Futebol do Corinthians, Mário Gobbi.
No segundo caso, estão atletas como Dentinho, que tem 20% de seus direitos pertencentes a Guadagno Sports, do empresário Cláudio Guadagno.
Pela nova norma da Fifa, um terceiro --que não seja o clube ou jogador-- não pode ter direitos sobre a transferência do atleta. Um empresário, por exemplo, só poderia receber comissão de uma das partes. O fatiamento do atleta também não está previsto na Lei Pelé.
Só que contratos cíveis, no Brasil e no exterior, estabelecem direitos sobre as transferências. A Justiça pode reconhecer ou não tais acordos.
"Entendo que o que a Fifa proíbe é o domínio do terceiro sobre o clube. No Palmeiras, não acontece", conta o advogado do clube, Luiz Roberto Martins de Castro. "A Traffic amarra o contrato. O que aparece é o Desportivo Brasil [clube que é braço da empresa]."
No Palmeiras, levantamento mostra que 31,2% dos direitos sobre atletas, no mínimo, estão com terceiros, ou 18 dos 28 jogadores do elenco principal.
Há os que pertencem a Traffic, como Diego Souza e Henrique, mas que o Palmeiras tem percentual de até 30% sobre a negociação. E há os que têm participações na própria negociação, como Léo Lima.
Ainda existem dez jogadores que foram vendidos a investidores, em uma cesta de atletas do Palmeiras. Esses têm direito a 8% da parte do clube sobre atletas como Valdivia.
Cenário mais simples é visto no São Paulo. Há 18, de um total de 29 jogadores, com relações contratuais com terceiros. No mínimo 28,1% do grupo está na mão desses terceiros.
"Em geral, temos parceria só com o atleta ou com outro clubes. Não temos com empresário. Mas não sabemos se o jogador cede a alguém", conta o assessor especial da presidência do clube, João Paulo de Jesus Lopes. "Em geral, cedemos percentuais de 15% a 25%, mas que podem chegar a 50%."
Na prática: o lateral Joílson tem percentual preso ao Tombense, ligado ao empresário Eduardo Uram; o atacante Éder Luís, emprestado pelo Atlético-MG, tinha direitos presos a dez investidores, que participaram da contratação.
No Santos, não há um levantamento sobre os direitos dos atletas cedidos a terceiros. Mas o costume é dar cerca de 20% sobre os novos contratos, segundo Dagoberto dos Santos, gerente de planejamento.
"Apesar de constar na lei que o primeiro contrato é do clube que formou, a gente tem que negociar com o atleta que já sai da categoria de base. Há casos que o empresário exige até 40% já enxergando uma venda para o exterior", diz o cartola.
O Corinthians, clube que mais se expôs com parcerias fracassadas ao longo da década, é hoje o único dos quatro grandes de São Paulo 100% transparente acerca dos investimentos alheios em seu elenco.
O clube distribuiu à imprensa a relação de quanto tem sobre cada jogador do elenco e publicou a lista em seu site.
O São Paulo revelou todos os jogadores que têm direitos de terceiros envolvidos. Em alguns casos, revelou os percentuais, mas, em outros, alegou sigilo para não fazê-lo.
O Santos disse apenas que tem como regra geral manter 80% dos direitos. E minimizou o caso. "Não acho que seja uma informação tão relevante ao torcedor, até porque, na hora de negociar, o clube pede quanto quiser pela sua parte", disse o gerente de planejamento Dagoberto dos Santos, dando como exemplo a negociação de Robinho com o Real Madrid.
Já o Palmeiras negou-se a revelar quaisquer detalhes --as informações foram obtidas com outras fontes. "Isso é um relacionamento entre o clube e seu parceiro. O Palmeiras é transparente. O fato de não divulgar não significa que não sejamos transparentes", afirmou o vice-presidente da agremiação Gilberto Cipullo.
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