Esporte
01/04/2008 - 10h23

"Elite" vê chegada da tocha olímpica a Pequim

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RAUL JUSTE LORES
da Folha de S.Paulo, em Pequim

Em uma cerimônia mais militar que olímpica, mais para autoridades que popular, a tocha olímpica chegou ontem a Pequim, onde a Olimpíada acontece em agosto.

Cordões policiais e militares isolaram desde domingo os principais acessos à praça Tiananmen, da Paz Celestial, onde aconteceu o evento, a quarteirões de distância. Duas estações de metrô ficaram fechadas. Só entraram, após passar por vários detectores de metais, cerca de 600 jornalistas e 4 mil convidados, entre lideranças do Partido Comunista, atletas, estudantes e dançarinos.

Apesar da tensão, não houve manifestações, ao contrário de Atenas, de onde a tocha partiu no domingo. Na Grécia, houve protestos de entidades de defesa dos direitos humanos.

Considerada a maior praça do mundo, que já reuniu mais de um milhão de pessoas em outras ocasiões, ela parecia vazia para os 5 mil convidados, sentados sobre um carpete vermelho ali colocado.

Um espetáculo colocou dezenas de dançarinos com trajes típicos de várias regiões da China, incluindo tibetanos, em um número que misturava folclore com toques de musical da Broadway. Alguns deles portavam bandeiras e pompons.

A organização tentou despistar ao máximo grandes concentrações ao redor da praça. Houve três anúncios diferentes do horário da cerimônia, que seria às 16h, depois às 10h e finalmente às 11h. O trajeto da tocha por Pequim tampouco foi anunciado com antecipação.

O governo chinês tem insistido em que não se "politizem" os Jogos, como resposta às ameaças de boicote por ativistas pró-direitos humanos pelo mundo.

Mas, pela cerimônia, ficou claro que, para consumo interno, a politização será explorada por líderes locais e nacionais.

Os apresentadores falaram oito vezes o nome do presidente Hu Jintao antes de ele aparecer, bem depois das apresentações musicais, em uma entrada triunfal diretamente para acender a tocha. Hu e seus colegas do Partido Comunista receberam quase a mesma pompa da própria tocha olímpica.

Mas o presidente não fez discurso. Coube ao recém-nomeado vice-presidente, Xi Jinping, fazer um pronunciamento. Ele é favorito para suceder Hu e foi nomeado coordenador dos Jogos Olímpicos recentemente, já preparando a sucessão.

"O sonho de mais de cem anos do povo chinês em abrigar uma Olimpíada se tornou realidade", discursou Xi.

Hu passou a tocha a um dos mais populares atletas chineses, o corredor Liu Xiang, nitidamente mais aplaudido que o presidente. Liu ganhou a medalha de ouro mais valorizada na China em Atenas-2004, nos 110 m com barreiras.

Havia pequenas (nos padrões chineses) aglomerações, a fim de ver a cerimônia em telões em ruas comerciais próximas.

À noite, os principais telejornais chineses disseram que a cerimônia teve uma "atmosfera feliz e harmoniosa".

A China preparou um itinerário para a tocha do tamanho de suas ambições --ela vai percorrer 137 mil quilômetros por 19 países, na maior jornada da história, a partir de hoje, quando ruma ao Cazaquistão.

O que foi concebido como uma demonstração de poder e popularidade dos Jogos pelo mundo se tornou uma encrenca, com a possibilidade de protestos contra a ditadura chinesa em cada destino.

A única cidade na América do Sul por onde ela vai passar é Buenos Aires, na Argentina.

A partir de maio, quando chega em Hong Kong, a tocha passará por 111 cidades chinesas até chegar em Pequim em 6 de agosto, antevéspera da abertura dos Jogos.

Mas o momento mais tenso do itinerário promete ser em Lhasa, a capital do Tibete, em junho. Monges budistas protestaram há duas semanas contra a repressão e a falta de autonomia na província. Há 660 presos em razão dos distúrbios.

 

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