Técnico vê maiô como "doping psicológico", e atletas brasileiros divergem
RAFAEL REIS
da Folha Online
Desde que foi lançado, no início deste ano, o maiô LZR Racer tem causado um verdadeiro turbilhão no mundo da natação. Às vésperas dos Jogos Olímpicos de Pequim, a modalidade vê uma incessante quebra de recordes mundiais, a maioria delas tendo o traje high-tech como protagonista.
O polêmico traje não deverá ser estrela entre os 434 nadadores que disputarão a partir desta terça-feira o Troféu Maria Lenk-2008, última seletiva brasileira para os Jogos Olímpicos, no Rio de Janeiro, mas o maiô será o uniforme oficial da delegação brasileira de natação em Pequim.
Veja vídeo com entrevista de nadadores brasileiros
Das 19 melhores marcas mundiais obtidas em 2008 em piscina olímpica (de 50 m), 18 foram conquistadas por atletas que vestiam o LZR, que teoricamente melhora a flutuabilidade dos nadadores que o utilizam.
Apesar de admitir que o maiô pode ajudar na obtenção de bons resultados, o técnico da seleção brasileira Alberto Silva, conhecido como Albertinho, considera que a maior parte do efeito do LZR é psicológico e que os atletas que o utilizam se favorecem da aura de "supertraje" criada pelos recordes.
"Não dá para a gente achar o efeito natural pelo volume de recordes quebrados. A evolução está aí. O maiô foi um incentivo a mais, ele deu um toque especial, que acabou virando muito mais um resultado psicológico. O LZR serve como doping psicológico. O cara coloca o maiô achando que vai arrebentar e, por acreditarem nisso, alguns arrebentam mesmo", afirmou.
O traje polêmico, que chegou a ser vetado nas seletivas olímpicas de alguns países para não "desequilibrar" as competições.
Alguns atletas brasileiros já tiveram a primeira experiência com o maiô e deram opiniões diferentes sobre o assunto.
"Eu acredito que o traje tem ajudado, porque no ano da última Olimpíada [2004] não tivemos tantos recordes sendo quebrados como está acontecendo esse ano. Eu tive a oportunidade de usar o LZR e consegui baixar quase um segundo e meio da minha melhor marca. Então, deve fazer alguma diferença sim", disse Lucas Salatta, que tem índice nos 200 m costas.
"Ele é melhor do que os outros, mas você não sente tanta diferença quando está nadando. Quando você chega e vê seu tempo bom e acaba colocando o mérito no o LZR. Mas isso vem do trabalho que você está fazendo, e não da roupa", retrucou Guilherme Guido, dos 100 m costas.
Críticas
Apesar de toda a euforia causada pelos recordes batidos neste início de temporada, o LZR não é unanimidade entre os atletas. Aos poucos, as críticas com relação a ele vão aparecendo.
A australiana Leisel Jones, campeã olímpica e mundial, reclamou da durabilidade do maiô. Segundo ela, o traje perde em aderência e em velocidade conforme é utilizado.
Outra crítica que tem se tornado popular diz respeito à "preferência" do maiô por provas de curta distância. Dos 18 recordes em piscina longa, 15 foram batidos em competições de 50 m ou 100 m.
"O LZR dá um ganho na velocidade, mas não melhora a resistência dos atletas. Se os nadadores passam os primeiros 100 metros muito forte, eles vão se cansar no resto da prova e o desempenho final não vai melhorar", explicou o treinador da seleção.
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