Cavaleiro negro quebra tabu no hipismo e troca rodeios por Olimpíada
RAFAEL REIS
da Folha Online
Quando pequeno, Rogério Clementino sonhava entrar na arena da Festa de Peão de Barretos montando um touro bravo. O sonho nunca foi concretizado. Mas, em agosto deste ano, ele terá a oportunidade de realizar um feito com o qual nem mesmo sonhava. Defenderá a equipe brasileira na prova de adestramento dos Jogos Olímpicos de Pequim.
De origem humilde, bem diferente da maioria de seus colegas do elitista mundo do hipismo, Clementino é o primeiro cavaleiro negro da história do Brasil a se classificar para uma Olimpíada.
Veja vídeo com entrevista de Rogério Clementino
"Minha paixão era montar em boi, ficar no meio do gado. Como morei desde pequeno em fazenda, sempre gostei de bicho. Eu gostava de adrenalina, gostava de loucura", diz Clementino, 26, natural de Ivinhema (MS).
Apesar da paixão pelo rodeio, o ex-peão esteve longe das glórias nesta atividade. Sem patrocinadores e sem condições de bancar uma preparação física adequada, ele abdicou do sonho devido à insistência de sua mulher, Ana Paula, então sua namorada.
"Ela falava: 'Roger, não vai montar [touros em rodeios], isso é perigoso'. Ela ficava me enchendo o saco até que comecei a ficar só na parte de cavalo. Tem uma certa fase da vida em que você tem que parar para pensar", afirma.
Ao trocar o rodeio pelo adestramento, Clementino não apenas satisfez sua companheira, mas também começou a colher bons resultados.
Montando o cavalo Nilo V.O., ele foi campeão brasileiro e medalhista de bronze nos Jogos Pan-Americanos de 2007, feito que classificou o país para a Olimpíada.
O ex-peão foi o primeiro cavaleiro brasileiro a conquistar o índice necessário para integrar a equipe que vai aos Jogos de Pequim.
Origem humilde
Clementino cresceu em uma fazenda, filho de uma doméstica, irmão de um servente, e superou uma infância humilde para chegar a ser atleta olímpico. Trabalhou como tratador dos cavalos e limpador de baias no haras do empresário José Victor Oliva, em Araçoiaba da Serra (SP), onde conheceu o adestramento.
"Eu acordava muito cedo, limpava as baias, tratava dos cavalos. Aí ia montar. Eu era tratador", diz o atleta, medalha de bronze por equipes nos Jogos Pan-Americanos do Rio, no ano passado.
Apesar de ser negro e ter origem humilde, Clementino afirma que nunca sofreu preconceito nas competições, mas que encararia atos racistas como incentivo para continuar trilhando seu caminho.
"Todos somos iguais, independente de raça ou cor. O preconceito é uma coisa tão feia. O bonito é você olhar para o outro e querer o bem dele. Mas se eu tivesse sofrido algum preconceito, só serviria para me motivar mais", diz.
"A minha história serve de exemplo de que nada é impossível. Eu vim do Mato Grosso do Sul, era limpador de baia e hoje consigo competir ao lado de todas as feras. Isso é motivo de orgulho para mim. Ninguém é melhor do que ninguém", afirma.
Equipe
Além de Rogério Clementino, a equipe brasileira olímpica de adestramento contará com Luiza Almeida, 16, que também competiu ao lado do ex-peão no Pan do Rio. A terceira vaga do país pode não ser preenchida --para obter a classificação, o cavaleiro ou amazona precisa obter pelo menos 64% de desempenho em duas disputas diferentes.
No adestramento, o conjunto inicia a prova com 100% e executa uma série de movimentos, perdendo pontos de acordo com a avaliação dos juízes. São avaliados movimentos como passo, trote e galope de acordo com o grau de dificuldade em sua execução.
"Quando estou montando, tenho que ser o mais discreto possível e mostrar para o público que o cavalo está me dirigindo. Para você perceber as diferenças entre uma prova boa e uma prova ruim, tem que estar dentro do meio", concluiu Clementino.
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