"Tático", Zagallo foi de coadjuvante a revolucionário na Copa-1958
MARCELO FREIRE
Colaboração para a Folha Online
Inicialmente coadjuvante de um ataque que contava com jogadores como Pelé, Garrincha e Vavá, Mário Jorge Lobo Zagallo, 76, acabou sendo decisivo na conquista da primeira Copa do Mundo da seleção brasileira, na Suécia-1958. Mais do que isso, ele iniciou uma pequena revolução tática que marca o futebol mundial até hoje, exatos 50 anos depois.
No esquema do técnico Vicente Feola, Zagallo foi pioneiro na função de ponta recuado, jogador de ataque que também ajuda a compor o meio-campo e auxilia na marcação. A posição de Zagallo inclusive permitiu que o lateral-esquerdo Nílton Santos se destacasse, já que até então os laterais pouco subiam ao ataque para não desguarnecer a defesa.
"Saímos de um 4-2-4 rígido para fazer uma mudança tática para o 4-3-3. Era uma variação que existia. Quando nós perdíamos a posse de bola, estávamos com sete jogadores atrás. Quando pegávamos a bola, eu entrava como um ponta esquerda ofensivo", explicou Zagallo, em entrevista exclusiva à Folha Online.
Segundo o ex-jogador, a seleção conseguiu um diferencial com a inovação. "Foi um sistema tático diferente. Houve essa mudança tática que, no meu entender, melhorou para o Brasil, que sabia se defender e tinha valores excepcionais na parte ofensiva", contou.
Mesmo com função diferente em relação a Pelé e Vavá --responsáveis pela artilharia-- Zagallo entrou para a história ao marcar o quarto gol da seleção na final contra a Suécia, que acabou 5 a 2.
Faltando pouco mais de 20 minutos para o encerramento da Copa do Mundo, que pela primeira vez coroaria o Brasil campeão, o atacante desencantou e deixou também o seu nome na artilharia do Mundial.
"Foi uma felicidade muito grande [marcar o gol], porque eu era um jogador mais tático dentro do campo. Eu fazia uma dupla função, não tinha a mesma presença de área de um Garrincha, Pelé ou Vavá", ressaltou.
"Eu tive a felicidade de fazer esse quarto gol e dar o passe para o Pelé no quinto. A bola estava comigo na ponta esquerda, o Pelé veio de trás e levantou o braço para eu meter a bola nele. Meti justamente na cabeça dele, que fez o quinto gol", relembrou
Corte
Apesar da importância no time que venceu a Copa, o ponta-esquerda teve sua participação na colocada em dúvida antes do Mundial, quando disputava a vaga com Pepe (Santos) e Canhoteiro (São Paulo) --este último acabou ficando fora.
"Haviam três pontas-esquerdas: o Canhoteiro, o Pepe e eu. Um tinha que ser cortado, e sempre saía o meu nome, porque os favoritos eram o Pepe e o Canhoteiro. Mas tive a felicidade de entrar em um jogo contra o Paraguai, em um Maracanã superlotado, e fazer dois gols", explicou o ex-atleta, que atuava no Flamengo na época.
"As coisas foram prosseguindo até que houve a definição do corte. No último jogo, disputado em São Paulo, jogou o Canhoteiro no primeiro tempo e no segundo o Pepe. E eu ali já tinha sido escolhido para continuar com a seleção. O Canhoteiro foi cortado", conclui Zagallo, que participou de todos os jogos da Copa-1958 e também do bicampeonato em 1962 --além dos títulos como técnico em 1970 e coordenador-técnico em 1994.
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