Esporte
01/07/2008 - 09h32

Após escândalos e títulos, Eurico Miranda deixa o Vasco

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RODRIGO MATTOS
da Folha de S.Paulo

"Não acho nada. Não tenho nada a dizer. Se você ouviu coisas positivas e negativas, ponha as negativas." Assim Eurico Miranda respondeu ontem à reportagem ao ser questionado sobre seus cerca de 20 anos como homem-forte do Vasco, na véspera de entregar o cargo de presidente a Roberto Dinamite, eleito na última sexta-feira.

O dirigente --que virou sinônimo de cartola-- sai de São Januário deixando um rastro de títulos, denúncias de enriquecer e se aproveitar do clube, dívidas, processos judiciais, brigas, inimigos e amigos leais.

Derrotado, diz deixar a cena para cuidar da família, mas ainda quer ficar no Clube dos 13.

Fato é que se encerra seu comando centralizador no clube, em que cuidava da venda do melhor jogador ao prego da arquibancada, segundo funcionários. Verdade que, nos últimos tempos, vinha delegando tarefas aos filhos, embora mantivesse rédea sobre o clube, onde chegou ainda na década de 60.

Desde 1989, quando virou vice de Futebol, Eurico Miranda levou o Vasco a três títulos Brasileiros, uma Libertadores, cinco Estaduais e uma Mercosul.

O Vasco consolidou-se como segunda torcida do Estado, atrás do Flamengo, rivalidade enfatizada por Eurico. "Eurico nos fez ter orgulho de ser vascaíno", contou o ainda vice-Jurídico do clube, Paulo Reis, que o acompanhou por 20 anos.

As campanhas no gramado levaram a torcida a elegê-lo duas vezes deputado federal, em 1994 e 1998. E atraiu o Bank of America para parceria com o Vasco, no final da década.

No auge, Eurico enfrentou até o então governador Anthony Garotinho quando caiu o alambrado do estádio de São Januário, na final do Brasileiro, entre Vasco e São Caetano. O cartola tentava reiniciar o jogo, com mais de uma centena de feridos, vários em campo.

Simultaneamente, as CPIs do Congresso se desenrolavam em Brasília. O relatório final da comissão do Senado mostrou que US$ 11 milhões da parceria com o banco americano foram depositados num paraíso fiscal.

O documento indicava que o clube, por meio de laranjas, pagou contas pessoais do dirigentes, incluindo de sua família, além de relatar seu enriquecimento no período.

Foi pedida a cassação de seu mandato, mas ele só saiu por não se reeleger, em 2000.

O final da parceria e o alto investimento no esporte, futebol e amador, pesaram sobre as finanças. Choveram ações trabalhistas e fiscais.

A chapa de Dinamite avalia entre R$ 250 milhões e R$ 300 milhões a dívida atual do clube. Aliados de Eurico negam e alegam que a maioria dos débitos estão negociados.

"Ele fez coisas positivas e negativas no clube. Vamos desenvolver as positivas e apagar as negativas", analisa Dinamite.

Craque-símbolo da era Eurico, Edmundo tem trajetória que retrata o estado do clube. Já brigou duas vezes judicialmente. Voltou a São Januário após um acordo. E tornou-se credor de R$ 7 milhões, que recebe por cotas de TV.

"[Eurico] Pode inibir ou assustar o interlocutor. Depende como se dirige a ele", contou o advogado de Edmundo, Luiz Roberto Leven Siano, que já acionou e foi acionado por ele.

Quem é próximo de Eurico, e boa parte dos que trabalharam com o cartola, diz que ele cumpre a palavra e até dá espaço ao interlocutor. Mas só para reafirmar sua posição depois.

E costumava falar sobre futebol com os técnicos do Vasco. "Gosta de discutir tática. Diz que fulano e beltrano podiam ter feito de tal forma. Mas é em bate-papo informal, sem interferência", disse o ex-técnico do Vasco, Alfredo Sampaio.

Só que Eurico interferiu, sim, quando Romário era treinador. Quis impor uma escalação e o ex-jogador se retirou do clube.

Foi uma decisão em fase de derrotas. Como presidente, Eurico só ganhou um Estadual. O Vasco está há cinco anos na fila.

Época em que o cartola já vinha delegando poderes e até se afastado por períodos. Agora, sai às 20h de hoje. Até lá, Eurico mostra apego ao cargo.

"Não sei se saio às 20h ou 20h30. Só sei que sou presidente do Vasco até terça."

 

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