Scolari diz que objetivo é criar "família" no Chelsea
PEDRO DIAS LEITE
da Folha de S.Paulo, na Inglaterra
A aparência era bem diferente da que os brasileiros estão acostumados, mas a filosofia continua a mesma. De terno e falando em inglês, o técnico Luiz Felipe Scolari disse que seu objetivo é criar uma "família" no Chelsea e avisou logo em sua chegada que prefere ganhar a jogar bonito.
O inglês de Scolari não é bom, com muitos erros de concordância e de tempo verbal, mas o brasileiro se fez entender e conquistou os jornalistas britânicos, que elogiaram seu desempenho. O técnico teve de recorrer apenas três vezes à tradutora, em perguntas que não compreendeu direito.
Só engasgou quando falou "adversities" (adversidades) e pediu desculpas: "Algumas palavras são difíceis para mim".
"Minha única pressão até agora é falar inglês, em um ou dois meses espero falar melhor", disse o técnico, que não está tendo aulas de inglês. "Não tive tempo ainda. Não sei nem onde vou morar, estou chegando ao Chelsea de manhã e saindo à noite, me deram 20 livros contando tudo sobre o clube."
Scolari já conversou com as principais estrelas do time, como Frank Lampard e John Terry, e disse ter se dado bem com os dois. "Quando tu olha olho no olho do atleta, da pessoa, bota o braço e tem amizade, tu se comunica [sic]. Às vezes, o futebol não é tanto falar a língua, mas aquilo que a gente passa do coração", disse, em português --Scolari respondeu em português a perguntas de brasileiros e portugueses.
O técnico disse que não pretende mudar seu estilo, mas admitiu que terá de se adaptar a algumas novidades, como o uso de tecnologia. "Vou usar tudo o que o clube me oferece", afirmou o gaúcho.
Fora isso, a ideologia é a mesma que o brasileiro impôs por onde passou. "Eu respeito meus jogadores, gosto deles como de uma família, dou tudo o que eles precisarem. E quero respeito e dedicação, que eles sejam felizes, nos treinos e nos jogos", disse Scolari, que terá em seu elenco jogadores problemáticos, como Drogba.
"Família Scolari" fora de campo, estilo Scolari dentro. O objetivo, disse o técnico, é ganhar, não jogar bonito.
"Se for possível, vamos jogar um futebol lindo. Mas, algumas vezes, se você precisar ganhar, tem de escolher o caminho. Claro que queria os dois, mas algumas vezes é impossível. Eu quero chegar [à final]."
"Chegar", aliás, em todos os campeonatos. O brasileiro disse que a prioridade são todos os campeonatos, da liga inglesa à Copa dos Campeões --em ambos, o Chelsea perdeu para o Manchester United de Cristiano Ronaldo, Tevez e Rooney.
O técnico --que não foi chamado de "Big Phil" nenhuma vez, apenas de Scolari-- classificou o Chelsea como desafio, mas disse que a situação é mais fácil do que quando assumiu o Brasil antes da Copa de 2002.
Também afirmou que não vê problemas por estar afastado de clubes há tanto tempo e definiu como "especulações" os rumores sobre contratações, como a de Kaká, do Milan.
O técnico foi ponderado o tempo todo e evitou atritos. Na hora de responder quem tem a palavra final sobre as contratações, ele ou o dono do clube, disse: "Na parte técnica, sou eu. Na financeira, não sou eu".
Se depender do técnico, nas próximas semanas mais um ponto conhecido do seu estilo vai voltar a aparecer, seus agasalhos. "Se precisar colocar terno e gravata, eu coloco. Do contrário, não coloco."
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