Muro esconde parte pobre de Pequim que a China não conseguiu "varrer"
ADALBERTO LEISTER FILHO
EDUARDO OHATA
da Folha de S.Paulo, em Pequim (China)
Um dos aspectos que mais chamam a atenção em Pequim é a bela paisagem de avenidas largas com cartazes coloridos dos Jogos e o trabalho incansável de paisagismo em todas as vias do circuito olímpico.
O trabalho de embelezamento escancara uma transformação radical onde antes havia casas antigas e minúsculas, algo que poderíamos comparar aos cortiços brasileiros.
Em alguns locais, no entanto, não foi possível finalizar a "operação belezura" chinesa.
No número 93 da South Tianqiao Road, um muro, construído há cerca de dez dias, impede a visão de decadentes lojas populares.
Lá fora, pinturas relativas aos Jogos. Dentro, as pessoas se identificam só pelo sobrenome, evitam criticar a atitude do governo, mas contabilizam os prejuízos. "Esse muro fez reduzir nosso movimento em dois terços", diz Wang, vendedora de uma loja de roupas.
A "segunda muralha da China" foi erguida em tempo recorde de três horas. "Certo dia apareceram os operários e fizeram o serviço", afirma Song, dono de um bar no local.
A pujante avenida, com cinco vias de cada lado, foi erguida nos últimos anos, graças à demolição de casas e o envio dos moradores para conjuntos habitacionais distantes.
O trecho do muro fica próximo à praça Tiananmen, orgulho do povo chinês e local dos famosos protestos estudantis em 1989. A via será exaustivamente transmitida por TVs do mundo todo. Por lá irá passar a maratona e a prova de ciclismo de estrada da Olimpíada.
E, pela avenida não é difícil encontrar outros trechos em que a pobreza é escondida. A duas quadras dali, atravessando a rua, tapumes gigantes e um muro cinza de mais de três metros encobrem moradias minúsculas e paupérrimas.
Da rua atrás do tapume dá para ver o interior das casas, de um cômodo, que serve de quarto, sala e cozinha. Os banheiros são externos e coletivos. Pequeno comércio popular também funciona no local.
Do lado de lá, atrás do muro, há entulho por toda a parte, mas o serviço não foi completado: várias casas estão de pé.
"Não deu tempo de fazer antes da Olimpíada. Vão nos enviar para outro local. Tenho certeza de que será melhor", diz Li, uma das últimas remanescentes daquele trecho.
"Os Jogos trouxeram perspectivas melhores. Quero falar bem deles. Tenho vergonha de mostrar coisas feias. Daqui a dois anos isso aqui vai estar bonito", afirma ela, que preferiu não ser fotografada.
Calcula-se que, por conta das demolições realizadas durante a preparação olímpica, cerca de 300 mil pequineses tiveram que deixar suas casas.
"A renovação urbana teve início muito antes de Pequim ganhar o direito de sediar a Olimpíada [em 2001]. O programa beneficiou muito os moradores", afirmou o Bocog (comitê organizador dos Jogos) à reportagem. "As estatísticas indicam que, de 1991 a 2003, quase 550.000 casas, envolvendo 1,5 milhão de moradores foram realocados para locais melhores", acrescentou o comitê.
Leia mais
Livraria da Folha
- Guia com mapas desdobráveis desvenda Pequim
- Guia ilustrado traz todas as informações sobre a China
- Boicotes, doping, recordes e heróis: livro traz o melhor e o pior dos Jogos Olímpicos
Especial

