China acusa EUA de tentar sabotar Jogos Olímpicos
ADALBERTO LEISTER FILHO
EDUARDO OHATA
da Folha de S.Paulo, em Pequim (China)
A Guerra Fria esportiva entre China e EUA ganhou força ontem, na esteira da polêmica da censura a sites no centro de mídia dos Jogos de Pequim.
Depois de o presidente dos EUA, George W. Bush, receber na terça-feira um grupo de dissidentes chineses, e de o Congresso americano aprovar resolução cobrando respeito aos direitos humanos no país-sede da Olimpíada, o Bocog (comitê organizador) reagiu de imediato.
Sun Weide, porta-voz da entidade, acusou os EUA de tentarem politizar o evento. "Somos contra qualquer tentativa de politizar os Jogos. Essas iniciativas expõem intenção maligna de sabotar a Olimpíada. É uma blasfêmia contra o espírito olímpico e vai contra a vontade de pessoas do mundo todo, incluindo nos EUA", atacou Sun.
O ministro chinês do Exterior, Liu Jianchao, também reagiu à resolução do Congresso. Pequim contatou Washington para que seja engavetada.
Jianchao crê que o encontro entre Bush e exilados produziu uma "mensagem errada às forças anti-China". "Os EUA interferiram de forma rude em nossos assuntos internos."
Bush confirmou que irá à abertura dos Jogos na próxima sexta, mas disse que sua missão é "esportiva, não política".
Outro foco de tensão, a censura a sites "sensíveis" ao regime chinês, foi abordada diretamente pela organização.
O Bocog alegou que alguns sites não podem ser acessados por ferir a legislação local. Por esta lógica, são os jornalistas, e não o governo, que estariam cometendo irregularidades.
"Espero que a mídia respeite as leis chinesas. A razão de alguns sites não poderem ser acessados é que eles fazem algo ilegal", afirmou Sun.
"A internet é regulada na China por uma legislação, da mesma maneira que acontece em outras partes do mundo."
Para isso, o país tem até com um centro de delação de uso ilegal de internet. Segundo as autoridades, poucos endereços eletrônicos, cujos conteúdos incluam pornografia ou terrorismo, são proibidos.
"Um exemplo são os sites com informações sobre [o movimento espiritual banido do país] Falun Gong com iniciativa em detrimento dos interesses da China", defende Sun, acrescentando ter o Bocog preparado "acesso total à internet aos jornalistas na Olimpíada".
Nesta semana, dezenas de repórteres que tentaram, no centro de imprensa, acessar sites que trouxessem informações sobre o Tibete ou ONGs como a Anistia Internacional viram seus laptops travarem.
Previamente, tanto Bocog como Comitê Olímpico Internacional haviam afirmado que o trabalho dos jornalistas não seria prejudicado por censura.
Após admitir que houve acordo entre COI e China para bloquear alguns sites, o chefe de imprensa do COI, Kevan Gosper alterou o tom do discurso. Agora, critica de maneira contundente a combinação.
"Está claro que vim divulgando informações falsas em nome do COI", esbravejou ele, que ontem ressaltou que não fora informado do acerto mesmo ocupando posto no Comitê de Coordenação da Olimpíada.
"Se a mídia tivesse sido informada com antecedência de que alguns sites não poderiam ser acessados, não estaríamos nesta posição, na qual eu e a mídia fomos pegos de surpresa."
Apesar da da irritação do dirigente, COI e Bocog parecem concordar em abafar o caso. No site de ambos, não há menção sobre o assunto.
Leia mais
- China critica Bush e mantém censura à internet durante Olimpíada
- Equipe de saltos ornamentais do Brasil desembarca em Pequim
Livraria da Folha
- Boicotes, doping, recordes e heróis: livro traz o melhor e o pior dos Jogos Olímpicos
- Guia com mapas desdobráveis desvenda Pequim
- "Guia dos Curiosos" traz informações sobre tênis, atletismo, futebol e muitos outros esportes
Especial

