Atentado revive medo de terror durante os Jogos-2008
FÁBIO SEIXAS
da Folha de S.Paulo, em Pequim
Dois homens mataram ontem 16 policiais em um ataque na região de Xinjiang, noroeste da China, e reacenderam o temor de terrorismo nos Jogos.
O governo chinês atribuiu o atentado ao Movimento Islâmico do Turquestão Oriental, que é separatista e tem maioria de origem turca. Mas nenhum grupo assumiu o ataque.
Segundo a agência de notícias chinesa Xinhua, o atentado ocorreu na cidade de Kashgar, às 8h locais, 21h de ontem em Brasília. Dois homens jogaram o caminhão contra policiais que faziam exercícios. Atropelaram alguns, jogaram bombas caseiras e atacaram com facas os soldados. Além das mortes, feriram outros 16.
Dois homens foram presos. Pequim afirmou que o grupo, formado por uigures (que têm origem turca), ameaça usar a Olimpíada como alvo. Islâmicos, eles protestam contra suposta repressão do governo chinês à sua cultura e à sua religião, que incentiva a ocupação da região por chineses da maioria hen, como ocorre no Tibet.
Estimativas apontam entre 15 milhões e 20 milhões de islâmicos na China. Quase a metade deles vive em Xianjing.
O atentado ocorreu no dia da inauguração da reunião da cúpula do COI, em Pequim. Dirigentes evitaram o tema.
Em seu discurso de abertura, Jacques Rogge, presidente do COI, falou em "desafios" enfrentados pela China, mas não foi mais específico. Poucos membros da entidade falaram.
"As ameaças fora de Pequim parecem maiores do que aqui. De qualquer forma, mesmo em Munique, os Jogos não foram cancelados. Isso é o que os terroristas querem, e não podemos atendê-los", afirmou Dick Pound, ex-vice-presidente do COI, referindo-se ao ataque palestino que matou 11 atletas israelenses em 1972.
O COB declarou que as delegações do país continuarão a agir normalmente em Pequim, seguindo as recomendações do comitê organizador e do COI.
Coincidentemente, no instante em que a polícia de Kashgar avaliava os estragos do atentado, a 4.000 km dali o comitê dos Jogos realizava uma entrevista coletiva em Pequim, para anunciar números do esquema de segurança.
O exército disponibilizou 34 mil homens, 74 aviões, 47 helicópteros e 33 navios para atuar na Olimpíada. Outros 250 mil policiais trabalharão nas ruas, pontos de ônibus e estações do metrô. Muitos dele, à paisana.
Haverá ainda monitoramento 24 horas por câmeras em Pequim e em outras 600 das maiores cidades do país.
Não é a primeira vez que Pequim relaciona os separatistas de Xinjiang a ameaças aos Jogos, o que pode ser fato concreto, mas que também é visto pela comunidade turca como uma nova forma de justificar a repressão na região.
Há um mês, a polícia chinesa prendeu 82 pessoas na província, alegando serem potenciais sabotadores dos Jogos.
De janeiro a junho, houve outras 66 detenções de membros de grupos "relacionados ao terrorismo, separatismo e extremismo", segundo o governo.
O departamento de Estado dos EUA diz que o movimento do Turquestão tem ligação com a Al-Qaeda. Mas fórum da rede de terrorista apontou que a China não é prioridade para seus ataques no momento.
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