Esporte
30/10/2008 - 08h01

Estresse marcou título de 1988 de Senna, diz biógrafo

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MARCELO FREIRE
Colaboração para a Folha Online

De um lado, a pressão de estar pela primeira vez em uma equipe com condições de chegar ao título, enfrentando um rival dentro do próprio time já com dois Mundiais no currículo. De outro, a cobrança pessoal por desempenho perfeito na busca frenética por vitórias. Para completar, problemas de relacionamento com o então maior vencedor brasileiro da história da F-1.

Neste cenário, Ayrton Senna viveu em 1988 o ano mais estressante de sua vida, segundo afirmou o jornalista Ernesto Rodrigues, autor do livro "Ayrton, O Herói Revelado" (Editora Objetiva), em entrevista à Folha Online. Mas fechou o Mundial com o primeiro de seus três títulos na principal categoria do automobilismo, feito que completa exatos 20 anos nesta quinta-feira (30).

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Fora das pistas, Senna também enfrentou problemas com o rival Nelson Piquet em 88
Fora das pistas, Senna também enfrentou problemas com o rival Nelson Piquet em 88

Para Rodrigues, os problemas de Senna com Nelson Piquet, que chegou a insinuar que o piloto da McLaren era homossexual, em janeiro de 1988, causaram grande dor emocional ao piloto.

"Naquele ano, ele talvez tenha enfrentado a situação de maior estresse da vida dele, tanto no aspecto profissional quanto no pessoal", disse Ernesto Rodrigues, que trabalhava na direção do programa "Globo Repórter", da TV Globo, à época.

"Naquele ano, ele talvez tenha enfrentado a situação de maior estresse da vida dele"

Somado a isso, Senna teve que superar um rival duríssimo dentro da própria McLaren. O francês Alain Prost, que então tinha dois títulos mundiais, foi o principal adversário do piloto na temporada e disputou o Mundial com o brasileiro palmo a palmo até a penúltima corrida, no Japão, no dia 30 de outubro. Senna venceu, com Prost em segundo, e garantiu o título.

"Ele [Senna] enfrentou uma tensão absoluta e um dos maiores pilotos de todos os tempos. Enfrentou também uma equipe que tinha disputa interna e o lobby que, de certa maneira, o Prost tinha na imprensa européia, que contribuiu muito para aumentar o nervosismo e o estresse de Ayrton."

"Ao mesmo tempo, ele teve pela primeira vez um carro perfeito. Foi o maior desafio da vida dele, quando se impôs finalmente como um piloto capaz de ser campeão", afirmou o biógrafo.

Briga com Piquet

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Senna no cockpit da McLaren durante os testes da equipe em Jacarepaguá, em 88
Senna no cockpit da McLaren durante os testes da equipe em Jacarepaguá, em 88

Fora das pistas, o piloto também viveu situações tensas em 1988. A rusga entre Senna e Piquet começou quando Ayrton disse a um repórter do "Jornal do Brasil" que havia "sumido da imprensa", no início daquele ano, para que Piquet, então tricampeão da F-1, "pudesse aparecer um pouco".

O piloto carioca respondeu, em entrevista ao mesmo jornal, que Senna, na verdade, havia "desaparecido para não ter que explicar à imprensa brasileira por que não gosta de mulher".

Segundo Rodrigues, Piquet vazou desta forma para a imprensa brincadeiras e boatos que existiam no paddock da F-1. Quando soube das declarações de Piquet, o piloto da McLaren decidiu processá-lo. Depois, desistiu. "Foi o episódio que mais causou sofrimento a ele [Senna] em toda sua vida", contou o biógrafo.

Apesar da confusão, o episódio não prejudicou Senna nas pistas, segundo Rodrigues. "O Ayrton tinha uma capacidade de concentração que assombrava todo mundo. Não acredito que a atitude dele na pista tenha sido influenciada por isso."

Imagem

Para o jornalista, a briga particular "confirmou um pouco o estilo de vida dos dois pilotos". "O fato de o Nelson ter soltado essa boataria do Ayrton não alterou muito a trajetória dos dois, tanto do Nelson, como um 'bad boy' da F-1, quanto do Ayrton, como um 'santo politicamente correto' da F-1", afirmou.

"Ele [Piquet] nunca fez questão nenhuma de manter uma boa imagem, sempre falou o que vinha na telha. O Nelson sempre foi um cara muito irreverente. E, junto com a irreverência, muitas vezes teve muita sacanagem, no sentido de fazer declarações irresponsáveis, ofensivas", disse.

"Por outro lado, o Senna foi um cara que sempre levou sua carreira de forma religiosa, meticulosa. Se preparou fisicamente, espiritualmente e comercialmente, e incluiu nessa preparação a questão de construir uma imagem boa com a imprensa", analisou.

Para Rodrigues, no entanto, não se tratou de um caso de "fabricação de imagem". "Era uma preocupação genuína que ele tinha de ter um bom comportamento, preocupado com os problemas do país. Se isso era autêntico ou não, cada um achasse o que quisesse, mas era uma atitude constante do Ayrton", afirmou o jornalista.

 

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