Esporte
03/07/2009 - 07h30

Ícone do tênis, Maria Esther festeja 50 anos de 1º título em Wimbledon

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RAFAEL REIS
da Folha Online

Enquanto as irmãs norte-americanas Venus e Serena Williams estiverem disputando a final da edição 2009 de Wimbledon, neste sábado, o All England Club, sede do Grand Slam jogado em Londres, estará comemorando o jubileu de ouro do "surgimento" de uma de suas grandes estrelas, a brasileira Maria Esther Bueno.

Veja galeria de imagens da carreira de Maria Esther Bueno

Há exatos 50 anos, no dia 4 de julho de 1959, a paulistana derrotou a norte-americana Darlene Hard na lendária quadra e conquistou pela primeira vez a chave de simples do mais charmoso torneio do circuito mundial de tênis. No ano anterior, já havia vencido o torneio de duplas.

Os 43 minutos daquela partida, vencida por 2 sets a 0, deram a Maria Esther um título que recebeu da imprensa brasileira da época status de "campeonato mundial". O troféu abriu o caminho para uma trajetória que fez dela uma das atletas mais importantes de sua geração, levando-a a integrar o hall da fama do tênis internacional.

Em mais de 20 anos de carreira, Maria Esther conquistou, segundo ela própria, 589 títulos. Só em Wimbledon, foram oito --três de simples e cinco de duplas. Levantou ainda mais 11 troféus de Grand Slam.

A três meses do seu 70º aniversário, Maria Esther falou sobre a conquista de 50 anos atrás e relembrou sua carreira em entrevista à Folha Online. As respostas foram escritas à mão pela tenista e enviadas via fax.

Confira a íntegra da entrevista

Folha Online - O que representou para a senhora a primeira conquista de simples em Wimbledon, já que até aquele momento nenhum tenista brasileiro havia obtido um título tão importante?
Maria Esther Bueno - Representou tudo, coroação e satisfação por ter conseguido o topo de tudo que se pode desejar dentro do esporte. Ser a melhor do mundo, ter vencido o mais importante torneio de tênis e ter colocado o nome do Brasil no mapa.

Reprodução
Maria Esther Bueno ajoelha em quadra e chora; brasileira tem 19 títulos de Grand Slams
Maria Esther Bueno ajoelha em quadra e chora; brasileira tem 19 títulos de Grand Slams

Folha - O que mudou na sua carreira após essa primeira conquista em Wimbledon?
Maria Esther - Como tenista, praticamente nada, pois segui jogando e seguindo todos os meus roteiros de treino. Fui muito mais solicitada em compromissos extraquadra, principalmente aqui no Brasil por ser a única esportista na época a ter tanto prestígio internacional.

Folha - Como foram seus jogos em Wimbledon? Qual foi o momento mais difícil da campanha?
Maria Esther - Quando se entra em um torneio tão importante e difícil, todos os jogos são encarados da mesma maneira, com muita seriedade. Não existe jogo fácil e não se ganha por antecipação.

Folha - Como foi a repercussão do seu título, já que naquela época o Brasil era campeão mundial de futebol e basquete, esportes muito mais populares no país que o tênis?
Maria Esther - A repercussão foi enorme, porque foi uma conquista individual em um esporte praticamente sem esperanças de se ter notoriedade. Também por eu ser uma pessoa tão jovem, vinda de um lugar onde nem sequer existiam quadras de grama [superfície de Wimbledon] e com tão pouco apoio e facilidades para a prática do esporte.

Reprodução
Maria Esther é a tenista brasileira mais vitoriosa da história
Maria Esther é a atleta brasileira mais vitoriosa da história do tênis

Folha - Há 50 anos, a senhora já corria o mundo atrás de torneios de tênis, em uma postura pouco comum devido ao machismo então vigente. Houve muito preconceito por ser uma mulher à frente do seu tempo?
Maria Esther - De maneira nenhuma houve qualquer tipo de preconceito. Muito pelo contrário. Houve muita admiração e respeito por uma pessoa jovem, sozinha, que conseguiu vencer todas as dificuldades e conquistar o mundo.

Folha - Como é a sua rotina atual e o quanto a senhora ainda permanece ligada ao mundo do tênis?
Maria Esther - Mantenho excelente forma física, ainda jogo tênis várias vezes por semana, faço clínicas, dou palestras e estou sempre atualizada com o esporte. Faço comentários de jogos para rádio e televisão e sou sempre convidada para estar nos principais torneios mundiais. Também é uma constante para mim ser homenageada em praticamente todas as cidades por onde estive durante minha carreira.

Folha - Seu nome é o mais vitorioso da história do tênis no Brasil, mas acabou sendo ofuscado pelo do Guga para as gerações mais novas. A senhora sente um pouco de falta de reconhecimento pelo que fez?
Maria Esther - Meu nome é realmente o mais vitorioso no Brasil e também na América Latina. São 589 títulos e 19 Grand Slams. Não se pode nem de longe comparar a mídia que existe nos tempos atuais com a de 50 anos atrás. Televisão, rádio, internet. Hoje existem muitas maneiras de se promover. Meu nome está na história para sempre. Talvez haja uma falta em não se dar valor ao que foi feito, tentar passar para os mais jovens um pouco mais da história do esporte. O tênis não começou agora, muito foi feito antes para dar aos tenistas atuais as chances que eles têm agora.

Folha - Na sua opinião, o que poderia ter sido feito para alavancar o tênis brasileiro na era Guga, o que acabou não acontecendo?
Maria Esther - Talento é uma coisa rara, e o esporte individual depende de muito comprometimento e sacrifício. Programas para desenvolvimento de atletas existem muitos, mas o surgimento de grandes campeões é um problema em todos os cantos do mundo, independentemente de ajuda e dinheiro.

Folha - Como era o tênis na sua época como atleta? O estilo e jogo era muito diferente do atual?
Maria Esther - O tênis era muito bonito de se ver, com muita técnica e habilidade. Ao contrário do que se pensa, ele exigia um excelente preparo físico e mental, porque não contávamos com toda a estrutura e as facilidades de hoje.

Folha - Qual sua opinião sobre o tênis atual? Ele ainda te atrai ou o excesso de força e velocidade dos jogadores reduziu a importância da técnica?
Maria Esther - O tênis atual é muito mais baseado na força e na parte física. Praticamente todos jogam da mesma maneira, sem grande criatividade. Vence quem bate mais forte e erra menos, com raras exceções. Existem ainda alguns que usam um pouco mais de sutileza.

Folha - E quem são essas exceções, os jogadores que mais te agradam no momento?
Maria Esther - Nadal, Federer e Murray são exemplos. Cada um dele possui características diferentes. Mas todos são bons de se ver pela facilidade, pela movimentação e pelo desejo de melhorar sempre.

Folha - Qual sua opinião sobre o tênis feminino atual, em que jogadoras como Maria Sharapova e Ana Ivanovic, consideradas musas do esporte, dividem o tempo entre treinos, torneios e atuações como modelos em campanhas publicitárias?
Maria Esther - O tênis feminino atual não passa por um bom momento. Nenhuma das tenistas melhores ranqueadas consegue manter a posição, consolidar uma supremacia. As chamadas musas do esporte não são obrigadas a dividir o tempo entre o esporte e as campanhas publicitárias. Elas fazem isso porque querem aproveitar o máximo possível as propostas milionárias que recebem a todo momento. É muito difícil saber lidar com o sucesso, seja lá de que maneira ele for. Mas a escolha é livre.

 

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