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Coordenadora do Enem tira as dúvidas sobre o exame ANDRIELLY ANDRADE da Folha Online Em entrevista à Folha Online, Maria Inês Fini, coordenadora do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio), falou sobre o objetivo do exame. Ela acredita que a prova não vai substituir o vestibular nos casos em que ele é muito concorrido, como na USP. Maria Inês afirma que não há como treinar um estudante para o exame e questionou os cursos preparatórios. Segundo ela, tudo o que o aluno precisa, a escola fornece. Ela criticou também o posicionamento da Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas). Folha Online - Você acha que o Enem pode substituir o vestibular ou ele vai ser sempre complementar? Maria Inês - Depende da universidade. Se ela tiver muitas vagas e muitos alunos interessados, um número muito aproximado entre a oferta e a demanda, ele pode substituir. Quando o processo seletivo é muito disputado, o Enem sozinho não dá conta. É o caso da USP (Universidade de São Paulo), por exemplo, que precisa de um exame que faça uma diferenciação muito grande de candidatos que estejam no mesmo patamar de desempenho. O Enem só pode fazer uma classificação geral: mínima, média ou máxima dos candidatos. Folha Online - Por que grandes universidades federais e estaduais, como a UnB (Universidade de Brasília), ainda não aderiram ao Enem ? Maria Inês - Porque a universidade é autônoma, é ela que decide quando quer. Eu acho que as universidades estão estudando a proposta do Enem detalhadamente e fazendo discussões internas para decidirem o uso do exame. Folha Online - Qual seria o perfil ideal do aluno para o Enem? Maria Inês - É o aluno que mostra que tem as estruturas necessárias ou para ingressar no mercado de trabalho ou para prosseguir nos exames em qualquer modalidade posterior ao ensino médio. Ele tem aquilo que é considerado básico para a cidadania. Folha Online - Como funciona a matriz de competências que estrutura o Enem? Maria Inês - Na matriz estão as cinco competências avaliadas no exame. Elas se especificam em 21 habilidades. É isso o que orienta a elaboração das questões da prova e determina a nota da parte objetiva da prova e da redação. Cada habilidade é avaliada três vezes, ou seja, existem três questões para a habilidade 1, três questões para a habilidade 2, até que as 21 habilidades sejam avaliadas nas 63 questões. Folha Online - O currículo das escolas públicas está preparado para atender a essas habilidades? Maria Inês - Não existe currículo. O que existe é um trabalho que favorece o desenvolvimento das competências e essa é a nova noção de conhecimento que está presente no texto da Reforma do Ensino Médio divulgado há dois anos pelo Ministério da Educação. É uma nova concepção de conhecimento, a respeito do desenvolvimento das habilidades e não a respeito do desenvolvimento da memória, por exemplo. Você trabalha o mesmo conhecimento que nós desenvolvemos no passado de uma maneira diferente, com um aluno mais ativo, um conhecimento mais vivo ligado a resolução de problemas do cotidiano, mais contextualizado. São onze anos de escola analisados durante o exame. É um novo ensino porque ele é tratado de uma maneira diferente, é essa a concepção nova do conhecimento. Em vez de querermos apenas a memória ou uma resposta pronta para uma situação prevista, queremos que os alunos mostrem que eles têm as alterações mentais para trabalhar com qualquer situação e não apenas aquelas treinadas e previstas. Folha Online - Sendo uma avaliação multidisciplinar que exige o raciocínio, o Enem não está avaliando o mérito pessoal do aluno? Maria Inês - De maneira nenhuma. Não tem mérito pessoal, nós estamos avaliando se o aluno desenvolveu essas competências e habilidades. Estamos avaliando se ele construiu esse conhecimento. Isso envolve não só a retenção da informação, queremos uma análise, síntese, discussão, crítica, escolha. Isso é que é competência. São estas operações usadas para lidar com mesmo conteúdo do passado. A concepção desse novo conhecimento é de não dar tudo pronto para o aluno, mas pedir para ele interagir com as idéias e suas possibilidades de uso. Folha Online - Então, é isso o que o exame quer avaliar? Maria Inês - Isso, o exame quer analisar se o aluno aprendeu este conjunto competências e habilidades que usam o mesmo conteúdo da escola do passado só que de uma maneira bastante diferenciada. Inseridos em situação problema, em situações que são contextualizadas, que pressupõem o conteúdo de forma interdisciplinar. Por isso as questões de matemática, história, geografia etc aparecem de maneira integrada. Folha Online - A Ubes é contra o exame por acreditar que ele não avalia a dinâmica do currículo e sim o estudante individualmente. O que você acha deste posicionamento? Maria Inês - Mas o que é a dinâmica do currículo se ela não é capaz de se expressar nos alunos individualmente? Isso é muito confuso. Eles (a Ubes) estão treinando para falar uma bobagem dessa! Eu acho que essa história do currículo do papel não existe, a dinâmica do currículo é o aprendizado do aluno. Folha Online - O MEC (Ministério da Educação) está ranqueando as escolas para depois classificá-las como centros de excelência? Maria Inês - De jeito nenhum. Como o exame é voluntário, não podemos garantir que um número significativo e estatisticamente necessário de uma determinada escola, seja ela pública ou particular, participou do exame. Então qualquer comparação seria leviana. Suponhamos, o estado de São Paulo tem 400 mil alunos no ensino médio, se só 100 mil fazem o Enem, como é que nós vamos saber de onde eles são? Folha Online - Existe a possibilidade do MEC isentar todos os alunos da taxa de inscrição? Maria Inês - Eu não vejo essa possibilidade. O que está previsto e que o ministro (Paulo Renato de Souza) já anunciou é que no ano que vem haverá um período especial de inscrição para aqueles alunos que vão requerer o estado de carência para serem isentos da taxa de inscrição. Folha Online - O exame pode vir a ser obrigatório? Maria Inês - Acho que não, porque na maneira que ele foi concebido e nas determinações que recebemos do ministro é que a voluntariedade do Enem faz parte de um conjunto de aspectos da avaliação. Folha Online - A Folha Online conversou com a diretora do cursinho Inteligente, que possui um preparatório para o Enem. Segundo ela, o curso não vai contra os preceitos do exame. O que você acha disso? Maria Inês - Vai contra sim. Porque nós estamos partindo do pressuposto de que o importante é que a nova visão do conhecimento é exatamente aquela que avalia se o cidadão está preparado para enfrentar qualquer desafio imprevisível. Não tem como treinar. Tudo que o aluno precisa, a escola regular e o ensino médio estão dando para ele. Temos esclarecido os professores de que não há necessidade de cursinho. Folha Online - O argumento da diretora do cursinho é de que ela está preparando os alunos para o Enem até mesmo com aulas de raciocínio lógico. Maria Inês - Imagina! Não existe aula de raciocínio lógico. A estrutura do pensamento humano se prepara desde o ensino fundamental, lá na primeira série. Não tem treino não há necessidade deste tipo de preparação. Se os alunos quiserem se ambientar, saber como é a prova, ela adquire de graça no site do Enem . Folha Online - Mas e para aqueles que não têm acesso à Internet, vocês prepararam alguma cartilha? Maria Inês - Os alunos receberam um folder antes da inscrição, que inclusive tem um encarte destacável com um índice destacável com as universidades que aceitam o Enem. Como na época de impressão do material eram 94, agora ele já está ultrapassado (atualmente 128 universidades adotam o exame), mas pode ser substituído por um encarte novo. |