26/03/2003
-
18h31
Grupo Parlapatões mostra espetáculo com a cara do Brasil
BETO LANZA da Folha de S. Paulo, em Curitiba
O espetáculo "As Nuvens e/ou um Deus Chamado Dinheiro", dos Parlapatões, está situado num tempo e espaço não-cronológico, em que o teatro é, de fato, uma ação radical, que vai até o fundo do que propõe. O "show" da trupe paulistana desta vez não veio revestido da máscara italiana. Para nossa alegria e profunda coerência com o que sucede em nosso tempo, veio com a cara do Brasil, com direito, inclusive, a maquiagem da autocrítica. A peça apresentada na noite de terça-feira (25/3) no palco do Guairinha dentro da Mostra Contemporânea do 12º Festival de Teatro de Curitiba, surpreende de cara pelas escolhas feitas pelo grupo na composição dos elementos visuais e sonoros do espetáculo.
O que se vê nesta peça é um ambiente duro, urbano, um misto de sala de negócios e auditório de programa de TV. O que sucede a partir daí é decorrente desse mote: postura radical, linguagem pesada e nenhum compromisso com a hipocrisia, uma atitude rock and roll (do bom). Ponto para eles.
Os Parlapatões estão mais do que nunca patifes e paspalhões, só que neste espetáculo há uma agressividade acentuada, coerente com o que o grupo diz.
A parábola sobre a condição submissa do brasileiro é desenvolvida a partir da adaptação da obra de Aristófanes: usado aqui como fonte para o desfile das idéias políticas dos comediantes.
Os cientistas sociais chamam de "palco" o ambiente onde os "atores sociais" jogam. Nesta peça o que vemos é o contrário, os atores escancaram as mazelas que os cientistas escamoteiam em suas resenhas: "chamam de guerra o que na verdade é uma carnificina" diz, mais ou menos isso, Estrepado (Hugo Possolo) em determinado momento da peça.
O que o grupo faz não é criticar ingenuamente a postura da mídia, do poder, da publicidade, mas evidenciar o comodismo geral, a apatia em relação a algumas questões urgentes.
Enfim, o espetáculo deve ser visto, principalmente porque os Parlapatões estão, assim como o Brasil, mudando, para melhor no caso do primeiro e, queiramos, também o segundo.
|
|