09/05/2001
-
17h41
Montagem de "Abajur Lilás" no TBC é perturbadora e realista
CARLA NASCIMENTO da Folha Online
A peça"Abajur Lilás", de Plínio Marcos, foi escrita em 1969 e ficou durante vários anos engavetada, proibida pela censura do regime militar. Bebendo na fonte do realismo, a peça mostra os dramas cotidianos de três prostitutas cafetinadas por um homossexual velho e decadente. Em cena estão a miséria, a degradação física e moral dos personagens, a desesperança e a revolta.
Todos esses elementos bastariam para fazer de "Abajur Lilás" um espetáculo no mínimo impactante, mas ainda tem mais. A peça , que está em cartaz no TBC (Teatro Brasileiro de Comédia), em São Paulo, recebeu uma montagem à altura da contundência do texto de Plínio Marcos (1933-1999).
Encenada por Ester Goes, Francarlos Reis, Magali Biff, Lavínia Pannunzio e Elder Fraga, a peça tem direção de Sérgio Ferrara e retrata o cotidiano das prostitutas Leninha, Célia e Dilma, que são cafetinadas por Giro (Francarlos Reis).
Explorando a prostituta veterana Dilma (Ester Goes), o cafetão quer mais produção da mulher, que chega a fazer oito programas por noite e vê na profissão a chance de garantir um futuro melhor para seu filho. A chegada da prostituta Célia (Magali Biff) surge como a única forma de contestar o reinado do cafetão procurando convencer a colega a se rebelar contra sua exploração.
Na metade da peça entra em cena o personagem Leninha (Lavínia Pannunzio), a prostituta mais nova, convicta de que vai se dar bem com essa atividade, que conseguirá dobrar o cafetão com dissimulações e que não será envolvida nos problemas enfrentados pelas duas colegas.
Um dia Giro encontra um abajur lilás quebrado e tenta descobrir a culpada, juntamente com Osvaldo (Elder Fraga), seu "leão de chácara". Dias depois vários objetos aparecem destruídos e Giro quer achar quem lhe deu o prejuízo. Seu objetivo é "apagar" uma das três prostitutas que o desfalcou e acaba matando Célia, a mais rebelde.
A primeira metade do espetáculo mostra a degaradação física e moral dos persoangens com Giro tentando convencer Dilma a aumentar seu número de clientes. Em seguida entra em cena o questionamento e a revolta desencadeados por Célia. A chegada de Leninha, a mais nova, acena com um sopro de esperança, com a idéia de que as coisas podem melhorar.
Com esses três momentos marcados pela evidência de cada um dos personagens em cena, a peça mostra a realidade em três atos: a degradação, a revolta e a esperança. No entanto, sem negar em nenhum momento a realidade como sua fonte de inspiração e ao contrário do que narrativas simplórias costumam fazer, a peça mostra que a situação vivida pelos três personagens é um ciclo que se repete, onde a esperança tem sido apenas o começo para a queda e o que muda são apenas os nomes dos protagonistas.
A peça é direta e pertubadoramente real. Real principalmente porque mostra sem maniqueísmos personagens que não são nada mais do que seres humanos vivendo na exclusão. Perturbadora porque, não bastasse a exclusão, há a desesperança. "Meu Deus! Para onde a gente vai?" nos pergunta Dilma na última fala.
 Peça: Abajur Lilás Autor: Plínio Marcos Diretor: Sérgio Ferrara Elenco:Éster Góes, Francarlos Reis, Magali Biff, Lavínia Pannunzio e Elder Fraga Onde: Teatro Brasileiro de Comédia (rua Major Diogo, 315, São Paulo) Quando: sextas e sábados, às 21:30h e domingos às 20 h. Até 24 de junho Quanto: R$ 12 e R$ 15 Informações: 0/xx/11/3115-4622
|
|