04/09/2002
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15h20
Marcelo Coelho: As morais cruzadas de "Cidade de Deus"
MARCELO COELHO colunista da Folha
Visual publicitário. Narração de videoclipe. Espetacularização da violência. Miséria estetizada. Muitas das críticas a "Cidade de Deus", filme de Fernando Meirelles baseado no romance de Paulo Lins, foram por essa linha.
Fui ver o filme disposto a concordar com tais opiniões. De fato, logo no começo de "Cidade de Deus", há uma cena filmada de modo muito vistoso, hábil e ligeiro, bem no estilo MTV. O narrador da história está no meio da rua. Um verdadeiro exército de traficantes está com as armas apontadas contra ele. Ele se vira de costas: a polícia acaba de chegar. A tensão é extrema: tudo indica que o garoto vai morrer no fogo cruzado.
A filmagem da cena "real" se interrompe, então, para dar lugar a um malabarismo de câmera. Congela-se a imagem dos dois grupos armados, o narrador gira 360 graus, como num efeito de computador, e o truque nos indica o início de um longo flashback. Voltamos à década de 60, e o filme passa a contar a história dos primeiros bandidos naquele subúrbio carioca.
Cenas cada vez mais impressionantes de assassinato e violência se acumulam até o filme retomar, já perto do final, a cena vistosa e malabarística que despertara a minha implicância.
Nessa hora, contudo, eu já tinha me esquecido daquela implicância inicial, e, quanto às opiniões que citei acima, não concordo com elas nem um pouco.
É verdade que os inúmeros assassinatos de "Cidade de Deus" são filmados de forma espetacular, se "espetacular" significa aqui "de tirar o fôlego". Mas será que podemos dizer que, com isso, o diretor faz uma "espetacularização da violência"?
Acho que não. Por mais que as cenas do filme sejam virtuosísticas, não estão servindo para embelezar a realidade. Não apostam, acho, no "gozo estético" do espectador; tampouco exploram aquilo que seria o seu "gozo moral", como acontece nos filmes americanos, que sempre nos dão vontade de aplaudir quando o vilão é fuzilado pelo mocinho.
Não há eufemismo publicitário nem catarse simplista em "Cidade de Deus". A extrema competência técnica do diretor não recai, a meu ver, em formalismo ou exibição. Não sei se faz muito sentido o que vou dizer, mas é um teste pelo menos: saí do cinema mais impressionado pela situação que o filme retrata do que admirando abstratamente as suas qualidades cinematográficas.
Talvez por isso mesmo, aliás, "Cidade de Deus" tenda a produzir certa insatisfação no espectador; nenhum alívio, com certeza. Muitos filmes de Hollywood exploram desonestamente a violência, jogando com uma sede genérica de justiça -que os maus sejam castigados etc. Esse moralismo, em geral ultraconservador, tende a repugnar o espectador mais culto, que não se entusiasma com a pena de morte, a tortura policial e a Rota na rua.
Acho que, na ausência desse moralismo de direita, um moralismo de outro tipo pode surgir: se determinadas realidades nos chocaram em "Cidade de Deus", queremos que sejam então explicadas historicamente. Falta no filme, dizem, uma contextualização, que mostre (suponho) que a violência nas favelas surge a partir das desigualdades sociais, do sistema econômico etc.
Mas será que o espectador já não sabe disso? Quando se repete esse tipo de cobrança, talvez se esteja cobrando outra coisa no fundo. Deseja-se que o filme possua uma moral inteligível; quer-se uma história de vilões e mocinhos novamente -só que numa visão sociológica, histórica, e não conservadora como nos filmes americanos.
Um dos grandes méritos de "Cidade de Deus", na minha opinião, é que não se repete aquilo que a classe média está cansada de ouvir. Mostra-se uma realidade que desconhecemos -e que não se encaixa em generalizações morais já prontas.
São enormes as diferenças entre um assassino brutal como Zé Pequeno e, por exemplo, Bené, o traficante "gente fina", entre o violento Zé Galinha e o pacato narrador. Cada personagem é, sem dúvida, uma vítima de condições sociais absurdas, mas não se resume a isso.
Do mesmo modo, se a favela é retratada como um mundo à parte, não vejo nisso um defeito do filme. Em certa medida, a favela é realmente um mundo à parte; provavelmente, é isso o que mais incomoda em "Cidade de Deus". Critica-se no filme, talvez, o que resulta de uma incapacidade nossa, a de lidar com tudo aquilo que ele retrata.
À medida que eu ia vendo o filme, eu tentava me segurar no julgamento negativo que as cenas iniciais haviam me inspirado. Mas, quando terminou o "flashback" e surgiu novamente a cena do narrador a ponto de morrer no fogo cruzado, toda a ligeireza engraçadinha, de videoclipe, tinha desaparecido da história.
"Cidade de Deus" já apresentara situações tão graves, tão dramáticas, que tinha acabado por engolir os próprios maneirismos e habilidades da filmagem. Não é espetacularização da violência, nem maquiagem da miséria, nem estética do videoclipe, mas exatamente a superação de tudo isso.
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