27/09/2002
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03h05
"Seja o que Deus Quiser" confronta tribos e não salva ninguém
JOSÉ GERALDO COUTO Colunista da Folha de S.Paulo
No cinema de Murilo Salles, o motor da ação é quase sempre o acaso, o erro, o mal-entendido. É por essa via que se tocam, com efeitos explosivos, distintos mundos sociais e culturais.
Em "Seja o que Deus Quiser" esse caminho narrativo chega quase naturalmente à comédia, mas uma comédia crispada, em que o riso tem um travo ácido.
O roteiro cruza duas tradições díspares. Uma delas é a da "comédia-pesadelo" americana, em que, ao tentar chegar a algum lugar ou voltar para casa, um personagem se vê metido em situações absurdas. Exemplo: "Depois de Horas".
A outra tradição é a do filme social brasileiro que comprime num mesmo espaço classes e culturas opostas, caso de "O Invasor".
A partir dessas fontes, Salles fez um filme vigoroso e atual sobre o diálogo de surdos entre brasileiros de diferentes "tribos".
Da banalização dos sequestros à pornografia virtual, do hedonismo clubber à vacuidade das peruas paulistanas e ao cinismo da indústria cultural, nada escapa. Não é uma mera sátira, mas um exame cruel do "esgarçamento do tecido social", no terreno da cultura, da estética, da moral.
Já as imagens iniciais _um "travelling" com a câmera acoplada a um carro que entra na favela, quase esbarrando nos pedestres_ revelam um olhar original sobre um mundo saturado e também o efeito desse olhar sobre o cenário retratado. Ninguém é inocente.
Seja o que Deus Quiser Direção: Murilo Salles Com: Rocco Pitanga, Ludimila Rosa Onde: hoje, às 13h e 21h30 no cine Odeon BR (pça. Mahatma Gandhi, 2, centro, tel. 0/xx/21/2262-5089)
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