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29/05/2001 - 04h48

Moacyr Scliar revisita Quixote brasileiro em lançamento juvenil

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FRANCESCA ANGIOLILLO
da Folha de S.Paulo

Aos 64 anos e 55 livros, Moacyr Scliar acaba de lançar, na hispanizada Bienal do Livro do Rio, uma homenagem ao primo brasileiro do dom Quixote de Cervantes, o major Policarpo Quaresma, criado por Lima Barreto em 1911.

"Ataque do Comando P.Q." é o nome do livro que marca os 120 anos de Lima Barreto (1881-1922) e sai pela série juvenil "Descobrindo os Clássicos", da Ática, cujas histórias sempre trazem dados sobre títulos fundamentais das letras brasileiras. Antes de "Triste Fim de Policarpo Quaresma", o autor gaúcho, que é médico e colunista da Folha, fez para a série obras baseadas em "O Alienista", de Machado de Assis, e em "O Guarani", de José de Alencar.

Em "Ataque do Comando P.Q.", ele conta a história de Caco, um adolescente que, por sua intimidade com informática, é chamado pelo prefeito para desvendar as misteriosas mensagens que chegam pelas telas dos computadores invadidos da prefeitura.

A partir daí, Caco irá atrás do hacker que assina com o enigmático Comando P.Q.. Ajudado pelo professor de literatura, o garoto junta as peças sugeridas pelos ataques às iniciais do invasor e descobre que ele age sob inspiração do personagem de Lima Barreto.

Scliar lança mão dos diálogos de seus personagens para passar um resumo da trama de Lima Barreto, além de dados biográficos do autor e de como o
livro foi escrito. Mas também -e isso é o mais interessante- estruturou o andamento de seu livro segundo "Triste Fim de Policarpo Quaresma".

Pelo engenho de Scliar, os ataques aos computadores da prefeitura de Curuzu seguem "três partes bem nítidas, paralelas à fantasia" de Policarpo Quaresma.

O primeiro dos ataques vem na forma de mensagens incompreensíveis -escritas em tupi-guarani, cuja adoção como língua oficial do Brasil é defendida pelo major Quaresma, em sua xenofobia, no livro de Lima Barreto.

O segundo compõe-se de saúvas que ocupam a tela das máquinas, fazendo referência às preocupações de Policarpo Quaresma com o problema do inseto nas lavouras brasileiras.

O terceiro, mais sutil, alude ao episódio que leva o major ao seu triste fim. No romance de Lima Barreto, Policarpo Quaresma chega ao auge de seu nacionalismo (e acaba condenado à morte) por aderir à Revolta da Armada, episódio real ocorrido entre 1889 e 1894, em que segmentos da Marinha opuseram-se à permanência irregular no governo do vice-presidente Floriano Peixoto.

No livro de Scliar, o paralelo se traça com o ato final do hacker de Curuzu: a abertura das portas computadorizadas da prisão.

A narrativa é entremeada, em alguns pontos, por trechos do romance de Lima Barreto, o que ajuda a aproximar o público jovem da obra original.

Scliar diz que procura escrever para jovens como se escrevesse para adultos. "Não faço concessões, mas sigo algumas diretrizes." Por exemplo, usar "personagens jovens, que facilitem a identificação, temática atual, como os hackers deste livro, e uma narrativa mais linear, pois às vezes, para o leitor jovem, é difícil seguir flashbacks e mudanças de foco narrativo", enumera.

O autor vai contra a "crença inteiramente equivocada" de que os jovens são alienados. "A não ser que alienação seja não corresponder à expectativa dos adultos".

Scliar -que pôs o personagem Caco em contato com a obra de Lima Barreto de forma inusitada, mas por meio de um professor- elogia a iniciativa da coleção, "quase paradidática", e fala sobre o ensino de literatura nas escolas.

"Posso falar que a maneira como fui introduzido aos clássicos foi catastrófica: livros portugueses do século 17, 18, com linguagem e temática distantes", lembra. "Eu era rebelde e, volta e meia, era castigado a fazer a análise lógica e sintática de "Os Lusíadas".
Dificilmente alguém conhece e detesta [o poema épico de Camões] tanto quanto eu".

ATAQUE DO COMANDO P.Q.
De: Moacyr Scliar
Editora: Ática (tel. 0/xx/11/3346-3346; www.atica.com.br). Primeira edição. 87 págs. R$ 11,90.
 

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