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20/07/2001 - 04h19

Em crise de identidade, João Gordo faz psicanálise e toma Prozac

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ARMANDO ANTENORE
da Folha de S.Paulo

"Para mim, cara, divã é nome de nordestino. Nome de pedreiro baiano: Edivã da Silva".

João Gordo, 37, escracha, faz piada, desconversa, mas afinal responde: está, sim, frequentando o "gabinete do dr. Freud". São duas sessões de psicanálise por semana -raras vezes, deitado no "edivã". Prefere sentar-se de frente para a terapeuta.

O apresentador da MTV e vocalista da banda paulistana Ratos de Porão também visita mensalmente um psiquiatra. "Tomo uns remedinhos. Umas coisinhas. Ansiedade brava. Preciso controlar". O jeito é recorrer "às bolas". Prozac. "Prozaquinho, tá ligado?"

Ícone do punk no país, um dos precursores do movimento que nasceu há 25 anos, João se diz em crise. Nunca desfrutou de tanta popularidade. Nunca ganhou tanto dinheiro. Nunca acumulou tantos elogios na imprensa. "Minha cabeça deu um nó, mano. Eu me cobro muito".

Cobra-se por personificar uma contradição: mantém o pé esquerdo no underground e desloca o direito cada vez mais para o establishment. Não imaginava que o punk chegaria às bodas de prata e o encontraria em tamanha encruzilhada. Aliás, não imaginava nem mesmo que o encontraria. "Acreditava que morreria cedo, antes dos 30. "No future", falô? Era o lema. Vivi assim: alucinando, sem apostar no futuro. Agora o futuro me alcançou".

Fofinho
Ontem e hoje, os punks sempre empunharam bandeiras contra "o sistema". Pregaram a anarquia, questionaram as leis, subverteram costumes, fustigaram "o burguês e o playboy".

Por um lado, João continua seguindo tal cartilha. Não possui título de eleitor nem carteira de trabalho. Cultiva piercings e tatuagens. Dificilmente usa calça comprida. "Bermudão, tá ligado?"

Durante o "Gordo a Go-Go", programa de entrevistas que comanda às segundas-feiras na MTV, destila uma quantidade imensurável de palavrões e desacatos por minuto. "Supla, conta aí: você comeu a Nina Hagen? Ela te fez uma chupeta?" Ou, então, diante da socialite Narcisa Tamborindeguy: "Ueba, mulher, que peitões! Posso pegar?".

No palco, à frente do Ratos de Porão, vocifera letras repletas de críticas sociais e autodeboche, que ele próprio escreve. O grupo, fundado em 1981, pratica "um som brutalíssimo, cara, mistura de hardcore e metal". Gravou 12 discos (todos independentes), teve "umas sete formações" e goza de fama internacional comparável à do Sepultura.

Jello Biafra -líder dos Dead Kennedys, banda californiana que virou cult entre os punks- comentou certa ocasião: "Os Ratos produzem uma barulheira maluca de barbeador elétrico. É um escândalo".

Em parte, o escândalo resulta do modo de João cantar. Voz gutural, entoa versos com uma rapidez estonteante, tornando-os propositadamente incompreensíveis. Quem, no entanto, consultar os encartes dos discos irá esbarrar em rimas do tipo: "Sofrimento na UTI/ Tortura, medo, falta de ar/ Pro inferno não quero ir/ E no céu não quero chegar".

Ocorre que o João furioso e desbocado também começa a abrigar uma faceta mais convencional e "cheirosinha", completamente insuspeitada tempos atrás. O João-família já toma banho dia sim e o outro idem (à época do radicalismo punk, o cantor via água apenas duas ou três vezes na semana). Trocou o ônibus pelos táxis -e a casa dos pais, na periferia de São Paulo, por um quarto-e-sala alugado em Moema, bairro nobre da cidade. Mora sozinho, mas planeja comprar apartamento, casar e ter filhos.

"Planejo, falô? Só que com calma: temo que, quando arrumar mulher e filhos, nasçam automaticamente em mim bigode, óculos e sapatos Vulcabrás".

Ainda que sem o Vulcabrás, é o João-família quem anda aparecendo nas principais redes de televisão como protagonista de um comercial da Kibon. Rodeado de amigos, sorridente e glutão, o vocalista vende as qualidades de uma nova sobremesa -guloseima que, longe das câmeras, ele não pode saborear. João sofre de diabetes (ou "elisabete"). "Sou elisabético, tá ligado?"

Antes de convidá-lo para o anúncio, a Kibon encomendou pesquisas que testaram a aceitação do cantor entre os consumidores-alvos do produto (homens e mulheres de 25 a 45 anos). Resultado: as pessoas ouvidas não apenas aprovaram o apresentador como lhe atribuíram os adjetivos de bonachão, legal e fofinho.

Traidor
"As pesquisas demonstram que, atualmente, o público associa João sobretudo à MTV, e não à marginalidade. Ele converteu-se em um punk de televisão. Não é mais um rebelde de carne e osso", explica Karin Schmalzigaug, diretora de marketing da Kibon.

Percival Caropreso, gerente-geral da McCann-Erickson, a agência de publicidade responsável pela campanha, expõe raciocínio idêntico: "João deixou de ser um punk de verdade e se transformou num personagem punk".

"Traiu o movimento", resume o office-boy Bruno Gomes, 21, líder da banda AAF (Ação Antifascista). Cabelo de moicano, cadeado no pescoço, camiseta com dizeres contrários à indústria do fast-food, o rapaz se proclama "anarcopunk". E desanca João: "Burguesinho, laranjão, narcisista".

Para escutar outros impropérios do gênero, basta passar uma noite de domingo no Hangar 110, reduto hardcore de São Paulo, onde neopunks costumam tocar. "João se rendeu à modinha da MTV", acusa Bruno Anderson, 20, que no último dia 8 acompanhava um show do grupo Ovelhas Miseráveis. "Aderiu às maravilhas do sistema e esqueceu que punk não é modinha".

"Pensa que me importo com o nhenhenhém da molecada? O cacete", rebate João. "Sou traidor? E daí? Integro o movimento punk internacional. O do Brasil, quero que se foda. Virou um negócio tosco, fascista, ridículo, cheio de bandidagem".

O que o incomoda de fato são as questões que ele mesmo se coloca. "Quando neguinho abraça a ideologia punk, não tem volta. Aquilo vai martelar em você por toda a vida. Pinta um comercial da Kibon, eu agarro, porque só idiota rejeita grana forte. Mas depois sofro. Fico deprimido".

A psicanálise -que faz há quatro anos- ajuda-o agora a lidar com o sucesso. "Odeio que me reconheçam, que gritem meu nome, que me bajulem. Odeio".

Confessa que desconfiava do "dr. Freud". "Preconceito, mano. O povo diz que psicólogo de pobre é pinga." A terapia, porém, ensinou-lhe a importância de se preservar.

"Agia como bicho, tá ligado? O papo de punk me trouxe apenas dor de cabeça: pobreza, discriminação, desapego à família, pancada da polícia. Durante muito tempo, não tive porra nenhuma -três camisetas, uma calça, uma jaqueta e duas cuecas. Era uma máquina de tomar drogas e de complexos".

Hoje, como apresentador da MTV, radialista, DJ de clube noturno e colaborador de sites, fatura "uns R$ 10 mil" por mês. Das drogas, jura estar distante. Dos complexos...

"Não consigo fazer milhões de coisas que uma pessoa normal faz: nadar, guiar, andar de bicicleta." Há, ainda, "o problema do físico". A obesidade (170, 180 kg para 1,85 m de altura) lhe causa desconfortos e distúrbios orgânicos que, no ano passado, o puseram em coma.

Cogita submeter-se à cirurgia de redução estomacal, mas receia estranhar-se magro. "Sou inteirinho gordo. Cabeça, pescoço, braços. Eu me chamo Gordo".

Recentemente, enredou-se em reflexões que o surpreenderam. "Sabe, cara... Essa história de punk, de radicalidade deve ser um grande esconderijo para mim. Um enorme escudo. Deve ser..."
 

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