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30/11/2001 - 16h41

George Harrison encontra a paz que buscava nos anos 60

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RÉGIS SCHWERT
especial para a Folha Online

Para usar uma expressão simples, George Harrison foi o Beatle mais gente fina. Em 1960, quando os Beatles tocavam para marinheiros bêbados e prostitutas em cabarés fedorentos de Hamburgo, a melhor acomodação que eles conseguiram foi um hotelzinho "cinco pulgas" nos fundos de um cinema pornô.

Quando a banda foi chamada para se apresentar em uma boate melhorzinha, descobriram que George era menor de idade. Aos 17 anos, já era expulso da Alemanha.

Os Beatles perderam o trabalho e tiveram que voltar para a Inglaterra, mas antes de embarcar trataram de quase incendiar o hotel e o cinema com uma camisinha em chamas. Obra de mister Paul McCartney.

O caçula dos Beatles tinha poucas ambições na época. Na verdade tudo que ele sonhava era aposentar-se com algum dinheiro.

Em fevereiro de 1964, os Beatles invadiram os EUA após terem conseguido seu primeiro lugar nas paradas "ianques" com "I Want To Hold Your Hand". O azarado George ficou doente bem na véspera da primeira aparição da banda, no "Ed Sullivan Show" _à época, uma espécie de Silvio Santos da TV norte-americana.

Com uma baita gripe, Harrison ficou de cama e não apareceu para a passagem do som no estúdio. Os outros Beatles e seu empresário, Brian Epstein, concordaram que George, mesmo morto, estaria no show.

Harrison foi submetido a doses maciças de antibióticos e teve de engolir algumas "animadoras" anfetaminas. Diz a lenda, os quatro Beatles foram ovacionados por 73 milhões de telespectadores naquela noite de 9 de fevereiro.

A beatlemania tomou proporções incríveis, a gritaria histérica das fãs durante os shows tinha tal volume que a banda era obrigada a fazer mímica enquanto se virava com playback.

Alvo de guloseimas
Em uma entrevista naquele ano, George comentara inocentemente que gostava de um caramelo, chamado Jellybeans. Bastou para que em todos os shows daquela turnê, como se tivesse uma nuvem sobre sua cabeça, chovesse sobre George uns feijõezinhos doces.

Também foi em 64 que ele conheceria Patti Boyd, uma bela loirinha de olhos azuis e, digamos, "disposta a tudo". Ela fazia uma ponta em "A Hard Day's Night". Um autógrafo do beatle foi o início do namoro, que acabou em casamento dois anos mais tarde.

Em 1968, quando gravou a trilha sonora do filme "Wonderwall", George passou a ser o primeiro beatle a lançar um trabalho solo. Talvez já fosse um sinal do fim da banda, pois George não aguentava mais ser comandado por McCartney, que, ocasionalmente, insinuava que o companheiro era desafinado.

Em 69, após uma briga com Paul e John, George sumiu e só voltou para a banda após os outros Beatles garantirem que o próximo álbum seria o último e, quanto a shows, nem pensar.

Entre uma briga e outra, os Beatles tocaram o projeto "Get Back", que depois veio a se chamar "Let It Be" _abortado pelo grupo pois não tinha a "qualidade beatle".

Mas 1969 não foi o melhor ano para ele. Uma batida policial na sua casa descobriu um tijolo de haxixe dentro de uma das botas do guitarrista.

Enquanto tentava se livrar do processo, veio "Abbey Road", este sim, o último trabalho dos Beatles e, talvez, a melhor performance de George Harrison, que contribuiu com nada menos que as maravilhosas "Something" e "Here Comes The Sun".

Após os Beatles cantarem "The End" e irem cada um para seu lado, George amargou um processo por plágio, em 1976, pela música "My Sweet Lord" (composta seis anos antes), do álbum "All Things Must Pass".

O destino não estava satisfeito e o brindaria ainda com a traição da mulher com seu então melhor amigo. Eric Clapton estava tendo um caso com Patti Harrison. Em 73, Patti deixou George para viver com Eric. Harrison se vingou no cara errado. Teve um caso com Maureen, na época senhora Ringo Starr, baterista dos Beatles, quase um irmão.

A carreira solo de Harrison nunca decolou. Poucos sucessos, muitos fracassos comerciais, produções milionárias em cinema que nunca deram retorno, o desvio de milhões de dólares de seu patrimônio pelo ex-sócio, o câncer e a tentativa de assassinato por um maluco que o esfaqueou em dezembro de 1999 transformaram os anos pós-beatles em um período negro na vida do guitarrista.

Apesar de tudo, jamais se desviou do caminho da elevação espiritual. George finalmente encontrou nesta quinta-feira, 29 de novembro de 2001, a paz que buscava desde a época em que fazia parte de um quarteto de "malucos drogados que tentavam ser honestos", segundo ele próprio.

Régis Schwert, 40, o Tchê, é editor de arte, músico e beatlemaníaco

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