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17/12/2001 - 11h15

"O Senhor dos Anéis" move devaneios pop desde os anos 60

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BIA ABRAMO
free-lance para a Folha

Harry Potter ainda precisa comer muito mingau de aveia para chegar perto da influência que "O Senhor dos Anéis" exerceu na cultura pop. Não seria exagerado afirmar que, de certa maneira, quase tudo o que guarda alguma relação com fantasia e mitologia, dos anos 60 para cá, faz referência ao universo criado por J.R.R.Tolkien (e, não, não é mera coincidência o fato de J.K. Rowling, a autora de Harry Potter, ter "escolhido" abreviar seus dois primeiros nomes).

"O Senhor dos Anéis" foi publicado pela primeira vez em 1955 na Inglaterra e chegou aos EUA numa versão pirata que, segundo o estudioso Ronald Kyrmse, 49, membro da Tolkien Society britânica, "causou furor nos campi norte-americanos". A segunda edição é de 1966 (dessa vez autorizada), o mesmo ano do "Summer of Love" de San Francisco, o "verão do amor" que marcou oficialmente o início da era hippie.

"Tolkien trouxe aos hippies um mundo alternativo, no qual o bem e o mal poderiam ser vistos com clareza. Um mundo que, apesar de complexo, era mais fácil de compreender do que o mundo da Guerra Fria e da Guerra do Vietnã em que se vivia", afirma Kyrmse.

Talvez não fosse a intenção do católico, politicamente conservador e estudioso de inglês arcaico Tolkien que seus hobbits e elfos alimentassem viagens amalucadas de jovens cabeludos e drogados, mas o fato é que o universo da Terra-Média tinha tudo para cair como uma luva no imaginário psicodélico: serezinhos estranhos, magia, nostalgia de um passado pré-tecnológico, contato com as forças telúricas e um misticismo difuso.

O curioso é que, em outra ponta, os "nerds" primordiais, aqueles que foram contemporâneos da contracultura, mas que eram bons alunos de matemática o suficiente para embrenhar-se no mundo dos computadores, também eram fãs ardorosos da saga dos Anéis, talvez pelo fato de as aventuras passarem-se em um mundo mais ordenado do que o mundo real. Por um lado ou por outro, música, cinema, jogos, livros continuam a pagar tributo à mitologia complexa criada por Tolkien em "O Senhor dos Anéis", "O Hobbit" e "Silmarillion".

Na música, embora uma lista compilada pelo site The Tolkien Music List (http://www.vikings.lv/witchcraft/ jrrt/) tenha reunido algo como 614 músicos e bandas de alguma forma influenciados pelo escritor, num espectro de estilos que vai da new age às diversas variantes do metal, o progressivo e o hard-rock dos anos 70 foram os que mais se inspiraram em sua mitologia. Uma nota histórica: por estranho que pareça hoje, os dois gêneros eram bastante aparentados naquela década. De certa forma, ambos acreditavam no virtuosismo instrumental, na erudição roqueira em contraste com a superficialidade do pop e, sobretudo, levavam-se muito a sério.

Robert Plant, líder do Led Zeppelin, era fã de "O Senhor dos Anéis" e várias letras, como "Ramble On", do "Led Zeppelin 2", e "The Battle of Evermore" e "Misty Mountain Hop", do "Led Zeppelin 4", fazem referências diretas à saga. Já o Marillion foi mais fundo e simplesmente roubou o nome do "Silmarillion", mas teve que modificá-lo por pressão da sociedade Tolkien britânica.

O Jethro Tull foi buscar inspiração nas mesmas fontes de Tolkien para seu folk rock de tinturas medievais e o "menestrel" Ian Anderson praticamente encarnou um personagem de Tolkien (o misterioso Tom Bombadil?). E Rick Wakeman, o homem que mais acreditou no rock sinfônico em toda a história do pop, cometeu uma versão para muitos teclados de "O Senhor dos Anéis".

É notável que, com tantos fãs no mundo inteiro e tanto impacto na cultura pop, o cinema só tenha se arriscado agora a fazer uma adaptação. O desenho animado "O Senhor dos Anéis" nem conta de tão frustrante e tosco. Isso não quer dizer que não tenha havido influência: é mais difusa, mas não menos importante. Há muito de "O Senhor dos Anéis" em "Guerra nas Estrelas": o formato saga, um grupo de seres diferentes lutando contra um mal comum, o Mal na forma de guerreiros cavaleiros que manipulam uma força algo mística. E o sucesso e impacto de "Guerra nas Estrelas" no cenário cinematográfico dos anos 70 abriu caminho para um sem-número de épicos fantásticos infanto-juvenis, como "Willow", "A Lenda", "Labirinto" e "A Princesa Prometida".

E, claro, J.K. deve muito mais a J.R.R do que apenas o mesmo estilo de crédito em seus livros. Harry, como Frodo, é um homem (tanto faz em qual de suas variações, menino ou hobbit) de origem comum, dotado circunstancialmente de poderes extraordinários e imbuído de uma missão para a qual se julga menor, incapaz, mas, por conta de coragem, inteligência e humildade para aceitar ajuda dos amigos, acaba por dar conta da enorme tarefa. Não é à toa que, puxado pelo sucesso dos quatro volumes de Harry Potter, "O Senhor dos Anéis" tenha entrado nas listas dos mais vendidos. Essa febre por magia, universos fantásticos e convivência com seres diferentes de nós, humanos, começou muitos e muitos anos atrás, em 1917, quando Tolkien escreveu num pedaço de papel: "Num buraco no chão morava um hobbit".
 

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