18/12/2001
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09h44
da Folha de S.Paulo
Beth Carvalho, 55, paga uma dívida de 28 anos e dedica, em "Nome Sagrado", um trabalho inteiro a seu padrinho e mentor musical, Nelson Cavaquinho (1910-86).
Em 1973, Beth havia decidido abandonar o barco meio canção de protesto, meio bossa nova em que navegara nos anos 60, como legítima garota de Ipanema que era, para abraçar o samba.
Conquistou de Nelson, que havia anos ela perseguia timidamente pelos bares da Lapa, a inédita "Folhas Secas" -ele tocou cavaquinho na gravação.
"No princípio, não me aproximava, porque ele bebia e eu tinha um pouquinho de medo, achava que ele poderia ser agressivo. Via ele cantando nos bares para mendigos, prostitutas, intelectuais e jornalistas. Um dia tomei coragem. Para mim, ele é o melhor compositor que conheço", diz.
Houve acidentes de percurso na criação daquele primeiro disco de samba, em 73. Beth chamou para produzir o LP "Canto por um Novo Dia" Cesar Camargo Mariano, também mais íntimo da bossa (e do samba-jazz) que do samba. Cesar era marido de Elis Regina, que ouviu em casa o samba de Nelson para Beth e o interceptou para seu LP "Elis".
"Virei bicho. Eu mandava na gravadora (Top Tape), que era bem pequena, e exigi que fosse lançado um compacto na hora. Saiu antes do da Elis, mas a gravadora dela (Philips) foi às rádios e amassou os discos todos para não tocarem. Foi uma guerra."
Fala da relação com Elis: "Nunca tive nenhum sentimento por ela, achava uma grande cantora. Ficou com vergonha de mim porque nunca mais falei com ela".
De volta ao presente, Beth fez questão que a gravadora Jam Music lançasse "Nome Sagrado" em bancas de jornal (por R$ 14,90), na tentativa de devolver ao autor de "Luz Negra", "Juízo Final" e "A Flor e o Espinho" a popularidade que sempre lhe pertenceu.
Quando se conheceram, Nelson vivia um segundo período de ostracismo -já ficara praticamente desconhecido até 64, quando Nara Leão e Elizeth Cardoso passaram a recuperar sambistas do morro, como ele e Cartola.
Sem modéstia, Beth fala da nova renascença que propiciou a Nelson e também a Cartola, ao trazer à tona a então desconhecida "As Rosas Não Falam", em 76.
"Nelson teve uma vida muito melhor depois disso. Cantava em restaurantes em troca de comida, passou a beber bem menos quando ficou meu amigo, pôde gravar seus discos. Quando gravei "As Rosas Não Falam", Cartola servia cafezinho em repartição pública. Passou a gravar todo ano na RCA, para onde eu havia ido." Pensando bem, a dívida de Beth já estava paga, ou nem houve.
Beth Carvalho acerta contas com Nelson Cavaquinho em novo CD
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PEDRO ALEXANDRE SANCHESda Folha de S.Paulo
Beth Carvalho, 55, paga uma dívida de 28 anos e dedica, em "Nome Sagrado", um trabalho inteiro a seu padrinho e mentor musical, Nelson Cavaquinho (1910-86).
Em 1973, Beth havia decidido abandonar o barco meio canção de protesto, meio bossa nova em que navegara nos anos 60, como legítima garota de Ipanema que era, para abraçar o samba.
Conquistou de Nelson, que havia anos ela perseguia timidamente pelos bares da Lapa, a inédita "Folhas Secas" -ele tocou cavaquinho na gravação.
"No princípio, não me aproximava, porque ele bebia e eu tinha um pouquinho de medo, achava que ele poderia ser agressivo. Via ele cantando nos bares para mendigos, prostitutas, intelectuais e jornalistas. Um dia tomei coragem. Para mim, ele é o melhor compositor que conheço", diz.
Houve acidentes de percurso na criação daquele primeiro disco de samba, em 73. Beth chamou para produzir o LP "Canto por um Novo Dia" Cesar Camargo Mariano, também mais íntimo da bossa (e do samba-jazz) que do samba. Cesar era marido de Elis Regina, que ouviu em casa o samba de Nelson para Beth e o interceptou para seu LP "Elis".
"Virei bicho. Eu mandava na gravadora (Top Tape), que era bem pequena, e exigi que fosse lançado um compacto na hora. Saiu antes do da Elis, mas a gravadora dela (Philips) foi às rádios e amassou os discos todos para não tocarem. Foi uma guerra."
Fala da relação com Elis: "Nunca tive nenhum sentimento por ela, achava uma grande cantora. Ficou com vergonha de mim porque nunca mais falei com ela".
De volta ao presente, Beth fez questão que a gravadora Jam Music lançasse "Nome Sagrado" em bancas de jornal (por R$ 14,90), na tentativa de devolver ao autor de "Luz Negra", "Juízo Final" e "A Flor e o Espinho" a popularidade que sempre lhe pertenceu.
Quando se conheceram, Nelson vivia um segundo período de ostracismo -já ficara praticamente desconhecido até 64, quando Nara Leão e Elizeth Cardoso passaram a recuperar sambistas do morro, como ele e Cartola.
Sem modéstia, Beth fala da nova renascença que propiciou a Nelson e também a Cartola, ao trazer à tona a então desconhecida "As Rosas Não Falam", em 76.
"Nelson teve uma vida muito melhor depois disso. Cantava em restaurantes em troca de comida, passou a beber bem menos quando ficou meu amigo, pôde gravar seus discos. Quando gravei "As Rosas Não Falam", Cartola servia cafezinho em repartição pública. Passou a gravar todo ano na RCA, para onde eu havia ido." Pensando bem, a dívida de Beth já estava paga, ou nem houve.


