Ilustrada
10/06/2002 - 12h53

Opinião: "Cabeças" do Brasil não gostam de filme bem-feito

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ÁLVARO PEREIRA JÚNIOR
da Folha de S.Paulo

O espetacular filme "Memento" (no Brasil, "Amnésia") passou quase batido por aqui. A crítica ficou de pé atrás. O público meio que ignorou. Quase ninguém lembra mais (nenhuma referência ao enredo do filme).

Cheguei a ler na Folha que se tratava apenas de uma "enganação". Isso para se referir a um filme que conta, sem furo de roteiro, a história de um crime de trás para a frente! As estrelas economizadas com "Memento" foram, claro, gastas para elogiar, imagino, um filme turco sobre uma criancinha em busca de alguma coisa.

O mesmo desprezo recebem outras fitas independentes americanas e inglesas exibidas no Brasil. A produção californiana "Até o Fim" é uma que está em cartaz sem repercussão. O inglês "Sexy Beast", dirigido por Jonathan Glazer (autor também de clipes do Massive Attack e do Radiohead), deve ter ficado nos cinemas brasileiros uns três dias. Também foi malhado pelos "especialistas".

"A Promessa", de Sean Penn, passou em um festival paulistano. E ficou nisso. "Heist", de David Mamet, com Gene Hackman, nem baixou por aqui.

Todos os filmes citados foram produzidos nos últimos três anos. Todos tiveram relativo sucesso de público -para os padrões de cinema alternativo- e foram bem recebidos (alguns muito bem recebidos) pela crítica dos EUA. Mas nada sensibilizou os brazucas.

Acho que isso só pode ter uma explicação: brasileiro "cabeça" acha que filme de arte deve ser "artístico". "Memento", "Até o Fim", "Sexy Beast", "Heist" e "A Promessa" têm, em comum, enredos bem engendrados, atuações humanas e firmeza na direção.

Mas o público "cabeça" brasileiro não se preocupa com nada disso. Para começar, tem preconceito contra os EUA. E prefere virtuosismos, "mensagens", filmes pretensamente explicadores da condição humana.

Filme independente americano, para fazer sucesso no Brasil, precisa ser muito, muito "artístico" mesmo. Como "Cidade dos Sonhos", de David Lynch, um clichê em celulóide que traz tudo o que determinado público espera do cinema "de arte".

Por incrível que pareça, continuam a chegar e-mails para esta coluna a respeito do texto que escrevi, há mais de um mês, criticando "Cidade dos Sonhos". O melhor recebi na semana passada: um guia para entender o enredo! Imprimi e deu oito páginas. Para os "sofisticados" espectadores brasileiros, claro, filme bom é isso aí.

Fazendo um paralelo com a Copa, os filmes listados nos primeiros parágrafos deste texto são como o futebol de Verón, meio-campo da Argentina. Com elegância, buscam a perfeição por meio da simplicidade. Um jeito de viver -e filmar e jogar- em que "less is more", para usar um lugar-comum inglês.

"Cidade dos Sonhos", ao contrário, é uma espécie de Denílson, forma massacrando o conteúdo, a firula pela firula, o realizador maneirista que se esquece de seu objetivo.


 

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